Pisa 2025 relaciona o uso frequente de chatbots a
um desempenho escolar mais baixo; especialista ensina cinco formas de
transformar a tecnologia em aliada
O
uso da inteligência artificial para escrever trabalhos, resumir textos e
estudar novos conteúdos pode facilitar a rotina, mas não significa,
necessariamente, aprender mais. Divulgado pela OCDE em 8 de setembro, o
relatório Pisa 2025 mostra que estudantes que utilizam chatbots com frequência
apresentaram notas mais baixas em ciências.
Entre
os alunos que nunca ou quase nunca usam IA para escrever textos escolares, a
média foi de 509 pontos. Já entre os que recorrem à ferramenta quase todos os
dias, caiu para 481 pontos. A diferença de 28 pontos, mesmo após considerar o
nível socioeconômico dos participantes, equivale a aproximadamente um ano e
meio de escolaridade.
O
resultado, porém, não comprova que a inteligência artificial seja a causa
direta das notas mais baixas. “Pode ser que o aluno que já enfrenta
dificuldades seja justamente aquele que mais procura o chatbot. O dado não
permite dizer que a IA está ‘emburrecendo’ os adolescentes, mas mostra que ela
ainda não conseguiu reduzir as dificuldades de aprendizagem”, explica Mariana
Ruske, pedagoga e especialista em neurociência da Senses Montessori School.
No
Brasil, 47,8% dos estudantes usam chatbots ao menos uma vez por semana para aprender.
Ao mesmo tempo, apenas 51,2% realizam em sala de aula atividades que ensinam a
avaliar criticamente as respostas da IA, abaixo da média de 62,6% dos países da
OCDE.
“A
aprendizagem exige esforço, tentativa, erro e uma dose de frustração. Quando a
IA entrega a resposta antes que o estudante pense sobre o assunto, ela pode
eliminar justamente a etapa em que o conhecimento é construído”, afirma
Mariana.
Cinco formas de usar a IA sem prejudicar a aprendizagem
1. Pensar antes de consultar
O
estudante deve tentar resolver a questão, organizar as ideias ou escrever uma
primeira versão antes de recorrer à ferramenta. “A ordem importa: primeiro o
aluno pensa, depois consulta a IA. Ela deve apoiar o raciocínio, não substituir
o começo do processo.”
2. Pedir perguntas em vez de respostas
Uma
alternativa é pedir que a IA faça perguntas, apresente contrapontos ou encontre
falhas no raciocínio. “Quando o aluno pede que a ferramenta discorde dele, o
esforço permanece com quem precisa aprender.”
3. Procurar os erros da IA
Professores
podem apresentar respostas geradas por chatbots e pedir aos alunos que identifiquem
informações imprecisas ou sem fontes. Segundo o Pisa, estudantes que usam IA
diariamente, mas são ensinados a avaliar criticamente seu conteúdo, alcançaram
13 pontos a mais em ciências. “A IA pode errar com muita segurança. Aprender a
questioná-la desenvolve pensamento crítico.”
4. Explicar o trabalho com as próprias palavras
Para
saber se houve aprendizado, basta pedir ao aluno que conte o conteúdo sem consultar
o texto. “Se ele não consegue explicar, dar exemplos ou defender o que entregou,
quem fez o trabalho foi a ferramenta. O erro e a dúvida também fazem parte da
aprendizagem.”
5. Manter a leitura e a escrita fora das telas
Ler
no papel, sublinhar, escrever as ideias centrais e elaborar mapas mentais à mão
ajudam na compreensão e na memorização. “Os estudantes podem até ler mais
rápido nas telas, mas isso não significa que estejam entendendo e retendo
melhor.”
Para
Mariana, proibir totalmente a IA não resolve. Apenas 14% dos adolescentes
avaliados afirmaram nunca utilizar a tecnologia em trabalhos escolares. A saída
está na orientação conjunta de professores e famílias.
“Quase
todos têm acesso à ferramenta, mas muitos ainda não têm alguém que os ensine a desconfiar
dela. Quando o estudante aprende a perguntar, verificar e discordar, a IA pode
se tornar uma grande aliada. Sem orientação, ela vira uma muleta e amplia as
desigualdades que já existem”, conclui.
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