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Uma pessoa pode passar o dia inteiro trocando mensagens, participar de grupos, acompanhar centenas de perfis e ainda terminar a noite com a sensação de que não tem para quem ligar quando alguma coisa não vai bem. Esse é um dos paradoxos da vida contemporânea: a tecnologia ampliou as possibilidades de contato, mas não necessariamente ampliou a sensação de pertencimento.
Em uma sociedade marcada pela hiperconexão, discutir saúde mental também significa falar sobre a qualidade dos vínculos, a capacidade de pedir ajuda e a existência de redes de apoio. “A tecnologia facilita o contato, mas vínculo é outra coisa. Para que uma relação se transforme em uma fonte de apoio, são necessários elementos como confiança, reciprocidade, disponibilidade e acolhimento”, explica Jussara Aguiar, psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da UniFG Bahia, integrante da Ânima Educação, o maior e mais inovador ecossistema de ensino de qualidade do Brasil.
O
ambiente digital pode, inclusive, acrescentar novas camadas ao sentimento de
solidão. A comparação permanente com a vida aparentemente perfeita de outras
pessoas, a necessidade de aprovação, o receio de rejeição e a dificuldade de
mostrar fragilidades podem fazer com que as relações permaneçam na superfície.
O problema não está simplesmente em usar redes sociais, mas em quando a
quantidade de interações passa a esconder a ausência de espaços onde seja
possível falar sobre aquilo que realmente importa.
Sinais de sofrimento emocional
Estar sozinho não significa estar em sofrimento. Ter momentos de solitude, quando a própria pessoa escolhe se afastar temporariamente dos outros, pode ser saudável e necessário. O sinal de alerta aparece quando o isolamento é involuntário, persistente e começa a interferir na vida cotidiana. Por isso, tem se falado cada vez mais sobre a importância da saúde social dos indivíduos.
Nesses casos, podem surgir tristeza, ansiedade, desesperança, baixa autoestima, alterações no sono, perda de interesse por atividades antes prazerosas e uma sensação de não pertencimento. O afastamento também pode reduzir os recursos que ajudam a enfrentar períodos difíceis, como conversar com uma pessoa de confiança, participar de atividades coletivas ou simplesmente saber que existe alguém disponível para ouvir.
Mudanças
repentinas de comportamento merecem atenção. “Quando uma pessoa que costumava
participar de atividades passa a se afastar, perde o interesse pelas coisas,
demonstra desesperança ou faz manifestações relacionadas à morte, é importante
não ignorar esses sinais. Eles não permitem, isoladamente, concluir que existe
risco de suicídio, mas indicam a necessidade de aproximação e escuta”, explica
Aguiar.
O isolamento também tem causas sociais
Falar sobre solidão exige cuidado para não transformar um problema coletivo em responsabilidade individual. Nem sempre uma pessoa está isolada porque “não se esforça para fazer amigos” ou porque “precisa sair mais”. Desemprego, violência, discriminação, desigualdade social, excesso de trabalho, competitividade e a perda de espaços comunitários podem limitar as oportunidades de convivência e produzir sofrimento. Por isso, uma abordagem responsável precisa considerar o contexto em que cada pessoa vive.
“O
cuidado não pode partir da ideia de que basta o indivíduo mudar seu
comportamento. Existem situações sociais que produzem afastamento e
vulnerabilidade. Reconhecer isso é importante para que não transformemos
sofrimento em culpa”, ressalta Jussara Aguiar.
Como ajudar
Redes protetoras não são necessariamente aquelas com maior número de contatos, mas as que oferecem espaço para ser ouvido sem julgamento. Perguntar genuinamente como alguém está, perceber alterações, respeitar o tempo do outro e demonstrar disponibilidade podem fazer diferença.
“Também ajudam os encontros presenciais, a participação em atividades culturais, esportivas ou comunitárias e a retomada de contatos que foram se perdendo ao longo do tempo. Em muitos casos, não é necessário apresentar uma solução imediata. Escutar e permanecer próximo já pode ser uma forma concreta de cuidado”, destaca a educadora.
A psicoterapia também pode contribuir para esse processo. O acompanhamento profissional oferece um espaço protegido para compreender sentimentos, trabalhar autoestima e autonomia, desenvolver formas mais saudáveis de comunicação e identificar situações de sofrimento que demandem atenção.
Mas
ainda segundo a especialista, a terapia não substitui a rede de relações. O
cuidado em saúde mental não precisa e não deve ser colocado exclusivamente
sobre a pessoa que está sofrendo. Família, amigos, comunidade, profissionais e
serviços de saúde podem participar dessa rede. No Setembro Amarelo, a prevenção
precisa ir além do incentivo genérico para que alguém “procure ajuda”. “É
preciso criar condições para que falar sobre sofrimento seja possível antes que
ele se torne insuportável”, frisa Jussara Aguiar.
Serviço
Para
apoio emocional, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por
dia. Em caso de risco imediato ou manifestação de intenção suicida, é
necessário buscar atendimento de urgência, acionar o SAMU pelo 192 ou procurar
uma UPA ou pronto-socorro.
UniFG BA
www.centrouniversitariounifg.edu.br
Ânima Educação

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