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sábado, 12 de setembro de 2026

Quem cuida de quem cuida

 Burnout atinge quase quatro em cada dez veterinários e expõe uma emergência silenciosa entre profissionais que convivem diariamente com dor, luto, eutanásia e decisões de vida ou morte


Por trás de cada animal atendido existe um profissional submetido a uma combinação pouco visível de sobrecarga, responsabilidade clínica, pressão financeira, conflitos com tutores e contato repetido com sofrimento e morte. No mês em que se celebra o Dia do Médico-Veterinário, a médica-veterinária e pesquisadora Dra. Aline Gonçalves Goulart faz um alerta: proteger a saúde de animais e pessoas também exige cuidar da saúde mental de quem sustenta esse trabalho.

O alerta encontra respaldo em uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026. Ao reunir 34 estudos, 35.202 veterinários e dados de 13 países, os pesquisadores estimaram prevalência global de burnout de 38,68%. Em termos simples, o resultado se aproxima de dois profissionais afetados em cada cinco avaliados. Carga de trabalho e jornadas extensas apareceram entre os estressores mais recorrentes.

A Organização Mundial da Saúde define o burnout como um fenômeno ocupacional resultante de estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente. Ele se caracteriza por exaustão, maior distanciamento mental ou sentimentos negativos em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. A definição é importante porque desloca o debate da suposta fragilidade individual para as condições em que o trabalho é realizado.

“O veterinário também é humano. Não podemos continuar tratando disponibilidade permanente, jornadas intermináveis e sofrimento silencioso como provas de amor à profissão. Pedir ajuda não reduz competência; cria condições para cuidar com presença, ética e segurança”, afirma a Dra. Aline.


Uma profissão da saúde sob pressão

A Medicina Veterinária integra a saúde pública, a vigilância de zoonoses, a segurança dos alimentos, a pesquisa, a conservação ambiental e o cuidado clínico dos animais. Essa amplitude faz do médico-veterinário um profissional central para a Saúde Única, abordagem que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. Mas o conceito fica incompleto quando ignora a saúde de quem executa o cuidado.

Na prática clínica, esses profissionais comunicam diagnósticos difíceis, acompanham famílias em luto, enfrentam emergências, realizam eutanásias e precisam equilibrar o tratamento ideal com os limites financeiros do tutor. Uma revisão de 2024 que examinou 78 estudos encontrou pesquisas sobre burnout, ansiedade, depressão, estresse ocupacional, sofrimento moral, fadiga por compaixão e sofrimento relacionado à eutanásia na força de trabalho veterinária.

Outro estudo, publicado no Veterinary Record, avaliou 141 veterinários espanhóis: 19,8% relataram diagnóstico de ansiedade ou depressão, enquanto outros 31,9% disseram não ter diagnóstico, mas sentir necessidade de tratamento. Por ser uma pesquisa transversal e regional, o dado não deve ser extrapolado para todos os veterinários; ainda assim, reforça um padrão de sofrimento que aparece de forma consistente na literatura internacional.


Fadiga por compaixão não é falta de vocação

Entre os conceitos que ajudam a explicar esse desgaste está a fadiga por compaixão, associada à exaustão emocional e física decorrente da exposição prolongada ao sofrimento de outros seres. Uma revisão sistemática de 2024 identificou seis instrumentos usados para medi-la em profissionais da saúde animal, mas concluiu que ainda faltam ferramentas suficientemente validadas e específicas para a categoria. A lacuna mostra que o problema é reconhecido, embora sua mensuração ainda precise avançar.

Para a Dra. Aline, amar os animais não protege automaticamente contra o adoecimento. Em alguns casos, o envolvimento profundo aumenta o impacto de uma perda, de um tratamento inviável ou da sensação de não ter conseguido salvar um paciente. “O sofrimento não nasce da falta de amor pela profissão. Muitas vezes, nasce justamente da exposição contínua à responsabilidade, à dor e à expectativa de resolver tudo”, explica.


Cuidado precisa entrar na rotina das equipes

A prevenção não pode ser limitada a recomendações de autocuidado. Medidas institucionais incluem dimensionamento adequado das equipes, controle de jornadas, pausas e descanso, protocolos para situações de violência e assédio, comunicação segura com tutores, espaços de escuta após perdas e eventos críticos, acesso confidencial a apoio psicológico e capacitação de lideranças para reconhecer sinais de sofrimento. A OMS recomenda intervenções organizacionais sobre carga de trabalho, horários, comunicação e trabalho em equipe para reduzir riscos psicossociais.

As universidades também têm papel preventivo. Preparar estudantes para conversas difíceis, luto, eutanásia, limites profissionais e tomada de decisão ética pode reduzir o choque entre a formação técnica e a realidade emocional do exercício profissional. Conselhos, clínicas, hospitais, laboratórios, universidades e gestores públicos precisam tratar saúde mental como parte da segurança e da qualidade assistencial.

“Não existe cuidado de qualidade quando quem cuida está adoecendo em silêncio. Saúde Única também começa por quem sustenta o cuidado”, resume a pesquisadora.


Sinais que merecem atenção

  • exaustão persistente e sensação de não se recuperar mesmo após o descanso;
  • irritabilidade, cinismo, distanciamento emocional ou perda de sentido no trabalho;
  • alterações importantes de sono, apetite, concentração ou desempenho;
  • isolamento, culpa intensa, uso de álcool ou medicamentos para suportar a rotina;
  • sensação de desesperança, sofrimento intenso ou pensamentos de morte.

Esses sinais não substituem avaliação profissional. Diante de sofrimento persistente, recomenda-se procurar psicólogo, psiquiatra ou um serviço de saúde. Em situação de crise ou risco imediato, busque atendimento de urgência. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.


Fonte:

Dra. Aline Gonçalves Goulart é médica-veterinária, pesquisadora e referência em Endocanabinologia Veterinária. Atua na interface entre ciência, cuidado animal, educação e promoção de práticas responsáveis em saúde veterinária.


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