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sábado, 12 de setembro de 2026

Hiperfoco e procrastinação: por que uma pessoa com TDAH pode passar horas concentrada e, ainda assim, adiar tarefas simples?

Neurologista Dr. Matheus Trilico explica por que momentos de concentração intensa não excluem o TDAH e alerta: procrastinar, por si só, também não significa ter o transtorno

 

Passar horas completamente concentrado em uma atividade e, pouco depois, não conseguir começar uma tarefa aparentemente simples pode parecer uma contradição. Para alguns adultos com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), no entanto, essa diferença pode estar relacionada à maneira como a atenção é regulada.

É nesse contexto que aparece um termo cada vez mais conhecido: o hiperfoco.

Segundo o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no atendimento de adultos com TDAH e Transtorno do Espectro Autista (TEA), é um equívoco imaginar o TDAH simplesmente como uma incapacidade de prestar atenção.

“Uma das questões importantes no TDAH é a regulação da atenção. A pessoa pode ter dificuldade para iniciar ou sustentar uma atividade pouco estimulante e, em outro momento, permanecer profundamente envolvida em algo que desperta muito interesse”, explica.

Durante esses períodos de concentração intensa, algumas pessoas podem permanecer por horas envolvidas em uma atividade, com dificuldade até mesmo para perceber a passagem do tempo ou interromper o que estão fazendo. A questão, portanto, não é apenas conseguir ou não se concentrar, mas também conseguir direcionar, sustentar e mudar o foco de acordo com as necessidades do momento.

Do outro lado pode aparecer a procrastinação. Responder uma mensagem importante, organizar documentos, pagar uma conta, iniciar um relatório ou realizar uma tarefa doméstica são exemplos de atividades que podem ser sucessivamente adiadas.

Mas Dr. Matheus faz uma ressalva importante: procrastinação não é diagnóstico de TDAH.

Qualquer pessoa pode procrastinar, principalmente diante de tarefas consideradas desagradáveis ou pouco interessantes. Cansaço, estresse, sobrecarga, noites mal dormidas e outras condições também podem interferir na atenção, na disposição e na capacidade de iniciar uma atividade.

“O diagnóstico não pode ser feito a partir de um comportamento isolado. É preciso avaliar o conjunto de sintomas, a persistência dessas características, o histórico desde a infância e se existem prejuízos em diferentes áreas da vida”, ressalta Dr. Matheus.


Quando até começar parece difícil

Para alguns adultos com TDAH, uma dificuldade importante está justamente na passagem entre saber que algo precisa ser feito e conseguir iniciar a ação.

Por isso, algumas estratégias de organização podem ser úteis. Dividir uma atividade em etapas menores é uma delas. Em vez de estabelecer como primeira meta “terminar o relatório”, por exemplo, o primeiro passo pode ser simplesmente abrir o documento.

Também pode ajudar definir previamente quando e onde determinada tarefa será realizada, utilizar lembretes visíveis e deixar materiais preparados com antecedência. Pequenas mudanças podem reduzir as etapas necessárias até o início da atividade.

Essas estratégias, entretanto, não substituem uma avaliação especializada quando as dificuldades são persistentes e provocam impacto significativo na rotina.

Para Dr. Matheus, compreender como hiperfoco, procrastinação e regulação da atenção podem se relacionar também ajuda a afastar uma interpretação que ainda acompanha muitos adultos com TDAH: a ideia de que tudo seria apenas falta de esforço, interesse ou disciplina.

“Entender como aquela pessoa funciona permite buscar estratégias mais adequadas e, quando existe um transtorno, indicar o acompanhamento necessário. O diagnóstico não deve servir para explicar qualquer comportamento, mas para compreender um padrão que provoca prejuízos reais na vida”, finaliza.

 

Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818 - Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR; Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA).


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