O crescimento global das apostas digitais tem ampliado significativamente o acesso ao jogo, transformando smartphones em verdadeiros “cassinos portáteis”. Com uso fácil, facilmente se torna uma prática sem controle, persistente e silenciosa com impacto direto sobre as populações vulneráveis.
Por outro lado, o aumento do envelhecimento populacional tem trazido à tona questões complexas que extrapolam o campo puramente técnico da medicina e alcançam dimensões comportamentais, familiares, sociais e econômicas.
Dentre elas, destaco o envolvimento de idosos com jogos de azar, uma prática frequentemente associada ao lazer que, no entanto, com o número crescente de apostas por pessoas na terceira idade, revela-se preocupante, sinalizando para um importante problema de saúde pública.
A vulnerabilidade do idoso frente aos jogos de azar decorre de múltiplos fatores interligados. A aposentadoria, a redução da renda ativa, o aumento do tempo livre e mudanças no papel social podem favorecer a busca por novas formas de ocupação e lazer.
Soma-se a isso a vivência de perdas afetivas, isolamento social e sintomas depressivos ou ansiosos. Nesse cenário, as apostas, especialmente as digitais, passam a funcionar não apenas como entretenimento, mas como tentativa da busca por uma compensação emocional ou financeira.
Diferentemente de outras modalidades de jogo, como o Bingo, por exemplo, nos quais há uma interação social, esse tipo de aposta tende a aumentar o isolamento.
As consequências associadas com a dependência em jogos de azar são amplas e frequentemente interdependentes.
No campo da saúde mental, há forte associação com depressão, ansiedade, estresse crônico e maior risco de ideação suicida, isolamento social.
No âmbito financeiro, observa-se o comprometimento de economias acumuladas ao longo da vida, endividamento e perda de autonomia.
No contexto familiar, o impacto se traduz em conflitos, perda de confiança, sobrecarga emocional e afastamento progressivo. Muitas vezes, o comportamento é ocultado por vergonha, o que retarda o diagnóstico e dificulta a intervenção precoce. Adicionalmente, o estresse contínuo pode agravar condições clínicas pré-existentes, como doenças cardiovasculares e distúrbios do sono.
É importante ressaltar que o ato de jogar, em si, não deve ser considerado uma patologia. Quando praticado de forma ocasional e dentro de limites bem definidos, pode integrar atividades recreativas. No entanto, a ausência de controle, o uso de recursos essenciais, a tentativa recorrente de recuperar perdas e o impacto negativo na vida pessoal, financeira e social configuram sinais de alerta relevantes.
A prevenção e o manejo do vício em jogos de azar na terceira idade exigem uma abordagem multidimensional. Estratégias individuais, como o estabelecimento de limites claros, devem ser associadas ao suporte familiar, ao estímulo de atividades sociais e cognitivas alternativas e, quando necessário, à intervenção profissional. A terapia cognitivo-comportamental e os grupos de apoio figuram entre as abordagens bem eficazes. Paralelamente, é fundamental o avanço de políticas públicas que promovam educação financeira, regulação da publicidade e ampliação do acesso a serviços de saúde mental.
Quando comparado ao cenário internacional, o Brasil apresenta um paradoxo preocupante: ao mesmo tempo em que se torna um dos mercados de apostas que mais crescem no mundo, ainda carece de uma estrutura consolidada de prevenção, monitoramento e tratamento.
Diferentemente de países com políticas mais robustas, o avanço das apostas online no Brasil ocorreu de forma rápida, impulsionado por publicidade intensa, facilidade de acesso e baixa educação financeira da população.
Diante desse cenário, o crescimento das apostas online, em especial as chamadas “bets”, redefine o debate sobre jogos de azar na terceira idade. Trata-se não apenas de uma questão individual, mas de um fenômeno coletivo, com implicações diretas para a saúde pública, a economia e a estrutura familiar. Promover informação qualificada, reduzir o estigma e ampliar o acesso ao cuidado são medidas essenciais para garantir que o envelhecimento ocorra com dignidade, autonomia e qualidade de vida.
Dr. Kleber Duarte, Neurocirurgião - O Dr. Kleber
Duarte é médico neurocirurgião com quase 30 anos de experiência na área de
neurocirurgia funcional e dor. Atualmente é coordenador do Serviço de
Neurocirurgia para Saúde Suplementar e Neurocirurgia em Dor do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Tem amplo conhecimento e alta
qualificação em técnicas cirúrgicas e de estereotaxia para tratamento de
doenças que comprometem o sistema motor e em

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