Após decisão judicial negar viagem na cabine, animal é perdido durante conexão em São Paulo; reviravolta no caso leva Justiça a rever posição
Uma viagem
internacional que deveria marcar uma nova etapa de vida terminou em desespero
para a engenheira de produção Renata Mollossi Rambo, de 27 anos. Ao embarcar de
Porto Alegre com destino a Frankfurt, na Alemanha, ela foi obrigada a despachar
seu cachorro, Nacho, um beagle idoso, no compartimento de cargas da aeronave.
Horas depois, durante a conexão em São Paulo, o animal simplesmente desapareceu
dentro do aeroporto, e só foi encontrado graças à iniciativa de terceiros, sem
qualquer suporte da companhia aérea.
A situação ocorreu
após uma disputa judicial. Renata havia conseguido inicialmente uma liminar que
autorizava o transporte do pet na cabine, mas a decisão foi revertida após a
companhia aérea alegar que o transporte no bagageiro seria seguro. Com isso,
Nacho foi embarcado no compartimento inferior da aeronave no primeiro trecho da
viagem.
O problema surgiu
na conexão. Ao desembarcar em São Paulo, Renata percebeu que não havia
informações sobre o paradeiro do cachorro.
“Foi literalmente
desesperador. Eu me sentia completamente impotente. Escutava eles falando no
rádio sobre malas, enquanto havia um ser vivo, parte da minha família, perdido.
E ninguém parecia preocupado”, relata.
Segundo ela, a
ausência de informações e a postura da equipe agravaram a situação. “O tempo
passava e diziam para eu ficar tranquila, mas ninguém estava se importando.
Como se ele fosse mais uma mala. Isso foi o mais difícil, porque eu sabia que
ele não estaria seguro, e por isso fiz de tudo para levá-lo na cabine, o que
foi negado”, afirma.
Durante cerca de
quatro horas, Renata buscou ajuda por diferentes canais, sem sucesso. Nem o
atendimento presencial, nem o suporte digital da companhia aérea conseguiram
localizar o animal.
“Não houve
comunicação nenhuma, muito menos suporte. Acionei o WhatsApp, fui transferida
para um atendente humano que nunca me respondeu. No aeroporto, ninguém sabia
onde ele estava. Eu senti, sim, que poderia não encontrá-lo ou que encontraria
ele sem vida”, conta.
Nacho só foi
encontrado porque pessoas que circulavam pelo aeroporto notaram uma caixa
aparentemente abandonada e decidiram entrar em contato com a tutora, cujo
telefone estava escrito à mão no compartimento. O cachorro estava em outro
ponto do terminal, sem qualquer identificação ou monitoramento por parte da
companhia.
Além do susto, o
reencontro revelou sinais claros de trauma no animal, segundo a tutora.
“O Nacho sempre
foi um cachorro extremamente sociável, ama pessoas. Mas nos vídeos que
recebemos, ele estava imóvel, cabisbaixo, não reagia a ninguém. Só reagiu
quando chegamos, chorando e arranhando a caixa. Um comportamento que nunca
vimos. Se foi traumático para nós, imagina para ele”, relata.
Diante do
ocorrido, a defesa da passageira apresentou as evidências à Justiça, que
reconsiderou a decisão inicial e autorizou o transporte do cachorro na cabine
no segundo trecho da viagem. O embarque ocorreu sem novos incidentes, e o
animal seguiu ao lado da tutora até o destino final.
Para o advogado
especialista em Direito Animal, Dr. Leandro Petraglia, que acompanhou o caso, o
episódio evidencia uma falha estrutural no transporte aéreo de animais no
Brasil.
“Esse caso mostra,
na prática, que a promessa de segurança no transporte de animais no bagageiro
muitas vezes não se sustenta. Houve uma confiança depositada nessa operação,
que foi quebrada de forma grave. A perda do animal dentro do próprio aeroporto
demonstra a ausência de controle mínimo sobre um ser vivo que estava sob
responsabilidade da companhia”, afirma.
Segundo ele, a
reviravolta na decisão judicial reforça o peso da experiência concreta. “Quando
a teoria é confrontada com a realidade, o Judiciário passa a ter elementos mais
sólidos para decidir. Aqui, a prova foi o próprio ocorrido”, diz.
Renata afirma que
a experiência apenas confirmou uma percepção que já tinha sobre o tema. “O
transporte aéreo brasileiro não está preparado para levar animais. Não existem
leis que nos protejam. Tudo evolui, menos essa área”, critica.
Ela também faz um
apelo para que outros tutores se manifestem. “Precisamos nos unir e exigir
mudanças. Tenho certeza que muitas pessoas já passaram por situações parecidas,
mas essas histórias não ganham visibilidade, e por isso nada muda”, conclui.
O caso reacende o
debate sobre a segurança no transporte de animais em voos comerciais e a
necessidade de regulamentações mais rigorosas para garantir o bem-estar dos
pets durante viagens aéreas.
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