Pesquisar no Blog

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Câncer e fertilidade: por que falar sobre preservação desde o início deve fazer parte do cuidado oncológico

Especialista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz explica por que essa discussão deve ser incorporada precocemente ao plano terapêutico 

 

Receber o diagnóstico de câncer costuma colocar o foco imediato na urgência do tratamento, no controle da doença e nas chances de cura. Mas, para pessoas em idade fértil, há uma questão que não deveria ficar em segundo plano: o impacto da terapia oncológica sobre a fertilidade. Quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia, cirurgias e transplante de medula, a depender do caso, podem comprometer temporária ou permanentemente a capacidade reprodutiva. Por isso, a oncofertilidade, área que integra oncologia e medicina reprodutiva, precisa ser tratada como parte do plano terapêutico, e não como uma conversa opcional ou tardia1. 

O tema ganha relevância em um cenário de alta incidência de câncer. No Brasil, o INCA (Instituto Nacional do Câncer) estima cerca de 781 mil novos casos por ano no triênio 2026–2028. Entre os tipos que podem atingir pessoas em idade reprodutiva, destacam-se, por exemplo, 78.610 novos casos anuais de câncer de mama, 19.310 de colo do útero, 8.020 de ovário e 3.070 de linfoma de Hodgkin — este último mais frequente em adolescentes, adultos jovens e idosos2. Também merece atenção o câncer de testículo que, embora seja considerado raro, é mais frequentemente diagnosticado em homens entre 15 e 50 anos3. 

As diretrizes internacionais são claras. A atualização de 2025 da ASCO (American Society of Clinical Oncology) recomenda que pessoas com câncer sejam avaliadas e orientadas sobre riscos reprodutivos já no momento do diagnóstico e, também, ao longo da sobrevivência. Na mesma linha, a ESMO (European Society for Medical Oncology) defende que todos os pacientes com câncer em idade reprodutiva recebam aconselhamento completo em oncofertilidade o mais cedo possível no planejamento do tratamento. Em outras palavras: preservar a fertilidade não deve ser visto como um “extra”, mas como uma dimensão legítima do cuidado integral4,5. 

Na prática, isso significa discutir precocemente alternativas como congelamento de óvulos, embriões ou sêmen, além de outras estratégias indicadas conforme o tipo de tumor, a idade, o sexo, o tempo disponível até o início da terapia e as condições clínicas de cada paciente. Nem toda pessoa vai poder realizar um procedimento de preservação, e nem toda conduta será adequada para todos os casos. Ainda assim, o ponto central é que essa possibilidade precisa ser apresentada com clareza, para que a decisão seja consciente e alinhada ao projeto de vida de cada um1. 

Para Pedro Exman, oncologista e coordenador do Grupo de Tumores de mama e ginecológicos do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a preservação da fertilidade precisa entrar na conversa desde o início do tratamento. “Quando falamos em cuidado oncológico de qualidade, não estamos falando apenas de combater o tumor, mas de olhar a pessoa de forma completa. Para pacientes em idade fértil, discutir os riscos do tratamento e as possibilidades de preservação da fertilidade antes do início da terapia é parte desse cuidado. A oncofertilidade não deve ser vista como algo secundário, mas como uma dimensão importante da assistência, porque envolve futuro, autonomia e qualidade de vida”, afirma. 

Mais do que um tema técnico, a oncofertilidade também fala sobre autonomia, qualidade de vida e futuro. Em muitos casos, especialmente entre jovens adultos, a possibilidade de ter filhos depois do tratamento é uma preocupação real e importante. Ignorar esse aspecto pode ampliar o sofrimento emocional em um momento que já é atravessado por medo e incerteza. Por isso, incluir a oncofertilidade na jornada do paciente é reconhecer que tratar o câncer também passa por proteger possibilidades de vida após o câncer.


Hospital Alemão Oswaldo Cruz

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados