Dermatologista e professor de faculdade federal explica mecanismos da condição autoimune, fatores de risco e opções terapêuticas disponíveis
Uma falha no cabelo, sem dor ou coceira. Foi assim
que a alopecia areata se apresentou para Virginia Fonseca, que revelou neste
mês, pelas redes sociais, o diagnóstico da doença capilar. Ao tornar público o
problema de saúde, a influenciadora colocou em pauta uma condição que afeta uma
parcela expressiva da população brasileira. O que muitos não sabem é que nunca
houve tantos recursos terapêuticos para enfrentar o problema. A doença tem
controle e tratamento e, quanto mais cedo identificada, maiores são as chances
de uma evolução positiva.
O dermatologista Fernando Luz, especialista em
cirurgia dermatológica pela Universidade de São Paulo (USP), explica que a
alopecia areata é uma doença autoimune. Segundo ele, o sistema imunológico tem
como função proteger o organismo contra vírus, bactérias e fungos. No caso da
doença, porém, o corpo perde a capacidade de distinguir o que faz parte do próprio
organismo e o que representa um invasor externo.
“O sistema de defesa passa a enxergar células saudáveis como ameaças e as ataca. Na alopecia areata, as células escolhidas como alvo são as que formam o bulbo capilar, a raiz do fio de cabelo. Em consequência a essa reação inflamatória, o fio de cabelo cai, deixando aquela área sem cabelo", esclarece Luz, médico da novofio e fellow em transplante capilar.
Por que a doença se desenvolve
A
alopecia areata é uma condição de origem multifatorial, com predisposição
genética e mecanismo autoimune. Nesse contexto, o estresse emocional encabeça a
lista de gatilhos conhecidos que podem deflagrar a doença. Períodos de
ansiedade intensa, esgotamento prolongado ou situações psicológicas mal
resolvidas podem ser o elemento que dispara a reação autoimune. Integrante das
sociedades Brasileira de Dermatologia (SBD) e de Cirurgia Dermatológica (SBCD),
o médico, responsável técnico da novofio, em Parnaíba, no Piauí, alerta,
entretanto, que outros fatores também podem pesar nessa equação.
Outros elementos, como noites mal dormidas,
tabagismo, consumo de álcool e traumas locais, incluindo o uso de acessórios
muito apertados ou o hábito de coçar o couro cabeludo, podem colaborar em
alguns casos, embora tenham um papel menos definido na literatura científica.
O estresse merece atenção especial porque não apenas
desperta a doença, como alimenta um processo crônico. Sem controle, contribui
ativamente para que os sintomas se mantenham e até se agravem.
Como identificar
A alopecia
areata é traiçoeira justamente porque não produz sintomas físicos perceptíveis.
O único sinal é a falha no cabelo ou nos pelos, e ela costuma passar
despercebida pelo próprio paciente por semanas ou meses. "O principal
sintoma é a percepção da perda de fios ou de pelos em alguma região. Pode
ocorrer no couro cabeludo, mas também em outras áreas, como barba e
sobrancelhas", enumera.
No consultório, Fernando Luz observa com frequência
que o cabeleireiro ou o barbeiro costuma ser o primeiro a perceber, durante o
corte, uma falha no cabelo do cliente, exatamente como relatou Virginia
Fonseca. O detalhe revela muito sobre a doença: ela avança enquanto o paciente
ainda não percebe os sinais. A orientação é objetiva: qualquer falha
identificada deve ser investigada por um médico. Quanto mais precoce o
diagnóstico, maiores as chances de um tratamento bem-sucedido.
O que agrava o quadro
Alguns comportamentos podem fazer o quadro progredir
mesmo durante o tratamento. A automedicação é um dos erros mais comuns:
produtos usados sem orientação médica podem irritar o couro cabeludo e piorar a
inflamação local. A interrupção do tratamento, mesmo quando os resultados
começam a aparecer, também compromete o controle da doença. A exposição
contínua a fatores como o uso de bonés apertados ou o hábito de coçar a região
afetada pode manter o ciclo inflamatório ativo. "O controle do estresse
emocional pode estar relacionado com a melhora clínica. É um grande aliado no
tratamento da doença", observa Luz.
Como tratar
O tratamento não segue um protocolo único. Ele é
construído caso a caso, com base no perfil do paciente, na extensão das falhas
e na resposta clínica ao longo do tempo. O que mudou nos últimos anos é a
quantidade e a qualidade das ferramentas à disposição do dermatologista.
Medicamentos de uso tópico, que atuam diretamente no couro cabeludo, são
combinados com tratamentos orais para controle da resposta imunológica de forma
sistêmica. Além disso, podem ser associados procedimentos de mesoterapia
capilar, conforme orientação do dermatologista.
Mesoterapia capilar
A
mesoterapia capilar é um procedimento em que microinjeções de medicamentos são
aplicadas diretamente no couro cabeludo. "Utilizamos medicamentos
específicos para o controle da resposta autoimune exagerada, mas também que
estimulam o crescimento e a nutrição do folículo", detalha Luz. Já a
LED-terapia utiliza ondas de luz no tecido capilar para reduzir a inflamação
local e estimular o crescimento dos folículos. Não substitui outros
tratamentos, mas potencializa seus resultados.
Imunomoduladores e imunobiológicos
Para os casos mais extensos e resistentes às abordagens convencionais, a medicina já dispõe de uma nova geração de medicamentos, desenvolvida a partir de pesquisas sobre o funcionamento do sistema imunológico, mudando o prognóstico de pacientes com quadros mais graves. "Estamos vivendo uma nova fase no tratamento das doenças autoimunes. Os imunomoduladores sistêmicos, especialmente os imunobiológicos, têm crescido em relevância", diz o médico.
No
centro dessa mudança estão os inibidores da JAK, classe de medicamentos que
bloqueia sinais inflamatórios específicos dentro das células, como tofacitinibe
e baricitinibe. ‘São medicamentos que vêm sendo utilizados com bons resultados,
principalmente nos casos mais extensos e resistentes aos tratamentos
tradicionais’, completa o médico.
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