A Conitec, comissão responsável por avaliar a
incorporação de novos medicamentos, equipamentos, protocolos de diagnósticos e
de tratamentos no SUS (Sistema Único de Saúde), acaba de aprovar a solicitação
da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) para incluir o Sequenciamento de
Nova Geração (NGS, na sigla em inglês) para os genes BRCA1
e BRCA2.
A tecnologia permite identificar mutações (variantes patogênicas) em genes
selecionados associados ao risco hereditário de câncer de mama. Hoje, o exame
não é ofertado regularmente pelo SUS. Alguns estados brasileiros possuem leis
locais e já incorporaram no sistema público o teste genético e a linha de
cuidado para mulheres com câncer de mama hereditário, como é o caso de Goiás
com o projeto Goiás Todo Rosa, liderado pela mastologista Rosemar Macedo Rahal.
“Este é um momento histórico para a população atendida pelo SUS”, afirma o
mastologista Henrique Lima Couto, presidente da SBM-Regional Minas Gerais.
“Para a SBM, é o cumprimento do papel de representar as pacientes, produzir
conhecimento e participar ativamente da formulação de políticas na rede pública
de saúde, que assiste atualmente cerca de 80% da população brasileira”,
completa.
A solicitação à Conitec foi baseada em estudo científico de avaliação econômica e impacto orçamentário liderado por Lima Couto e pela mastologista Rosemar Rahal, membro do Departamento de Saúde Pública da SBM. Na elaboração do dossiê participaram também os fármaco-economistas Ludmila Perez Gargano e Fernando Zanghelini.
As mutações genéticas nos genes BRCA1 e BRCA2 alcançaram grande visibilidade nos noticiários de todo o mundo após uma entrevista de Angelina Jolie ao The New York Times. Em 2013, a atriz declarou ter feito uma mastectomia redutora de risco com reconstrução bilateral após a detecção de mutação genética no gene BRCA1, que representa um risco elevado para o desenvolvimento de câncer de mama.
Estudos populacionais recentes indicam que os casos
da doença associados a causas hereditárias, ou seja, caracterizados por uma
predisposição familiar e que podem passar de geração para geração, representam
cerca de 5-10% do total dos cânceres, e aproximadamente metade desses casos
hereditários de mama são causados por alterações nos genes BRCA1
e BRCA2.
Presidente do Departamento de Oncogenética da SBM,
com atuação destacada na Consulta Pública solicitada à Conitec e também na
argumentação sobre a inclusão da testagem NGS no âmbito do SUS, a mastologista
Alessandra Borba afirma que pessoas com mutação nos genes BRCA1 e
BRCA2
têm mais chances de desenvolver vários tipos de câncer, como mama e ovário,
entre outros. A mutação no gene BRCA representa um risco de 60-80% para
câncer de mama e 20-40% para o de ovário. “Há mais de dez anos, o acesso ao
teste genético existe nos planos de saúde, mas ainda não é plenamente disponibilizado
na rede pública”, ressalta.
A partir da identificação da mutação genética,
medidas redutoras de risco, como mastectomia e salpingo-ooforectomia (retirada
das trompas e dos ovários), indicam importante impacto em redução do
desenvolvimento da doença, aumentando também as chances de algumas pacientes
portadoras de mutação estarem vivas e reduzindo custos de novos tratamento
evitáveis.
O dossiê preparado pela SBM e encaminhado à Conitec
avaliou, entre vários aspectos, a análise de custo-efetividade do NGS. “Em
termos de custo-efetividade da testagem, há otimização dessa efetividade quando
são incluídos familiares assintomáticos por caso alterado e a viabilização de
cirurgias redutoras de risco de câncer de mama, trompas e ovários, além de
exames de imagem personalizados para detecção precoce de outros cânceres,
mitigando custos futuros com tratamentos de doenças avançadas”, destaca
Alessandra Borba.
A incorporação da testagem NSG no SUS, segundo Lima
Couto e Alessandra Borba, deve ser realizada de forma escalonada. “A inclusão
do teste, com custos e impactos orçamentários definidos para uma população-alvo
inicialmente restrita é o primeiro passo”, afirmam. “O que se espera nesse
processo é uma ampliação progressiva e economicamente segura de testagem que
vai permitir a construção gradual de uma linha de cuidados integral.”
Em sua argumentação frente à Conitec para inclusão
do teste, Alessandra Borba destacou a importância de iniciar a linha de cuidado
neste momento com os genes BRCA1 e BRCA2 tanto para câncer
de mama como para câncer de ovário, o qual teve medicação de alto custo
aprovada vinculada à testagem genética, e ainda não implementada. A
mastologista destacou também a importância da incorporação da análise do gene TP53,
também associado a câncer de mama hereditário, assim como outros cânceres, como
parte de um processo contínuo de expansão dessa linha de cuidado devido a uma
mutação fundadora nas regiões Sul e Sudeste do país. Na segunda fase de
expansão, ressaltou, também é crítico olhar para testagem de familiares e
prevenção real de câncer com estratégias redutoras de risco. Para isso,
aconselhamento genético, acesso a exames como ressonância e também a cirurgias
redutoras de risco com reconstrução são fundamentais para ampliar a
custo-efetividade, reduzir a incidência de câncer, aumentar conhecimento
genético da população, entre outros benefícios.
A jornada que culminou com a aprovação na Conitec
foi iniciada na gestão anterior da entidade, sob a presidência do mastologista
Tuffi Hassan. Conduzida pelo atual presidente da SBM, Guilherme Novita, a
estratégia contou com contribuições dos mastologistas João Henrique e
Alessandra Borba, do Departamento de Oncogenética, de Carlos Ruiz, do
Departamento de Saúde Pública, de Annamaria Massaud Rodrigues dos Santos, do
Departamento de Acesso e Direito dos Pacientes da SBM e de Daniel de Araújo
Brito Buttros à frente do Departamento de Comunicação. A Sociedade Brasileira
de Mastologia destaca ainda o apoio de importantes sociedades médicas, como a
Associação Médica do Brasil, o Conselho Federal de Medicina e da sociedade
civil organizada, em especial a FEMAMA, presidida pela médica Maira Caleffi, e
de pessoas físicas que participaram da Consulta Pública da Conitec. A
participação de pacientes, familiares e mastologistas foi decisiva.
“A SBM considera que este é apenas o início da
caminhada. Nos próximos passos, a expectativa é de expansão da rede de
aconselhamento genético, incorporação de cirurgias redutoras de risco e
ampliação de critérios de investigação e genes a serem testados”, afirma
Henrique Lima Couto. “O acesso ao teste genético não deve ser um privilégio do
CEP onde a mulher se trata”, destaca Alessandra Borba em sua apresentação de
defesa à Conitec.


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