A novidade amplia a zona de risco para milhões de adultos no país, buscando antecipar intervenções e frear o avanço silencioso de uma das principais causas de morte cardiovascular. Especialistas do Hospital Santa Lúcia reforçam a urgência de diagnóstico precoce e da mudança de hábitos
O Dia Nacional do Combate e Prevenção à Hipertensão,
celebrado em 26 de abril, traz um tom de urgência para a saúde brasileira: A
publicação da 9ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, em setembro de
2025, alterou os parâmetros de diagnóstico da marca historicamente considerada
o "padrão ouro", de 120/80 mmHg, que passou a ser classificada como
pré-hipertensão. A mudança coloca milhões de brasileiros em uma nova zona de
atenção, exigindo uma postura antes que a doença se manifeste de forma grave.
De acordo com dados da pesquisa Vigitel 2025, a prevalência da condição entre
brasileiros saltou de 22,6% em 2006 para quase 30% em 2024, acompanhando o
crescimento dos índices de obesidade e diabetes no país. Embora 71% dos
hipertensos tenham o diagnóstico, apenas 38% conseguem manter o quadro
efetivamente sob controle, o que reforça a necessidade de novas estratégias
terapêuticas e de conscientização.
A reclassificação dos níveis pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) é
uma forma de transformar o comportamento do paciente. "A iniciativa da SBC
em reclassificar a PA sistólica de 120 a 139 mmHg e a PA diastólica de 80 a 89
mmHg em pré-hipertensão, consiste na busca de identificar precocemente
indivíduos em risco e incentivar intervenções mais proativas para prevenir a
progressão para hipertensão arterial”, explica o Dr. Ricardo Cals,
cardiologista do Hospital Santa Lúcia Norte (HSLN).
Na prática, pacientes que anteriormente recebiam a notícia de que a pressão
"12 por 8" estava normal, agora recebem um sinal de advertência,
conforme detalha o especialista. "Quando o paciente é classificado como
pré-hipertenso, deve-se acender um alerta, estimulando o engajamento e
responsabilidade pessoal, incentivando o indivíduo a ser o protagonista de sua
saúde a fim de promover mudanças sustentáveis no estilo de vida e prevenir o
surgimento da hipertensão arterial", alerta o médico.
Ameaça silenciosa, impacto global
A hipertensão é frequentemente descrita como uma ameaça silenciosa por sua
característica assintomática. Globalmente, a condição atinge 1,4 bilhão de
pessoas, mas apenas 23% mantêm a doença sob controle. Segundo a Organização
Mundial da Saúde (OMS), a cada hora, mais de mil vidas são perdidas para AVCs e
ataques cardíacos causados pela pressão alta, totalizando mais de 10 milhões de
mortes anuais.
"A hipertensão é o principal determinante de mortalidade cardiovascular no
Brasil e no mundo”, adverte o Dr. Cals. “É uma doença silenciosa, sendo que a
sua primeira manifestação clínica pode ser um evento grave, como o AVC e
infarto. Por isso, é importante a busca ativa e o diagnóstico precoce".
O avanço da condição no país reflete hábitos da vida moderna. Multifatorial,
ela pode envolver desde a genética e o envelhecimento até questões psicossociais
e ambientais. Entre os vilões contemporâneos estão a obesidade, o sedentarismo,
a alimentação inadequada e o abuso de álcool e drogas. Um ponto de atenção
crescente nos últimos anos é o impacto da saúde mental e do descanso na pressão
arterial.
"O estresse e a privação de sono exacerbam o sistema nervoso simpático,
aumentando a secreção de neurotransmissores como a adrenalina e a
noradrenalina, que, consequentemente, causam vasoconstrição e aumentam a
pressão arterial", complementa o cardiologista.
O tratamento inadequado ou a falta de diagnóstico podem levar a danos
irreversíveis aos chamados "órgãos-alvo". Segundo o Dr. Cals, “a
hipertensão arterial não tratada ou tratada inadequadamente, aumenta
substancialmente o risco de lesões de órgãos-alvo, podendo causar AVC, infarto,
doença renal dialítica, perda visual, dentre outras morbidades".
Checklist de saúde
Para auxiliar a população no manejo da nova diretriz, o especialista sugere um
guia didático de monitoramento e prevenção:
- O objetivo
universal agora é manter a pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg para
todos os pacientes, após o início das intervenções.
- A verificação
deve ser uma rotina. Valores iguais ou superiores a 120/80 mmHg já exigem
mudanças imediatas no estilo de vida.
- Para além do descanso,
o sono de qualidade é uma ferramenta de controle da pressão arterial por
reduzir a carga de neurotransmissores de estresse.
- Na alimentação,
a redução drástica do sódio e o combate aos ultraprocessados são pilares
fundamentais.
- Atividade física
regular é essencial para combater o sedentarismo e a obesidade, dois dos
principais gatilhos da doença.
Hospital Santa Lúcia

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