Em abril de 2026, quatro astronautas partiram em direção à
Lua e, pelo caminho, fotografaram a Terra. As imagens chegaram até nós com
aquele poder que as fotos do espaço sempre tiveram: a sensação de ver o planeta
de fora, inteiro, frágil, suspenso no escuro. Foi a primeira vez, desde o
Apollo 17 em 1972, que seres humanos se aventuraram além da órbita baixa.
Mais de cinquenta anos depois, olhamos de novo para o mesmo
planeta azul e o que mudou não é a imagem, mas o que sabemos sobre o que está
acontecendo com ele. E o que sabemos, hoje, nos obriga a questionar: o que
fazemos com esse conhecimento?
Guardo sempre comigo uma frase de Paulo Freire que ajuda a
responder essa reflexão: "O mundo não é, o mundo está sendo." Ela
lembra que a realidade não é um dado fixo, algo que simplesmente existe e nos é
entregue pronto. É um processo em construção e, portanto, passível de ser
construído de outra forma. Esse entendimento é o que distingue o inconformismo
da resignação, e é também o que torna a educação um ato político, não apenas
pedagógico.
Vivemos uma contradição histórica que torna esse inconformismo
ainda mais necessário e também mais difícil ao mesmo tempo. Nunca a ciência foi
tão clara sobre os mecanismos e as consequências da crise climática e ainda
assim as emissões globais continuaram subindo. O problema não é a ausência de
informação, mas a dificuldade de transformar conhecimento em ação coletiva.
É aqui que a escola entra, com toda a sua complexidade. Há um
paradoxo que as educadoras e educadores conhecem bem: a informação, por si só,
não transforma. A escola pode ensinar o ciclo do carbono, explicar o efeito
estufa, mostrar os gráficos. E ainda assim os estudantes saem pela porta e
entram num mundo que age como se não soubesse nada disso. O conhecimento sem
pertencimento, sem inconformismo, sem esperança, não move ninguém.
É por isso que a educação climática que importa não é só a que
informa, mas a que provoca. A que faz uma criança perguntar por que o rio mais
próximo da escola tem nome, mas ninguém sabe onde ele está. A que convida um
adolescente a imaginar como seria sua cidade com menos cimento e mais árvores.
É a educação que parte do mundo como ele está sendo, para imaginar o mundo como
ele pode vir a ser.
Freire também escreveu que ensinar exige alegria e esperança. Não
a esperança passiva, aquela que espera que as coisas melhorem por conta
própria, mas a esperança que age, que planeja, que se recusa a aceitar o mundo
como ele é porque sabe que ele ainda está sendo feito. Essa distinção importa
muito num momento em que é fácil cair na paralisia. E é ela que sustenta,
silenciosamente, o trabalho de tantas educadoras pelo país.
Em mais de 1500 instituições do movimento Escolas pelo Clima
espalhadas pelo Brasil, educadoras e educadores escolhem, todo ano, fazer
diferente. Organizam feiras, cultivam hortas, mapeiam riscos climáticos no
próprio bairro, escrevem cartas para gestores públicos, convidam as famílias
para mutirões de plantio e recuperação de nascentes. São atos que ensinam, pelo
exemplo, que o futuro não está entregue e que o mundo ainda está sendo construído
por quem decide participar dessa construção.
As fotos da Artemis II chegam num Dia da Terra em que o planeta já
ultrapassou 1,5°C de aquecimento médio em relação à era pré-industrial e é
grande a distância entre os compromissos assumidos nas conferências climáticas
e as políticas efetivamente implementadas.
É muita coisa para carregar numa sala de aula. Mas olhar o planeta
de fora sempre fez isso: lembrou que não há outro lugar possível para a vida
como conhecemos existir. O mundo não é. O mundo está sendo. E a escola é um dos
lugares onde essa construção acontece todos os dias.
Ensinar, nesse contexto, é um ato de resistência e de amor. Ainda.
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