Poucas manifestações culturais conseguem atravessar séculos sem desaparecer. O Fandango Caiçara é uma delas. Presente no litoral sul e sudeste do Brasil, essa prática segue viva mesmo diante das profundas transformações sociais, econômicas e culturais do país.
Segundo
o Diccionario de Autoridades da Real Academia Española, de 1732,
o Fandango é descrito como um “baile introduzido por aqueles que vieram dos
reinos ‘Las Índias’, realizado ao som de uma melodia muito alegre e
festiva”. Essa definição remete ao contexto do início do século XVIII, quando
os espanhóis denominavam suas terras colonizadas nas Américas como
“Las Índias”, o que indica que o Fandango já era uma prática festiva
nas regiões coloniais das Américas.
Já o
historiador Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro,
descreve o Fandango praticado no Norte e Nordeste como um “auto popular dos
marujos”, enquanto nas regiões Sul e Sudeste aparece como uma festa com danças
variadas, como o rufado, marcado pelo sapateado, e o valsado, realizado em
pares. É esse Fandango do litoral de São Paulo e Paraná que viria a ser
reconhecido, em 2012, como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Caracterizado
por instrumentos artesanais como a rabeca, a viola caiçara, o machete, a
caixa de folia e o adufe, o Fandango embalou por séculos as festas após os
mutirões comunitários. Mais do que música e dança, ele expressa modos de vida,
relações comunitárias e saberes tradicionais; é nessa dimensão cultural que
habita sua força temporal.
No
Brasil, pouco se discute como essas culturas resistem ao tempo. Em um país
marcado pela velocidade e pelo consumo, práticas enraizadas em territórios são
frequentemente invisibilizadas ou tratadas como vestígios do passado.
Nas
últimas décadas, a cultura de massa, a urbanização e as transformações
territoriais trouxeram desafios reais. Ainda assim, o Fandango não desapareceu.
Ao contrário, se reorganizou e hoje circula entre festas comunitárias,
festivais e apresentações institucionais. Entre elas,
destacam-se a Festa Nacional do Fandango Caiçara, em Paranaguá, e as festas
realizadas em Cananéia e Ubatuba.
Essa permanência revela que culturas populares não são estáticas: elas se transformam e dialogam com o presente sem romper com suas raízes. Mais do que preservar, é preciso reconhecer essas manifestações como formas legítimas de conhecimento e fortalecer as comunidades que as mantêm vivas.
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