Pessoas
com depressão e ansiedade apresentam maior risco de desenvolver doenças
cardiovasculares, de acordo com um estudo do sistema de saúde da Mass General
Brigham (MGB), afiliado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Segundo
os pesquisadores, esse aumento do risco está associado à atividade cerebral
relacionada ao estresse, à desregulação do sistema nervoso e a processos
inflamatórios crônicos. O dado reforça o que especialistas já confirmam que a
saúde plena é inalcançável sem o equilíbrio mental e emocional, especialmente
diante de um dos desafios mais profundos da experiência humana: o luto.
Segundo
a psicóloga Silvana Caetano, que coordena grupos de apoio ao luto no Grupo
Zelo, esse processo não deve ser tratado como tabu, mas como uma questão
relevante de saúde pública. Ela explica que o luto é uma resposta biológica
natural e esperada, com alcance físico e emocional como toda condição de stress
e que precisa de canais de expressão, para que corpo e/ou mente não adoeçam.
“Quando o luto é silenciado ou reprimido, é comum que ele se converta em
sintomas. O alto stress prejudica a imunidade, a ansiedade e depressão ganham
espaço. Distúrbios do sono, incapacidade de recuperação da fadiga e mesmo o
aumento do risco de desenvolvimento de doenças pré-dispostas geneticamente, são
comuns”, afirma a especialista.
A relevância desse cuidado é corroborada por dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recentemente incluiu o "Luto Prolongado" na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), após o efeito social severo e adoecedor do luto coletivo sem precedentes, na Pandemia por Covid-19.
No
contexto brasileiro, onde os índices de ansiedade já são os mais altos do
mundo, perdas não elaboradas tornam-se um agravante perigoso. Para Silvana
Caetano, a chave para evitar que o luto se torne patológico reside no
acolhimento precoce e no respeito ao tempo individual. A especialista pontua
que garantir e ajudar aqueles que perdem seus amores a viverem a melhor
despedida possível, com a ritualização religiosa ou cultural e aproximação da
cerimônia à personalidade, estilo de vida e alcance do sagrado de cada história
e família acolhida é o primeiro passo para que aconteça o bom início do luto e
o reajustamento da vida no processo do seu enfrentamento seja mais promissor e
bem-sucedido. “Na continuidade da atenção e cuidado que essa condição inspira,
o ideal seria permitir e tolerar o tempo de recolhimento individual para o
retorno às tarefas cotidianas, mas a cobrança geral na sociedade de que o
enlutado ´fique bem´ costuma desconsiderar a necessidade individual e
generalizar a pressa para que todos se enquadrem rapidamente à rotina, do
trabalho e outros aspectos da vida, silenciando ou ignorando a dor emocional,
com efeitos devastadores especialmente quando não pode ser reconhecida e
manejada assertivamente por quem sofre”, ressalta Silvana.
Acolhimento é o caminho
Iniciativas
que oferecem apoio, espaço de escuta e compartilhamento da dor entre iguais,
com mediação psicológica, instrutiva, de amparo, legitimação e direcionamento
diante dos desafios assustadores na jornada do luto, desempenham um papel
essencial para a caminhada adiante, entre o ´ser a dor´ e ´ter a dor´,
vivenciando uma travessia saudável e que permita uma nova adaptação da vida
para que volte a ser funcional, mesmo quando a perda e o vínculo rompido com a
morte sejam muito significativos e difíceis de assimilar. Ao coordenar grupos
voltados esse suporte emocional, Silvana ajuda os participantes a reaprender a
viver, deixando a busca lógica e racional da conexão e presença que existiam
para buscar a nova conexão possível com a pessoa que se tornou invisível e com
a relação de amor que sempre foi abstrata e não palpável e pode permanecer
viva, apesar da falta e saudade crescente do outro.
“Fica
aqui o convite para uma reflexão abrangente e auto empática: cuidar-se para a
saúde integral também significa permitir-se sentir, reconhecer e dar lugar para
a tristeza inerentes à experiência de perder e, sempre que o peso parecer
insuportável, buscar o auxílio de profissionais capacitados e presença da rede
de apoio, com as pessoas próximas e íntimas o suficiente para respeitar e
acolher a dor, sem negar, fugir ou negligenciar a real possibilidade de ser em
cada momento”, completa.
Sinais de alerta no luto
Embora
o luto seja um processo natural, alguns sinais podem indicar que a pessoa
precisa de apoio profissional. Entre os principais alertas estão:
- Isolamento social intenso, com afastamento de familiares, amigos e
atividades cotidianas
- Alterações persistentes no sono, como insônia frequente ou sono
excessivo
- Abandono do autocuidado, incluindo desinteresse pela alimentação,
higiene ou saúde
- Irritabilidade excessiva
- Sensação constante de vazio ou desesperança
·
Dificuldade prolongada de retomar a rotina ou
encontrar sentido nas atividades diárias
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