Debate realizado no Korin BIO aponta desafios persistentes no controle do uso de antibióticos e destaca impactos além do campo
O avanço da resistência bacteriana e sua relação
com o modelo de produção animal estiveram no centro dos debates do Korin BIO,
evento promovido pela Korin, grupo voltado ao agronegócio e à alimentação
orgânica. Especialistas alertam que o uso recorrente de antibióticos na cadeia
produtiva é um dos principais fatores para o desenvolvimento de microrganismos
mais resistentes.
Estimativas globais indicam que a resistência
antimicrobiana já está associada a cerca de 5 milhões de mortes por ano no
mundo, superando doenças como HIV e malária. Mantido o ritmo atual, esse número
pode chegar a 39 milhões de mortes anuais até 2050, ultrapassando os casos de mortes
por câncer.
“O fenômeno da resistência bacteriana não ocorre
apenas no Brasil, mas sim em todos os países que enfrentam problemas
gravíssimos relacionados ao tema”, afirma Luiz Demattê, diretor da Korin
Alimentos e Sustentabilidade.
Em locais de grande produção de proteína animal,
esses insumos ainda são utilizados não apenas para tratamento de doenças, mas
também, em muitos casos, como promotores de crescimento em animais saudáveis.
Esse padrão favorece a seleção de bactérias resistentes, que podem chegar aos
seres humanos tanto pelo consumo de alimentos quanto pela exposição indireta no
ambiente.
Estudo preliminar UNESP
Dados de uma pesquisa da Universidade Estadual
Paulista (UNESP), no campus de Botucatu, ajudam a ilustrar esse cenário. O
estudo identificou diferenças relevantes na presença e no comportamento de
bactérias ao longo da cadeia produtiva, ao comparar sistemas convencionais e
modelos livres de antibióticos.
Foram analisadas mais de 2 mil amostras em
diferentes etapas - das granjas ao produto final - e mostrou que a Salmonella
esteve presente em 14,47% das amostras em sistemas convencionais, índice
esperado para esse tipo de produção. Já em sistemas livres de antibióticos, a
taxa caiu para 2,22%.
“Nesta pesquisa, observamos uma redução expressiva
da presença de Salmonella no sistema livre de antibióticos. É um resultado
consistente e que indica como o modelo produtivo influencia diretamente a
microbiota”, explica o pesquisador Dr. Fábio Possebon, da UNESP.
Além da incidência, o estudo também avaliou o
perfil de resistência das bactérias. Os resultados indicam que, no sistema
convencional, há maior presença de microrganismos com resistência a
antibióticos relevantes para a saúde humana.“Mesmo quando falamos de bactérias
que fazem parte da microbiota, a preocupação está no nível de resistência. Em
caso de infecção, o tratamento tende a ser mais difícil”, afirma Possebon.Nesse
cenário, os dados reforçam que a resistência bacteriana é um reflexo direto do
modelo de produção de alimentos. A evolução desse cenário dependerá, cada vez
mais, da capacidade do setor em equilibrar produtividade, segurança e impacto
ambiental.
Korin
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