Como lidar com a cobrança interna, o olhar do outro e a sensação de “não posso falhar agora”
Uma líder
que acompanhei nunca leu um post motivacional que falasse disso. Mas ela
sentia.
Depois
que assumiu a liderança do time — após anos de dedicação acima da média —
bastava receber um convite simples, desses que parecem inofensivos (“você
apresenta isso pra diretoria?”), para o corpo entrar em alerta. O coração
acelerava, a respiração encurtava e, se a situação pedia clareza e firmeza, era
justamente aí que as palavras escapavam. Não por falta de conteúdo, mas por
excesso de risco.
O
problema não é o nervosismo. É a leitura que a gente faz do nervosismo.
Porque,
para muita gente, aquele momento não é “só uma apresentação”. É um teste. E
quando o teste parece definitivo, seu corpo pede sobrevivência — e
sobrevivência costuma limitar desempenho.
Isso acontece
no escritório sofisticado e na empresa pequena. Na capital e no interior. Em
gente brilhante e em quem apenas tenta fazer um bom trabalho.
Quase
todo profissional aprende a trabalhar.
Poucos
aprendem a se comunicar quando há risco: de reputação, de julgamento e de
perder espaço por um detalhe.
É assim
que nasce um padrão comum em novos líderes: a exigência de perfeição.
Não por
vaidade. Por autoproteção.
A pessoa
passa a acreditar que só pode abrir a boca quando tiver controle total do
assunto, do clima, das reações, dos desdobramentos — e, se possível, do futuro.
Só que essa conta nunca fecha. E quanto mais você tenta garantir que tudo vai
dar certo antes de se posicionar, mais você reforça a frase que vira gatilho:
“se eu errar, é o fim”.
Resultado:
você entra nas conversas para não errar.
E não
para influenciar.
Você fala
para comprovar valor.
E não
para criar valor.
Quando falar vira sobrevivência (e
não influência)
A
diferença entre “falar” e “comunicar profissionalmente” não tem a ver com dicção,
perfeição ou carisma natural.
Falar é
emitir conteúdo.
Comunicar
profissionalmente é conduzir percepção, foco, clima e decisão — mesmo quando o
corpo está em alerta.
E há um
pano de fundo importante: a Harvard Business Review tem discutido, inclusive com
dados, que a camada intermediária de liderança tende a experimentar menos
segurança psicológica no trabalho. Em um estudo global em andamento com 1.160
gerentes de diversos setores, a maioria de empresas com mais de 50 mil
funcionários, descobriu-se que gerentes de nível médio apresentam uma pontuação
de 68,0 em 100 em segurança psicológica. Em comparação com 72,7 para os
executivos de alto escalão.
Isso
aumenta o cuidado com a própria imagem e reduz a disposição para correr riscos
interpessoais, como discordar, perguntar ou se expor. Em outras palavras: a
ansiedade não nasce do nada. Ela costuma ter contexto.
Só que
“coragem” sozinha raramente resolve.
O
antídoto costuma ser mais prático: estrutura interna e margem relacional.
Não entre sem mapa
Você não
trava porque não sabe. Você trava porque entra sem mapa sob pressão.
Quando o
corpo aciona o alerta, o improviso — que em dias comuns funciona — vira aposta
arriscada. E o novo líder não quer apostar: quer se proteger. Um mapa simples,
que você consegue dizer em voz alta, muda a sua presença na sala porque dá ao
seu sistema nervoso uma sensação básica de chão.
Antes de
começar, responda para si:
O que
precisa ficar claro hoje?
O que eu
realmente quero?
Eu
preciso de decisão, alinhamento, limite ou apoio?
E saiba
exatamente como começar.
O começo
não é protocolo. São os primeiros minutos que dizem ao corpo: “eu sei onde
estou pisando”.
Estoques invisíveis de boa vontade
Uma vez,
ouvi de uma mentorada a expressão “estoques invisíveis de boa vontade”. Ela
explica mais sobre influência do que muitos livros de persuasão.
Esse
“estoque” é o saldo relacional que você constrói antes de precisar convencer
alguém. É o que te dá benefício da dúvida quando você tropeça. É o que reduz a
hostilidade quando você entra numa sala importante. E existe uma razão
pragmática para isso: confiança não é um conceito fofo; a própria HBR já
compilou pesquisas mostrando como ambientes de confiança alteram estresse. Paul
J. Zak relata em um artigo publicado em 2017, que funcionários de empresas com
alto nível de confiança demonstram 74% menos estresse, 106% mais energia no
trabalho e 50% mais produtividade.
A ideia é
simples: faça microdepósitos diários de confiança:
Dar
contexto antes de pedir algo difícil;
Reconhecer
entregas e esforços (de forma específica);
Procurar
a pessoa antes da reunião para pré-alinhamento;
Fazer
perguntas que demonstrem interesse real.
Quanto
mais saldo você constrói, menos o corpo interpreta a exposição como ameaça.
Você
entra com mais margem. E margem de “boa vontade” é liberdade.
A
ansiedade do novo líder não é sinal de incapacidade. É sinal de transição e
adaptação a um contexto com novas exigências.
TEDx Speaker - jornalista e especialista em comunicação
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