O custo invisível da alta performance que leva ao burnout
No
Dia do Trabalho, celebrado em 1º de maio, uma reflexão urgente ganha espaço
dentro das empresas e entre profissionais de alta performance: até onde o
cérebro humano consegue sustentar produtividade sem entrar em colapso?
Em um cenário marcado por hiperconectividade, pressão por resultados e jornadas prolongadas, cresce o número de casos de burnout e afastamentos por transtornos mentais. Para o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista em ansiedade e esgotamento em ambientes de alta exigência, o debate precisa sair do campo da opinião e avançar para a ciência.
“O cérebro humano funciona em ciclos. Ele foi projetado para alternar períodos de esforço e recuperação. Quando esse ciclo é ignorado e a exigência se torna contínua, ocorre um esgotamento progressivo dos recursos mentais”, explica.
Segundo o especialista, a chamada alta performance constante é, do ponto de vista biológico, insustentável. Isso porque funções essenciais para o trabalho — como atenção, memória, controle emocional e tomada de decisão — dependem diretamente do equilíbrio neuroquímico e do descanso adequado.
“Existe uma falsa ideia de que trabalhar mais horas leva a melhores resultados. Na prática, o excesso de carga sem recuperação reduz a eficiência cerebral. O indivíduo passa mais tempo trabalhando, mas produz com menos qualidade e maior risco de erro”, afirma.
Do ponto de vista fisiológico, o estresse contínuo eleva os níveis de cortisol — hormônio ligado ao estado de alerta — e interfere diretamente no funcionamento do cérebro. Regiões como o córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio lógico e tomada de decisão, e o hipocampo, ligado à memória, passam a operar de forma menos eficiente.
“O cérebro entra em modo de sobrevivência. Ele prioriza respostas rápidas e automáticas, mas perde capacidade analítica, criatividade e precisão. Isso impacta diretamente a performance profissional”, explica o médico.
Outro ponto crítico é a dificuldade crescente de desligamento mental. Em ambientes altamente exigentes, muitos profissionais permanecem conectados ao trabalho mesmo fora do expediente, impedindo que o cérebro realize processos essenciais de recuperação.
“O descanso não é um luxo, é uma necessidade biológica. É durante esses períodos que o cérebro reorganiza informações, consolida memórias e restaura sua capacidade funcional”, destaca.
De acordo com o psiquiatra, profissionais considerados de alta performance estão entre os mais vulneráveis ao esgotamento justamente por manterem um padrão elevado de entrega por longos períodos, sem respeitar os limites fisiológicos.
“O limite da alta performance não é a força de vontade, é a biologia. Quando o cérebro ultrapassa esse limite, ele começa a falhar — e os sinais aparecem na forma de cansaço persistente, dificuldade de concentração, irritabilidade e queda de produtividade”, alerta.
Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela
UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de
profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com
abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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