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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Parkinson pode estar subdiagnosticado no Brasil

Dados sugerem atraso no diagnóstico e possível desigualdade de acesso, especialmente entre grupos mais vulneráveis

 

Alterações no sono, perda de olfato e até mudanças no humor podem indicar a doença de Parkinson anos antes dos tremores mais conhecidos. Ainda assim, esses sinais seguem sendo frequentemente ignorados, o que pode contribuir para diagnósticos tardios e possíveis desigualdades no desfecho da doença no Brasil. 

Dados epidemiológicos mais recentes reforçam esse cenário. Um estudo nacional de base populacional com quase 10 mil brasileiros com 50 anos de idade ou mais, conduzido pela coorte ELSI-Brasil, estimou que cerca de 0,8% dessa população vive com Parkinson, com aumento expressivo com o avanço da idade. O levantamento também identificou maior frequência de diagnóstico prévio entre homens em comparação às mulheres. 

Especialistas apontam que esses números podem não refletir completamente a realidade. Como parte dos dados depende de diagnóstico prévio, há indícios de subnotificação, especialmente entre populações com menor acesso a serviços de saúde. 

“Embora o Parkinson seja tradicionalmente associado a sintomas motores, como tremor e rigidez, muitas vezes os primeiros sinais são não motores e passam despercebidos, tanto pelos pacientes quanto pelos profissionais de saúde”, explica a neurologista Margarete de Carvalho, do Hospital Samaritano Paulista, da Rede Américas.

Esse cenário pode contribuir para atrasos no diagnóstico, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade. “Quando há dificuldade de acesso a avaliação especializada, esses sinais iniciais tendem a ser subvalorizados. Isso pode estar associado a um diagnóstico mais tardio e, consequentemente, a desfechos clínicos menos favoráveis ao longo do tempo”, afirma.

 

Desigualdade pode estar associada ao atraso no diagnóstico

A doença de Parkinson é uma condição neurológica crônica e progressiva, associada à perda de neurônios produtores de dopamina. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 8,5 milhões de pessoas vivem com a doença no mundo, número que vem crescendo com o envelhecimento da população. 

Embora estudos populacionais indiquem maior prevalência entre homens, a literatura científica também aponta lacunas importantes na análise por raça e desigualdade social, especialmente em países de renda média como o Brasil. Pesquisas sugerem que fatores como escolaridade, renda e acesso a serviços especializados podem influenciar o momento do diagnóstico e o acompanhamento da doença. 

“Na prática, isso pode significar que populações mais vulneráveis demoram mais para reconhecer os sinais iniciais, chegam mais tarde ao diagnóstico, têm menor acesso a tratamento especializado e, consequentemente, podem apresentar maior risco de complicações ao longo do tempo”, afirma a neurologista.

 

Nem todo sinal de Parkinson começa com tremor

Um dos principais desafios é justamente reconhecer os sinais precoces, que podem surgir anos antes dos sintomas clássicos. Entre os principais alertas estão perda de olfato sem causa aparente, constipação intestinal persistente, distúrbios do sono, como movimentos bruscos durante sonhos, além de depressão ou ansiedade sem explicação clara. 

Já os sintomas motores iniciais são mais conhecidos, como tremor em repouso em mãos ou pernas, mudança na escrita, que se torna menor e mais comprimida, redução do balanço de um dos braços ao caminhar e diminuição da expressão facial. 

“É comum que esses sintomas sejam atribuídos ao envelhecimento ou a outras condições clínicas, o que pode atrasar a investigação adequada”, explica Rafael Paterno, neurologista do Hospital Nove de Julho.

 

Diagnóstico precoce pode melhorar a qualidade de vida

O diagnóstico do Parkinson é clínico e depende da avaliação de um neurologista. Como não existe um exame único que confirme a doença, o reconhecimento dos sinais e o encaminhamento adequado fazem toda a diferença. A recomendação é buscar avaliação especializada ao perceber uma combinação de sintomas persistentes, especialmente quando passam a interferir nas atividades do dia a dia. 

Na maioria dos casos, o Parkinson não está relacionado à hereditariedade. Em situações específicas, como início muito precoce ou forte histórico familiar, a investigação genética pode ser considerada de forma direcionada para apoiar a avaliação clínica. 

Apesar de não ter cura, o tratamento pode ajudar a controlar os sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida, principalmente quando iniciado precocemente. “O acompanhamento multidisciplinar, com uso de medicamentos e terapias de apoio, permite que muitos pacientes mantenham autonomia por anos. Por isso, identificar precocemente faz toda a diferença”, conclui Paterno. 

Estudos base: Link,Link
 

Rede Américas


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