Dados sugerem atraso no diagnóstico e possível desigualdade de acesso, especialmente entre grupos mais vulneráveis
Alterações
no sono, perda de olfato e até mudanças no humor podem indicar a doença de
Parkinson anos antes dos tremores mais conhecidos. Ainda assim, esses sinais
seguem sendo frequentemente ignorados, o que pode contribuir para diagnósticos
tardios e possíveis desigualdades no desfecho da doença no Brasil.
Dados
epidemiológicos mais recentes reforçam esse cenário. Um estudo nacional de base
populacional com quase 10 mil brasileiros com 50 anos de idade ou mais, conduzido
pela coorte ELSI-Brasil, estimou que cerca de 0,8% dessa população vive com
Parkinson, com aumento expressivo com o avanço da idade. O levantamento também
identificou maior frequência de diagnóstico prévio entre homens em comparação
às mulheres.
Especialistas
apontam que esses números podem não refletir completamente a realidade. Como
parte dos dados depende de diagnóstico prévio, há indícios de subnotificação,
especialmente entre populações com menor acesso a serviços de saúde.
“Embora
o Parkinson seja tradicionalmente associado a sintomas motores, como tremor e
rigidez, muitas vezes os primeiros sinais são não motores e passam
despercebidos, tanto pelos pacientes quanto pelos profissionais de saúde”,
explica a neurologista Margarete de Carvalho, do Hospital Samaritano Paulista,
da Rede Américas.
Esse
cenário pode contribuir para atrasos no diagnóstico, especialmente em contextos
de maior vulnerabilidade. “Quando há dificuldade de acesso a avaliação
especializada, esses sinais iniciais tendem a ser subvalorizados. Isso pode
estar associado a um diagnóstico mais tardio e, consequentemente, a desfechos
clínicos menos favoráveis ao longo do tempo”, afirma.
Desigualdade pode estar associada ao atraso no diagnóstico
A
doença de Parkinson é uma condição neurológica crônica e progressiva, associada
à perda de neurônios produtores de dopamina. Segundo a Organização Mundial da
Saúde, mais de 8,5 milhões de pessoas vivem com a doença no mundo, número que
vem crescendo com o envelhecimento da população.
Embora
estudos populacionais indiquem maior prevalência entre homens, a literatura
científica também aponta lacunas importantes na análise por raça e desigualdade
social, especialmente em países de renda média como o Brasil. Pesquisas sugerem
que fatores como escolaridade, renda e acesso a serviços especializados podem
influenciar o momento do diagnóstico e o acompanhamento da doença.
“Na
prática, isso pode significar que populações mais vulneráveis demoram mais para
reconhecer os sinais iniciais, chegam mais tarde ao diagnóstico, têm menor
acesso a tratamento especializado e, consequentemente, podem apresentar maior
risco de complicações ao longo do tempo”, afirma a neurologista.
Nem todo sinal de Parkinson começa com tremor
Um
dos principais desafios é justamente reconhecer os sinais precoces, que podem
surgir anos antes dos sintomas clássicos. Entre os principais alertas estão
perda de olfato sem causa aparente, constipação intestinal persistente,
distúrbios do sono, como movimentos bruscos durante sonhos, além de depressão
ou ansiedade sem explicação clara.
Já
os sintomas motores iniciais são mais conhecidos, como tremor em repouso em
mãos ou pernas, mudança na escrita, que se torna menor e mais comprimida,
redução do balanço de um dos braços ao caminhar e diminuição da expressão
facial.
“É
comum que esses sintomas sejam atribuídos ao envelhecimento ou a outras
condições clínicas, o que pode atrasar a investigação adequada”, explica Rafael
Paterno, neurologista do Hospital Nove de Julho.
Diagnóstico precoce pode melhorar a qualidade de vida
O
diagnóstico do Parkinson é clínico e depende da avaliação de um neurologista.
Como não existe um exame único que confirme a doença, o reconhecimento dos
sinais e o encaminhamento adequado fazem toda a diferença. A recomendação é
buscar avaliação especializada ao perceber uma combinação de sintomas
persistentes, especialmente quando passam a interferir nas atividades do dia a
dia.
Na
maioria dos casos, o Parkinson não está relacionado à hereditariedade. Em
situações específicas, como início muito precoce ou forte histórico familiar, a
investigação genética pode ser considerada de forma direcionada para apoiar a
avaliação clínica.
Apesar
de não ter cura, o tratamento pode ajudar a controlar os sintomas e melhorar
significativamente a qualidade de vida, principalmente quando iniciado
precocemente. “O acompanhamento multidisciplinar, com uso de medicamentos e
terapias de apoio, permite que muitos pacientes mantenham autonomia por anos.
Por isso, identificar precocemente faz toda a diferença”, conclui Paterno.
Estudos base: Link,Link
Rede Américas
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