Com o avanço acelerado do envelhecimento populacional, cresce a demanda por profissionais especializados em cuidado, assistência e longevidade
Cuidador de idoso e gerontólogo: duas
profissões ainda pouco visíveis no debate público ganham relevância diante da
mudança demográfica que já transforma o País, que é o envelhecimento da
população brasileira. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), o Brasil deve atingir seu pico populacional em 2041 e, nas décadas
seguintes, terá uma base etária cada vez mais envelhecida, com avanço
expressivo da participação dos idosos na composição da população.
Esse cenário já pressiona o mercado de
trabalho e amplia a demanda por profissionais especializados no cuidado com
pessoas idosas, especialmente cuidadores, gerontólogos, fisioterapeutas,
terapeutas ocupacionais, enfermeiros e médicos. O que antes costumava ser
tratado como uma necessidade pontual das famílias passa a se consolidar como
uma verdadeira cadeia estruturada de cuidado, presente em serviços de
assistência domiciliar, residenciais sênior e Instituições de Longa Permanência
para Idosos (ILPIs).
Para Fabia Rossi Barbosa, gerontóloga e
gerente comercial do Cora360°, rede integrada de soluções especializadas para o
envelhecimento que integra residenciais para idosos e cuidados particulares, do
grupo BSL Saúde, o envelhecimento populacional já é percebido de forma concreta
no cotidiano da assistência. “Vemos cada vez mais famílias buscando suporte
profissional para garantir qualidade de vida, segurança e acompanhamento
contínuo, especialmente em casos de doenças crônicas, limitações funcionais e
demências”, afirma.
Segundo ela, porém, a expansão da demanda
não tem sido acompanhada pela mesma velocidade na formação de profissionais
qualificados. “Já existe um descompasso claro entre oferta e demanda. O número
de idosos cresce em ritmo acelerado, enquanto a formação de profissionais
preparados não acompanha essa velocidade. Isso se traduz em aumento constante na
abertura de vagas e em mais tempo para preenchimento dessas posições”, diz.
Cuidado exige técnica, preparo emocional e
responsabilidade
No caso dos cuidadores de idosos, o desafio
não está apenas em contratar, mas em selecionar pessoas com preparo técnico e
perfil comportamental compatível com a complexidade da função. De acordo com
Fabia, a realidade dos atendimentos, muitas vezes marcada por quadros de
demência e perda de autonomia, exige olhar mais criterioso.
“Os principais desafios na contratação estão
ligados à qualificação e ao preparo emocional. Entre os públicos que atendemos,
a doença de Alzheimer aparece com grande incidência, e isso exige diferencial
no cuidado que nem todos os candidatos têm. Além da formação e da experiência
prática, estamos falando de um trabalho realizado, muitas vezes, dentro da casa
do paciente, o que torna indispensáveis a empatia, a responsabilidade, a ética
e a estabilidade emocional”, explica.
Entre as competências técnicas mais
valorizadas estão noções de primeiros socorros, cuidados com higiene,
mobilidade e alimentação, administração de medicamentos quando permitida e
conhecimento básico sobre doenças comuns na velhice, como as demências. Já no
campo comportamental, pesam atributos como paciência, boa comunicação,
sensibilidade para lidar com situações delicadas e capacidade de responder a
rotinas emocionalmente exigentes.
Segundo a gerontóloga, a qualidade do cuidado
começa antes mesmo do início do atendimento, com uma seleção criteriosa dos
profissionais, que inclui análise de experiência, referências, perfil
comportamental e treinamentos específicos. “A qualidade e a segurança do
cuidado são garantidas por supervisão contínua, protocolos padronizados,
acompanhamento por profissionais de Saúde, especialmente o gerontólogo,
feedback constante das famílias e capacitação permanente da equipe. Nos casos
mais complexos, a integração com equipes multidisciplinares faz toda a
diferença para o cuidado mais completo e seguro”, conclui.
Gerontologia:
uma profissão estratégica
Se o cuidador está na linha de frente da
assistência diária, o gerontólogo ocupa uma função estratégica no planejamento
e na coordenação desse cuidado. Ainda pouco conhecida no Brasil, a Gerontologia
é uma área voltada ao estudo do envelhecimento humano sob perspectiva ampla,
que abrange dimensões físicas, emocionais, cognitivas e sociais.
No Cora Residencial Senior Premium, ILPI da
capital fluminense pertencente ao Cora360°, essa atuação faz parte da rotina.
Ana Julia Marinho, gerontóloga da instituição, define a Gerontologia como uma
área voltada à compreensão integral do envelhecimento. “Nós conseguimos avaliar
a capacidade funcional do idoso, entender suas limitações e, dentro disso,
enxergar suas potencialidades. É assim que buscamos tornar a vida dessa pessoa
mais ativa e mais saudável, promovendo autonomia, qualidade de vida e
bem-estar. Nós planejamos a rotina desse idoso”, relata.
A
experiência de quem está no cuidado direto
Na ponta desse processo estão profissionais
como Camila Oliveira, cuidadora de idosos que atua há quatro anos no Cora
Residencial Senior Premium, no Rio de Janeiro. Sua trajetória ajuda a traduzir
o que está por trás da profissão: vínculo, escuta, técnica e forte
dimensão humana.
“Eu comecei cuidando de uma paciente em
casa e fui para o Cora junto com ela. Depois que ela se mudou para Brasília com
a família, entrei no Cora360°, e passei a cuidar de outro paciente no Residencial.
O maior desafio, para mim, é a aceitação do idoso e a construção de vínculo
afetivo e de confiança”, conta.
Para ela, o sentido da profissão está no
impacto concreto do cuidado sobre a vida do outro. “Gosto muito do que faço.
Gosto de ver o resultado do meu trabalho, de ver os olhos brilhando da pessoa
que estou cuidando, de vê-la sorrindo no fim do dia”, contou.
O Brasil ainda precisa avançar para
consolidar essas carreiras. Ainda faltam passos importantes, como mais
regulamentação e padronização da profissão, ampliação do acesso à formação
qualificada, melhores condições de trabalho e reconhecimento social e
institucional mais consistente.
Regulação
avança, mas ainda há lacunas
No campo regulatório, o debate sobre a
profissionalização do cuidado ganhou força nos últimos meses. Em março deste
ano, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou o Projeto de Lei (PL)
76/2020, que regulamenta a profissão de cuidador de pessoa e estabelece
critérios mínimos para o exercício da atividade, como idade mínima,
escolaridade, curso de qualificação, aptidão física e mental e ausência de
antecedentes criminais.
Em paralelo, o PL 3063/2025, em tramitação
na Câmara dos Deputados, busca detalhar as atribuições do cuidador de idosos,
delimitando suas funções no apoio à rotina e reforçando que esse profissional
não substitui enfermeiros ou técnicos de enfermagem em procedimentos complexos.
No caso da Gerontologia, a regulamentação
profissional ainda não foi consolidada em lei federal, embora o tema esteja em
discussão há anos. Um dos projetos em tramitação é o PL 9003/2017, que trata do
exercício da profissão, reconhecendo bacharéis e tecnólogos da área e prevendo
sua atuação em equipes multiprofissionais no SUS.
Mercado
de trabalho e remuneração
A remuneração ainda varia bastante conforme
região, jornada, vínculo e nível de especialização. Levantamentos apontam que o
salário médio de cuidadores de idosos no Brasil gira em torno de R$ 1,7 mil por
mês, podendo ultrapassar R$ 3 mil em regimes de plantão ou em funções com mais
experiência e especialização.
Já para gerontólogos, plataformas de
carreira indicam médias mais elevadas, especialmente quando o profissional
ocupa cargos de gestão, coordenação ou serviços especializados.
Nova
rede integrada amplia jornada do cuidado
Esse movimento também aparece na
reorganização de serviços especializados. Segundo Fabia, o Cora360°, lançado
pela BSL Saúde este ano, representa avanço importante na oferta de soluções
para o envelhecimento.
“O Cora360° uma novidade e reúne uma rede
integrada de soluções especializadas para o envelhecimento. A partir da
experiência do Cora Residencial Senior, passamos a oferecer diferentes formas
de cuidado dentro da mesma rede, com cuidados particulares e equipe
multidisciplinar, incluindo cuidadores, técnicos de enfermagem, enfermeiros,
fisioterapeutas e médicos onde o idoso estiver. Isso atende especialmente o
público que não deseja ou ainda não se sente pronto para o cuidado
institucionalizado”, explica.
Ela destaca que o principal ganho é a
continuidade da assistência ao longo da jornada do idoso. “Essa integração
entre residenciais para idosos e operação de cuidados particulares representa
uma evolução importante no modelo de cuidado, tornando-o mais contínuo,
flexível e centrado nas necessidades reais do idoso e da família”, explica.
Na prática, o modelo de atendimento permite acompanhar a pessoa em diferentes momentos da vida, desde o suporte domiciliar, quando há mais autonomia, até eventual transição para o residencial, caso o nível de dependência aumente. Isso reduz rupturas no cuidado, aumenta a segurança e permite soluções mais personalizadas.
Para as famílias, o modelo também reduz a fragmentação dos serviços. Em vez de buscar múltiplos fornecedores, a família passa a contar com um ecossistema único, mais organizado, confiável e capaz de combinar diferentes níveis de assistência, conforme a evolução do quadro clínico e funcional do idoso.
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