Cineasta lança cartilha e documentário sobre o tema que podem ser acessados gratuitamente
Oito crianças são vítimas de estupro por dia em Minas Gerais, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça. O dado, por si só, já expõe a gravidade da violência sexual infantil, uma das formas mais severas de violação de direitos. Mas a violência contra crianças e adolescentes não se limita a esse recorte e vai além. No Brasil, de acordo com o painel de 2025 do Disque 100, denúncias referentes a esse público somaram quase 40% do total registrado no país. Os registros incluem diferentes formas de violações, como negligência, agressões físicas, abuso psicológico e violência sexual, e expõem um cenário persistente de vulnerabilidade.
Em muitos casos, a violência não começa
com força física. Ela começa com aproximação, contato frequente e construção de
confiança. Aos poucos, a criança ou o adolescente pode desenvolver dependência
emocional desse vínculo, enquanto sinais de risco passam despercebidos. Esse
tipo de dinâmica pode estar presente em diferentes situações de abuso e
exploração e, em alguns contextos, também em processos mais complexos, como os
relacionados ao aliciamento e tráfico sexual de pessoas. Quando a situação se
torna evidente, o processo já está em curso e muitas vezes fora do alcance
imediato da família.
Quando se observa o fenômeno do tráfico sexual especificamente, os dados ajudam a dimensionar sua gravidade em escala global. A Organização Internacional do Trabalho estima que 6,3 milhões de pessoas vivem em exploração sexual comercial forçada no mundo. Estimativas internacionais indicam que cerca de 25% das pessoas traficadas são crianças, evidenciando a presença significativa da infância nesse cenário. Além disso, o UNICEF aponta que mais de 370 milhões de meninas e mulheres vivas em 2024 sofreram estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos. Especialistas e organismos internacionais também alertam para altos níveis de subnotificação, o que indica que a dimensão real do problema pode ser ainda maior do que a registrada.
Apesar da gravidade dos dados, ainda existe uma barreira social importante: a dificuldade de falar abertamente sobre temas como abuso, exploração, sexualidade e riscos no ambiente digital e, em muitos casos, até mesmo de compreender como essas situações acontecem na prática. Foi a partir dessa lacuna que a cineasta Kalley Beatrice Silva desenvolveu um projeto que propõe um modelo integrado de prevenção com aplicação direta no cotidiano. A iniciativa reúne o documentário Set Free – Lutando Contra o Tráfico Humano na América e a cartilha “Proteção e Responsabilidade – Guia prático para prevenção ao abuso, exploração e tráfico sexual de crianças e adolescentes”, estruturados como um único sistema educacional.
O documentário apresenta, com especialistas, relatos de sobreviventes e dados de organismos internacionais, as dinâmicas do tráfico humano e de problemas correlatos, como abuso, exploração sexual, pornografia e riscos no ambiente digital. A cartilha traduz esse conteúdo em orientações práticas, organizadas por contexto e faixa etária, permitindo que pais, educadores e líderes apliquem o conhecimento no dia a dia com clareza e segurança.
O projeto, idealizado e liderado por Kalley Silva, foi desenvolvido em coautoria com Marcia Bretas, terapeuta com formação nos Estados Unidos e especialização em trauma e compulsão sexual, e Ulisses Spagiari, escritor e especialista em comunicação infantil com mais de 30 anos de experiência na área. A proposta reúne linguagem audiovisual, conhecimento clínico e comunicação acessível ao público não especializado.
Na prática, o material orienta ações específicas. Para crianças menores, apresenta aos pais formas simples de abordar limites do corpo, segredos e segurança. Para adolescentes, trata diretamente dos riscos no ambiente digital, incluindo exposição, troca de imagens e relacionamentos online. Para famílias, escolas, igrejas e comunidades, organiza sinais de alerta e caminhos de ação diante de possíveis situações de risco. A cartilha também inclui um plano prático de prevenção voltado a organizações que atuam com crianças e adolescentes, com diretrizes práticas de ação. “Mais do que informar, o objetivo é tornar o problema compreensível e traduzir esse conhecimento em ações possíveis no dia a dia — para que famílias e organizações saibam não apenas o que está acontecendo, mas como agir diante disso”, afirma Kalley.
O alcance do projeto já ultrapassa o contexto local. Lideranças religiosas de 10 países da América do Sul, ligadas a denominações, redes de missões e organizações de ação social, manifestaram interesse e já estão implementando o material. Segundo essas lideranças, mais de 7 mil igrejas, redes de missões e iniciativas de ação social poderão ter acesso ao conteúdo, com potencial de alcançar mais de meio milhão de pessoas. “Este material é de grande necessidade nesse tempo que estamos vivendo. Temos usado vídeo e cartilha com grupos de pessoas em situação de vulnerabilidade e tem sido de enorme ajuda. Excelente iniciativa”, afirma Alejandro Hadjirallis, bispo da Igreja de Deus no Uruguai.
Ao integrar compreensão do problema com orientação prática estruturada, o projeto busca preencher uma lacuna central: transformar informação em ação antes que a violência aconteça. Porque reconhecer a vulnerabilidade a tempo, amplia as possibilidades de prevenção e reduz a exposição de crianças e adolescentes a situações de risco.
A cartilha e o documentário podem ser acessados gratuitamente no link: bit.ly/cartilhaprotecao
Kalley Beatrice Silva - cineasta, com produções
especializadas em estudos sobre tráfico humano e exploração sexual. Ela foi
premiada no Festival Internacional de Cinema Cristão (FICC) com o documentário
“Set Free – Lutando Contra o Tráfico Humano na América”, obra que também venceu
outros festivais e foi indicada como Melhor Documentário Short no Crown Point
International Film Festival que acontecerá em Chicago, em junho deste ano.
Kalley Beatrice foi a produtora do vídeo institucional do projeto Bola na Rede,
durante a Copa do Mundo de 2014, como parte de uma campanha nacional de combate
à exploração sexual de crianças e adolescentes no turismo, lançada pela Rede
Evangélica Nacional de Ação Social.

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