Em um mercado
pressionado por velocidade, inteligência artificial e produção constante,
marcas de moda começam a rever o excesso de presença digital e voltam a
discutir identidade, narrativa e construção real de marca
iSotck
Durante muito tempo, a lógica da comunicação
digital foi relativamente simples: quanto mais presença, maior a chance de
crescer. Produzir mais conteúdo, testar mais formatos, estar em mais canais e
responder mais rápido ao comportamento das plataformas virou quase uma regra
informal para marcas que queriam ganhar espaço no mercado.
No setor de moda, essa dinâmica foi ainda mais
intensa. A combinação entre imagem, desejo, velocidade e redes sociais
transformou a comunicação em operação contínua. O problema é que, à medida que
o volume aumentou, começou a aparecer uma fragilidade que antes passava
despercebida: muitas marcas estão extremamente ativas, mas pouco consistentes.
Em outras palavras, falam muito, mas constroem
pouco.
Esse movimento tem sido percebido com mais força em
um momento em que o mercado global volta a discutir não apenas tecnologia, mas
também profundidade, autoria e relevância. Durante o SXSW 2026,
um dos pontos mais recorrentes entre criativos, estrategistas e executivos foi
justamente o esgotamento de uma comunicação excessivamente automatizada,
acelerada e, em muitos casos, indistinguível.
Em uma das participações mais comentadas do evento,
Steven Spielberg chamou atenção ao defender o valor da
sensibilidade humana e da capacidade de contar histórias em uma era dominada
por automação e inteligência artificial. A fala ressoou para além da indústria
do entretenimento porque toca diretamente um ponto sensível do branding
contemporâneo: quando tudo pode ser produzido em escala, o que ainda diferencia
uma marca?
A pergunta encontra eco no mercado de moda,
especialmente entre marcas que cresceram rápido no digital, mas agora enfrentam
o desafio de sustentar identidade, percepção de valor e conexão com o público
em um ambiente mais saturado e competitivo.
Segundo Beatriz Illipronti, fundadora da Moda
Comunica, o excesso de produção passou a mascarar um problema
estrutural..
“Muita marca aprendeu a produzir conteúdo antes de
aprender a construir marca. E isso começa a pesar quando o negócio amadurece.”
A análise aparece com frequência em negócios que já
possuem presença consolidada nas redes, mas enfrentam dificuldade em
transformar visibilidade em reconhecimento real. “Existe uma diferença grande
entre aparecer e ser lembrada. E essa diferença normalmente está na clareza.”
Dados recentes da indústria reforçam esse cenário.
A última temporada internacional de moda registrou queda de 14% no
valor de mídia espontânea em relação ao ciclo anterior, mesmo
com alto volume de desfiles, ativações e presença digital das marcas, indicando
um ambiente mais ruidoso e menos previsível em termos de impacto orgânico.
Na prática, isso tem levado empresas a reverem não
apenas a linguagem visual, mas a estrutura da comunicação como um todo.
Um dos projetos acompanhados pela Moda Comunica
ilustra esse movimento. Iniciado em 2022, o trabalho com uma marca de moda que
começou com uma presença digital ainda incipiente evoluiu para uma operação
mais robusta de conteúdo, posicionamento e direção artística. Hoje, a marca
soma mais de 200 mil seguidores, opera em uma faixa de ticket mais
elevada e entra em uma nova fase estratégica, com foco em colaborações,
experiências e eventos como parte da construção de valor.
Em outro caso, a agência liderou o reposicionamento
de uma marca de acessórios femininos a partir de uma revisão mais profunda de
narrativa, percepção e presença digital. O objetivo não era apenas “deixar a
marca mais bonita”, mas torná-la mais coerente com o público que queria atingir
e com o lugar que desejava ocupar no mercado.
Há ainda negócios que já nascem ou amadurecem com
outra leitura de marca, como empresas do universo fitness e lifestyle que usam
eventos físicos, experiências de corrida e ativações presenciais não apenas
como ação promocional, mas como ferramenta de comunidade e pertencimento.
Segundo Beatriz, esse é justamente o ponto que
muitas marcas ainda tratam como acessório, quando na verdade deveria ser
estrutural.
“Site, branding, direção estética, conteúdo,
experiência, comunidade. Isso tudo não é excesso. Isso é base. O problema é que
durante muito tempo o mercado tratou a construção como detalhe e performance
como prioridade.”
O cenário se torna ainda mais sensível com o avanço
da inteligência artificial na produção de imagens, textos e vídeos. Embora as
ferramentas tragam ganho de velocidade e produtividade, cresce também a percepção
de que excesso de automação pode empobrecer a identidade.
“A IA pode apoiar processo, organização e
agilidade. Mas ela não substitui repertório, visão nem verdade de marca. E
isso, para mim, vai ficar cada vez mais evidente.”
Para 2026, a tendência é que marcas mais bem
posicionadas não sejam necessariamente as que mais produzem, mas as que
conseguem sustentar uma linguagem reconhecível, uma proposta clara e um vínculo
real com o público.
Em um mercado em que produzir ficou mais fácil, o
que volta a ser raro é justamente o que sempre teve mais valor: consistência.
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