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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Parkinson: sinais precoces e novas terapias redesenham o cuidado com a doenç

Com o envelhecimento acelerado, o Brasil pode se tornar um dos países com mais casos da doença, cujos sintomas podem surgir de forma sutil anos antes do diagnóstico. Especialistas do Hospital Santa Lúcia apontam novos tratamentos que podem ampliar o controle em fases iniciais e avançadas



Em 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu o dia 11 de abril como o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença de Parkinson. Embora o tremor seja o sintoma mais conhecido da doença, o diagnóstico precoce e a eficácia dos tratamentos dependem da identificação de sinais discretos que surgem anos antes das alterações motoras. O ano de 2026 marca a consolidação de novas terapias farmacológicas que prometem auxiliar na autonomia e na estabilidade motora de pacientes que já não respondiam bem aos métodos tradicionais.

A doença de Parkinson é a segunda enfermidade neurodegenerativa mais comum no mundo, depois do Alzheimer, e afeta cerca de 10 milhões de pessoas globalmente. No Brasil, a estimativa ultrapassa a marca de 200 mil casos, com uma prevalência que atinge aproximadamente 1% da população acima dos 60 anos. O país caminha para ser um dos principais em quantidade de pessoas com a condição, em decorrência do rápido envelhecimento populacional.



Sintomas disfarçados

O diagnóstico da doença de Parkinson costuma ser tardio porque ainda depende essencialmente de sinais motores clássicos, que se manifestam apenas quando o paciente já perdeu entre 60% e 80% dos neurônios dopaminérgicos. No entanto, sintomas não motores, como depressão, ansiedade e constipação, podem preceder o diagnóstico em anos, como explica a Dra. Isabel Oliveira Araujo Moraes, neurologista do Hospital Santa Lúcia (HSL).

"O sinal cardinal é a bradicinesia, que é a lentidão generalizada dos movimentos. O tremor de repouso não está presente em todos os pacientes. Além disso, observamos rigidez muscular e instabilidade postural”, alerta a especialista, que também é membro da International Parkinson and Movement Disorder Society.

“Frequentemente, os primeiros sinais são sutis, como redução do balanço de um dos braços ao caminhar, diminuição da expressão facial (hipomimia), micrografia e lentidão em tarefas finas, além de sintomas não motores, como constipação, fadiga e alterações do humor”, explica Dra. Isabel.

Entre os marcadores mais específicos estão a redução do olfato (hiposmia) e o transtorno comportamental do sono REM, quando a pessoa "encena" os sonhos fisicamente. Segundo a neurologista, esses sinais podem surgir anos antes dos sintomas motores clássicos, refletindo o envolvimento precoce de estruturas não dopaminérgicas. “O distúrbio do sono REM, em particular, tem alta especificidade e está associado a maior risco de evolução para doenças neurodegenerativas do chamado grupo das sinucleinopatias, que a doença de Parkinson faz parte”, detalha a médica.



Inovações terapêuticas

Para os pacientes em estágios avançados, que enfrentam as chamadas "flutuações motoras", como são chamadas as variações de mobilidade entre as doses de comprimidos, o cenário mudou com a aprovação do Produodopa pela Anvisa em 2025. Trata-se de uma formulação de fóslevodopa e fóscarbidopa administrada via infusão subcutânea contínua, por meio de uma bomba, 24 horas por dia.

A Dra. Isabel Oliveira explica que a tecnologia permite uma manutenção mais estável dos níveis plasmáticos do fármaco. Isso reduz a dependência de múltiplas doses orais de levodopa ao longo do dia e melhora significativamente o controle motor em pacientes com perfil de indicação de tratamento avançado. Outra inovação é o Tavapadon, que surge como opção promissora com menos efeitos colaterais.

"O Tavapadon é um agonista dopaminérgico seletivo com perfil farmacológico diferenciado, oferecendo potencial benefício tanto em fases iniciais quanto intermediárias da doença”, acrescenta a médica. O medicamento pode ser indicado como terapia única em estágios iniciais ou como auxiliar em pacientes com resposta inferior ao esperado à levodopa, especialmente quando se busca reduzir flutuações motoras.

Mesmo com o avanço farmacológico, a estimulação cerebral profunda (DBS) mantém seu papel central para casos de flutuações refratárias, e a integração com novas tecnologias digitais, como dispositivos vestíveis e monitoramento remoto, tende a permitir abordagens mais personalizadas.



Envelhecimento da população brasileira

O aumento dos casos no Brasil está diretamente ligado à inversão da pirâmide demográfica. O país está envelhecendo de forma acelerada, passando de uma população predominantemente jovem para uma idosa sem o devido preparo estrutural. O Dr. Thiago Nogueira, geriatra do programa Cuidar+, do Hospital Santa Lúcia (HSL), ressalta que muitos sinais precoces são erroneamente atribuídos à idade avançada. "O paciente interpreta que são alterações próprias da idade e não dá a verdadeira importância aos sintomas”, alerta.

A presença de múltiplas comorbidades pode mascarar o diagnóstico, assim como a depressão e a ansiedade não tratadas podem acelerar o declínio funcional. Por isso, a importância de programas multidisciplinares, como o Cuidar+, do Hospital Santa Lúcia, voltado para o atendimento integral de pacientes idosos.

“É de fundamental importância uma equipe multidisciplinar acompanhando estes pacientes. Com isso, ocorre redução de complicações como broncoaspiração, queda e consequentemente redução de internação hospitalar”, ressalta o médico. “Por se tratar de um programa multidisciplinar, ele permite um cuidado humanizado, eficiente e centrado no paciente, evitando internações e detectando alterações e realizando ajustes precoces no plano terapêutico.”

Para as famílias, o geriatra orienta a manutenção de rotinas rígidas, uso correto de medicamentos e adaptação do ambiente doméstico para evitar acidentes. “O foco central do tratamento é garantir que, mesmo com o diagnóstico, o paciente mantenha sua funcionalidade e autonomia pelo maior tempo possível”, afirma Dr. Thiago Nogueira.


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