Basta conversar alguns minutos com uma mãe atípica para perceber que existe uma camada de experiência que raramente aparece nas campanhas de conscientização: a solidão. Não aquela ausência física de pessoas, mas uma solidão mais complexa, emocional, social e, muitas vezes, institucional.
A maternidade, por si só, já
é atravessada por expectativas irreais. Mas, quando o desenvolvimento do filho
foge do esperado, essas expectativas se rompem de forma abrupta. Surge o
diagnóstico ou, antes dele, a longa peregrinação por respostas e, com ele, uma
nova rotina, marcada por terapias, avaliações, adaptações e um volume de
decisões que recai, quase sempre, sobre a mãe.
Os dados ajudam a
dimensionar o que muitas vivem em silêncio. De acordo com o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 17 milhões de brasileiros
vivem com algum tipo de deficiência, o que representa cerca de 8,4% da
população (PNAD Contínua 2022). Embora o dado não se restrinja ao autismo, ele
revela o tamanho do contingente de famílias que dependem de cuidados contínuos
e, em grande parte dos casos, são as mães que assumem essa função.
Esse cenário dialoga com
estimativas do Ministério da Saúde do Brasil, que apontam aumento consistente
na identificação do Transtorno do Espectro Autista (TEA) nos últimos anos,
impulsionado pela ampliação do diagnóstico e pela maior conscientização. A
pasta também reconhece que o cuidado às pessoas com TEA exige acompanhamento
multiprofissional contínuo, o que impacta diretamente a rotina familiar.
E o mais importante: essa
sobrecarga não nasce da criança. Nasce da falta de suporte.
A ideia de que o amor
materno “dá conta de tudo” ainda sustenta um modelo perigoso. Na prática, o que
vemos são mães que precisam se tornar, simultaneamente, especialistas em saúde,
educação e direitos, enquanto lidam com burocracias, dificuldades de acesso a
serviços especializados e barreiras na inclusão escolar.
Segundo o IBGE, mulheres
dedicam, em média, quase o dobro de horas semanais aos cuidados de pessoas e
afazeres domésticos em comparação aos homens (PNAD Contínua 2022). Quando há
uma criança com necessidades específicas, essa desigualdade tende a se aprofundar,
resultando em sobrecarga física, emocional e, frequentemente, impacto na vida
profissional.
Nesse contexto, a solidão se
instala de forma progressiva. Ela aparece quando a rede de amigos se afasta por
não saber como lidar. Quando a família não compreende as necessidades
específicas da criança. Quando o mercado de trabalho deixa de ser compatível
com a rotina de cuidados. Quando políticas públicas não chegam de forma
efetiva.
Não por acaso, o próprio
Ministério da Saúde alerta para a necessidade de cuidado integral às famílias
de pessoas com deficiência, incluindo atenção à saúde mental dos cuidadores, um
ponto ainda pouco estruturado na prática.
Há ainda uma dimensão pouco
discutida: o luto simbólico. Muitas mães vivenciam o processo de
ressignificação entre o filho idealizado e o filho real, um percurso legítimo,
mas que raramente encontra espaço de acolhimento social.
Diante desse cenário, falar
de rede de apoio deixa de ser um conselho e passa a ser uma necessidade de
saúde pública.
Rede de apoio não é apenas
ajuda eventual. É estrutura. Envolve políticas que garantam acesso a
diagnóstico precoce, terapias e inclusão escolar. Envolve empresas mais
flexíveis e ambientes de trabalho que não penalizem o cuidado. Envolve
profissionais preparados para acolher não só a criança, mas também a família. E
envolve, sobretudo, uma sociedade que compreenda que cuidar não pode ser um ato
solitário.
Também é nesse vazio que
muitas mães constroem suas próprias redes em grupos, associações e nas redes
sociais. Esses espaços têm se tornado fundamentais para troca de informação,
pertencimento e fortalecimento coletivo, especialmente onde o apoio formal é
insuficiente.
Mas é preciso ir além da
resistência individual. Não podemos normalizar o adoecimento dessas mulheres
como parte inevitável da maternidade.
Cuidar de quem cuida não é
um gesto de empatia, é uma estratégia essencial para o desenvolvimento saudável
de toda a família.
Porque, no fim, nenhuma mãe
deveria precisar ser forte o tempo todo. E nenhuma maternidade deveria ser
vivida em solidão.
Silvia Kelly Bosi - mãe atípica e neuropsicopedagoga, especialista em autismo.
Natália Lopes - mãe atípica e fundadora do Voz das Mães.
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