Inteligência Artificial começa a mudar a forma como são analisados os óvulos de pacientes de fertilidade no Brasil
Pacientes que passam por congelamento
de óvulos ou fertilização in vitro ainda saem da maioria das
clínicas com uma informação incompleta: sabem quantos óvulos foram coletados,
mas não têm clareza sobre o potencial de cada um deles. Em um tratamento em que
cada decisão importa, essa lacuna limita o planejamento e aumenta a incerteza
ao longo da jornada.
Esse cenário começa a mudar no
Brasil com a introdução de tecnologias baseadas em inteligência artificial que
permitem analisar, de forma não invasiva, imagens dos óvulos ainda no
laboratório. A proposta é trazer uma camada adicional de informação para a
prática clínica.
A empresa que lidera esse
movimento é a Future Fertility, healthtech canadense que já opera em mais
de 50 centros no país, incluindo grupos como FertGroup e Grupo Huntington.
A companhia desenvolveu soluções baseadas em modelos de deep learning
treinados e testados com mais de 650 mil imagens globais e os respectivos
resultados reprodutivo deles, capazes de identificar padrões associados ao
potencial reprodutivo dos óvulos, algo que não pode ser detectado pelo olhar
humano.
Na prática, a tecnologia analisa
imagens captadas no momento da coleta e gera relatórios que auxiliam médicos na
personalização dos tratamentos. As soluções VIOLET™ (para congelamento de
óvulos), MAGENTA™ (para FIV) e ROSE™ (para programas de doação de óvulos)
funcionam como ferramentas de suporte à decisão clínica, oferecendo uma
avaliação mais individualizada sem interferir no material biológico.
A incorporação desse tipo de tecnologia reflete uma mudança mais ampla na medicina reprodutiva. Durante anos, decisões foram baseadas majoritariamente em estimativas populacionais, como a idade da paciente, que, embora relevantes, não capturam a variabilidade entre os próprios óvulos de uma mesma mulher. A entrada da inteligência artificial começa a transformar esse modelo, introduzindo uma lógica mais orientada por dados individuais.
“Historicamente, a medicina
reprodutiva trabalhou com médias. O que estamos vendo agora é a possibilidade
de analisar cada caso com base em dados próprios, ampliando a precisão e a
capacidade de personalização dos tratamentos”, afirma Rafael González,
Diretor Global de Vendas e Estratégia Comercial da Future Fertility.
Em um contexto em que a
maternidade vem sendo adiada e os tratamentos de fertilidade se tornam mais comuns,
pacientes buscam não apenas acesso às técnicas, mas também maior clareza sobre
suas chances e possibilidades.
O avanço ocorre em paralelo à
transformação digital da saúde no Brasil. Segundo o Plano Brasileiro de
Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, denominado "IA para o Bem de
Todos", o país prevê investimentos de R$ 23 bilhões em inteligência
artificial até 2028.
Soma-se a isso a evolução dos
marcos regulatórios para o seu uso na medicina. Em fevereiro deste ano o
Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a Resolução CFM nº 2.454/2026, que
normatiza o uso da IA na medicina em todo o território nacional. A norma
assegura ao médico o direito de utilizar ferramentas de IA como apoio à decisão
clínica, à gestão em saúde, à pesquisa científica e à educação médica
continuada, desde que respeitados os limites éticos e legais da
profissão.
Desta forma, abre-se um caminho
cada vez mais pavimentado para essa expansão. No caso da análise de óvulos, a
inteligência artificial indica uma transição relevante: de um modelo baseado em
estimativas gerais para uma abordagem mais precisa, centrada nos dados de cada
paciente, e com potencial de redefinir os padrões de decisão na medicina
reprodutiva.

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