A combinação entre essas condições exige abordagens integradas e amplia a complexidade do cuidado clínico, aponta especialista
Abril, mês de conscientização sobre o transtorno do espectro autista, traz à tona uma mudança silenciosa, mas cada vez mais presente na prática clínica: o crescimento de diagnósticos combinados entre o transtorno do espectro autista (TEA) e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Longe de serem condições isoladas, os dois quadros aparecem com frequência crescente de forma simultânea, exigindo um olhar mais atento de profissionais de saúde e familiares.
Historicamente compreendidos como diagnósticos distintos, o TEA e o TDAH compartilham uma zona de interseção que pode dificultar a identificação precisa de sintomas, especialmente nos primeiros anos de vida. Isso significa que comportamentos como dificuldade de concentração, impulsividade, rigidez cognitiva ou desafios na interação social podem ser interpretados de maneiras diferentes, atrasando ou fragmentando o diagnóstico.
Segundo
Isabella Roque, psicóloga especialista em neurodesenvolvimento da Casa Trilá,
unidade do grupo ViV Saúde Mental e Emocional, essa sobreposição de sinais tem
sido cada vez mais observada nos atendimentos clínicos.
“Hoje, vemos com frequência crianças e adolescentes que apresentam características tanto do espectro autista quanto do TDAH, o que exige uma avaliação cuidadosa e, sobretudo, integrada”, afirma.
Ela
explica que o TEA é uma condição de aquisição, ou seja, déficits na reciprocidade
social desencadeiam uma cascata de atrasos em marcos do neurodesenvolvimento.
“Quando os dois diagnósticos sobrepõem o olhar e atenção para o tratamento
medicamentoso associado a intervenções terapêuticas precisa ser redobrado.”
Uma nova realidade nos consultórios
Dados recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) indicam que cerca de 78% das crianças diagnosticadas com TDAH apresentam ao menos uma condição associada, incluindo o transtorno do espectro autista.
O número reforça uma mudança importante na compreensão dos transtornos do neurodesenvolvimento, que passam a ser vistos cada vez menos de forma isolada e mais como quadros interligados, com impacto direto na avaliação clínica e na definição das estratégias terapêuticas.
O aumento da identificação desses quadros combinados está relacionado a avanços no conhecimento científico sobre o neurodesenvolvimento, mas também a uma ampliação do olhar clínico. Profissionais passaram a reconhecer que os transtornos podem coexistir e se influenciar mutuamente, impactando diretamente a forma como o indivíduo percebe, processa e responde ao ambiente.
Essa coexistência, no entanto, não é apenas uma soma de diagnósticos. Trata-se de uma condição que altera significativamente a experiência da criança ou do adolescente.
Enquanto o TDAH está frequentemente associado à desatenção, impulsividade e hiperatividade, o TEA envolve desafios na comunicação social, padrões restritos de comportamento e maior rigidez cognitiva. Quando presentes juntos, esses fatores podem potencializar dificuldades no ambiente escolar, nas relações sociais e na regulação emocional.
“Há
casos em que a impulsividade do TDAH intensifica a dificuldade de leitura de
contexto social do autismo. Em outros, a rigidez do TEA pode mascarar sintomas
de desatenção”, frisa Isabella.
Impactos no tratamento e na rotina das famílias
O diagnóstico duplo também impõe desafios adicionais no planejamento terapêutico. Intervenções que funcionam para um dos transtornos podem precisar de ajustes quando o outro está presente, o que demanda estratégias personalizadas e acompanhamento contínuo.
Nesse contexto, abordagens multidisciplinares ganham ainda mais relevância, integrando psicologia, psiquiatria, terapia ocupacional e, quando necessário, apoio pedagógico. O objetivo não é apenas tratar sintomas isolados, mas compreender o indivíduo em sua totalidade, respeitando suas particularidades e potencialidades.
Para as famílias, o impacto também é significativo. A compreensão do diagnóstico pode levar mais tempo e, muitas vezes, envolve um percurso marcado por dúvidas, inseguranças e tentativas frustradas de intervenção.
“É
comum que os pais cheguem com uma hipótese inicial e, ao longo da avaliação,
descubram um quadro mais complexo. Esse processo precisa ser conduzido com
sensibilidade, informação e acolhimento, porque ele redefine expectativas e
caminhos de cuidado”, destaca a especialista.
A importância do olhar integrado
Diante desse cenário, especialistas reforçam a importância de avaliações completas e contínuas, capazes de captar a diversidade de manifestações do neurodesenvolvimento. O reconhecimento do diagnóstico duplo não deve ser visto como um agravante isolado, mas como uma oportunidade de direcionar intervenções mais assertivas e eficazes.
Ao ampliar o entendimento sobre a coexistência entre TEA e TDAH, o campo da saúde mental avança para modelos de cuidado mais integrados, que consideram a complexidade do desenvolvimento humano e evitam abordagens fragmentadas.
Para
Isabella, esse é um movimento essencial. “Quando conseguimos enxergar além de
rótulos isolados, conseguimos construir estratégias que realmente fazem sentido
para aquela criança ou adolescente. E isso muda completamente a trajetória de
desenvolvimento e qualidade de vida”, conclui.
Casa Trilá - espaço especializado em neurodesenvolvimento que une ciência, acolhimento e educação para apoiar crianças e adolescentes neurodivergentes em sua trajetória de crescimento.
ViV Saúde Mental e Emocional
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