Cientistas e organizações apontam
lacunas na projeção da World Population Review para a contagem de mais de 700
mil jumentos no Brasil e criticam o uso dos dados por frigoríficos interessados
em ocultar risco de extinção da espécie nordestina
Divulgação.
A divulgação de dados pelo portal World Population Review, que afirma haver 730 mil jumentos no
Brasil – dez vezes maior que o número de 78 mil animais calculados em 2025 –
provocou indignação entre cientistas e especialistas de diversas áreas da
agroeconomia e medicina veterinária no Brasil e exterior de instituições como a
Universidade de São Paulo (Esalq/USP), Universidade Federal de Alagoas (UFAL),
Universidade de Cambridge, além de organizações de defesa dos direitos dos
animais, com destaque para a britânica The Donkey Sanctuary e a Frente Nacional
de Defesa dos Jumentos. Todos assinam uma Carta Aberta nesta semana listando as
inconsistências na informação veiculada recentemente.
O World Population Review (WPR) é
uma empresa privada, criada em 2013, como um blog para reunir tópicos demográficos em uma só plataforma. Aos poucos, passaram a incluir diversas modalidades de rankings,
que vão desde a produção agropecuária de cada país, dados sobre economia e até
estatísticas mais aleatórias como as bandeiras com as cores mais roxas, os
doces mais preferidos, os melhores times de golfe etc. Mas vem da seção
Agricultura e Meio Ambiente o polêmico número de jumentos em cada país,
apontando a existência de 730 mil desses animais no Brasil em 2026. A fonte
mencionada no site da WPR é FAO (sigla em inglês para “Food and Agriculture
Organization”, ou “Organização das Nações Unidas para a Alimentação e
Agricultura”). Este é o ponto inicial da inconsistência.
Para os cientistas e profissionais de medicina veterinária, o fato
de o jumento não ter a mesma relevância que outros animais da pecuária (como
aves, bovinos, suínos etc.) nos estudos sobre a produção de alimentos e
desnutrição do órgão das Nações Unidas faz com que eles usem estimativas
baseadas em dados secundários, logo, com maior possibilidade de falhas se
comparado à mensuração do tamanho do rebanho brasileiro de gado.
Roberto Arruda de Souza Lima, doutor em Economia Aplicada pela USP
e professor da ESALQ/USP, explica que a FAO não realiza censos próprios, ao
contrário do IBGE, e trabalha com estimativas baseadas em dados secundários.
“No caso dos jumentos no Brasil, essas estimativas têm origem na Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), que não é um censo, mas um levantamento
baseado em informantes locais, sujeito a imprecisões. Além disso, a PPM deixou
de divulgar dados sobre jumentos em 2013 e, desde então, a FAO passou a
utilizar modelos estatísticos para projetar a população. Esses modelos combinam
diferentes métodos e tendem a suavizar variações e seguir tendências ao longo
do tempo”, explica. Prova disso é que os dados mais recentes da FAO falavam em 739 mil jumentos em 2024.
“As estimativas da FAO são úteis para identificar tendências
gerais, porém, inadequados para estimativas detalhadas ou formulação de
políticas públicas, sobretudo na questão de jumentos, cuja população entrou em
forte declínio desde a permissão do abate dos animais para a exportação de
peles para China de 2016 até os dias atuais”, acrescenta o especialista da
Esalq/USP.
Um exemplo dessa limitação pode ser observado em 2017, quando o
Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
registrou cerca de 376 mil jumentos no
Brasil, enquanto o site da FAO contabilizava, no mesmo período, 844 mil animais
no mesmo período – mais que o dobro da quantidade oficial do IBGE à época. “Se
a estimativa da World Population Review para 2026 (730 mil) fosse
comparada com o número oficial do IBGE em 2017 (376 mil), estaria acontecendo
uma explosão populacional da espécie em menos de uma década, o que claramente
não é o caso”, acrescenta.
Roberto é autor de “Viabilidade Econômica do Abate de Jumentos na
Bahia” (Esalq/USP) que constata a ausência de uma cadeia produtiva na atividade
de exportação de peles de jumentos. Faltariam elementos considerados básicos
para uma cadeia produtiva estruturada, como manejo reprodutivo planejado,
reposição regular de plantel e previsibilidade de oferta. Não existem dados
públicos do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) sobre quantidade de
fazendas produtoras nem emissões de GTA (Guia de Transporte Animal) ou um banco
de dados a respeito. As exportações das peles são registradas, mas sob um
código que não discrimina o couro de asininos de outros equídeos, apesar de a prática
acontecer desde 2016.
Ao longo deste período, organizações não-governamentais entraram
com recursos judiciais para o fim do abate de jumentos, em novembro de 2025, o
desembargador Eduardo Martins, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1),
validou a atividade na Bahia (o único estado do país com autorização do MAPA
para exportação dessas peles), argumentando legalidade técnica e riscos
econômicos à União em caso de paralisação. Existe apenas um frigorífico
(Frinordeste) que opera nesse ramo no País, gerando menos de 150 empregos, em
Amargosa (a 240 km de Salvador) e com prazo para acabar, uma vez que é
extrativista, ocorrendo o fenômeno conhecido na economia como “tragédia dos
comuns” - quando a atividade acaba em função do fim do recurso explorado.
Segundo a The Donkey Sanctuary, uma das razões pela redução de
abatedouros de jumentos no Brasil (já chegaram a existir três empresas dessa
natureza) pode estar associada exatamente à escassez do recurso. A organização
explica que o colágeno extraído da pele dos jumentos é usado para a fabricação
de ejiao, uma substância da medicina alternativa chinesa que promete
propriedades revigorantes a quem consome. Apesar de não haver comprovação
científica, para atender à atual demanda de ejiao são necessários cerca
de 5,9 milhões de peles de jumentos por ano.
Na África, a matança desenfreada do animal fez com que os 55
chefes de estado do continente proibissem, por unanimidade, a exportação das
peles de jumentos por tempo indeterminado. “A divulgação equivocada de dados sobre
a situação dos jumentos no Brasil não só distorce a realidade, como também
invisibiliza um problema grave, que é o estado de emergência deste animal no
Brasil”, pontua Patricia Tatemoto, PhD em Ciências, na área de Medicina Veterinária
Preventiva e Saúde Animal pela Universidade de São Paulo (USP), coordenadora de
campanhas da The Donkey Sanctuary.
Adroaldo Zanella, doutor em Bem-Estar Animal pela Universidade de
Cambridge, com passagens pela Universidade Ludwig Maximilian de Munique e
Michigan State University, nos EUA, acrescenta que o levantamento mais
assertivo é aquele produzido por cientistas, organizações e demais instituições
especialistas, que acompanham com muita preocupação a redução do número de
jumentos, resultante do abate e que desafia a reputação do agronegócio
brasileiro, colocando em risco o desaparecimento dos animais nos próximos anos.
Em 2025, o grupo de pesquisadores contabilizou 78.916 jumentos, a partir de
informações e projeções cruzadas do IBGE, do Agrostat (do Ministério da
Agricultura, com base no abate de asininos) e também da FAO, respeitando as
devidas limitações de cada fonte.
Essa contagem considerou também a raça de jumentos “pêga”, com
grande presença no estado de Minas Gerais, e de alto valor agregado com criação
semelhante a colecionadores de cavalos no Brasil, logo, sem ser alvo do
comércio de peles. Para Pierre Barnabé, PhD em Ciências na área de
Biotecnologia e professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), isso
significa que a quantidade de jumentos nordestinos pode ser ainda menor que os
78 mil indivíduos estimados.
“O jumento nordestino é a nossa preocupação, por ser um ecótipo
único que pode desaparecer nos próximos anos”, alerta. “Os dados considerados
confiáveis são aqueles produzidos por pesquisadores e cientistas que querem
preservar a espécie de um risco iminente de sua extinção”.
Vânia Nunes, diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e
Defesa Animal, prefere retratar esse cenário com a comparação de que “para cada
100 jumentos que existiam no Brasil, há três décadas, hoje restam apenas 6, o
que equivale a perda de 94% da população entre 1996 e 2024”.
Ela também questiona o porquê de os textos que, neste momento, vêm
divulgando os dados da World Population Review trazem como fonte apenas
o zootecnista Alex Bastos, identificando apenas “administrador rural” e
ocultando que ele é o proprietário do abatedouro Frinordeste Ltda, o único em
atividade no Brasil. “É uma informação que precisa aparecer, a fim de não
comprometer a imparcialidade de sua opinião.”
A diretora ainda critica a ausência de uma atuação mais
consistente do poder público no monitoramento da população de jumentos. “A
falta de uma série histórica confiável sobre a presença desses animais nas
diferentes propriedades, especialmente no Nordeste, faz com que os dados atuais
causem grande impacto. Precisamos de políticas públicas mais estruturadas de
monitoramento”, completa.
Onde pode haver lacunas nos dados - As projeções estatísticas da FAO sobre o número de jumentos
no mundo já foram alvo de críticas, como as do artigo Global donkey and mule
populations: Figures and trends, publicado na revista científica Public Library
of Science. Segundo o texto, uma das limitações do órgão da ONU para
contabilizar essa espécie vem da origem dessas informações, os países
signatários cujas estatísticas para asininos estão desatualizadas ou
subnotificadas, especialmente em contextos de informalidade e pouca relevância
socioeconômica local. Além disso, a maioria dos países não reportam dados sobre
os jumentos separadamente de muares, levando a FAO a trabalhar com bases
imperfeitas nas modelagens de seus censos.
Para o documento, a falta desta precisão impede análises fiéis em situações relevantes para identificar riscos de extinção ou tendências ao longo do tempo. A conclusão do artigo é que “os dados da FAO são úteis para observar padrões gerais, mas inadequados para diagnósticos detalhados de realidades específicas, pois se baseiam em estimativas indiretas e não em levantamentos de campo”.
Portais que utilizam fontes diversas sem os devidos
cuidados, como o World Population Review, costumam levar a conclusões
equivocadas sobre outras espécies, como é o caso de que o Brasil teria hoje 86
mil onças. Infelizmente, esse é outro exemplo de projeção que pode ser usada
por negacionistas sobre o risco de extinção das onças. Segundo o estudo
“Ameaças antropogênicas iminentes e priorização de áreas protegidas para
onças-pintadas na Amazônia brasileira”, realizado pelo WWF, em parceria com o
Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do ICMBIO, em
2023 havia um pouco mais que 23 mil onças na Amazônia brasileira, onde se
concentra a grande maioria dessa espécie no Brasil - número três vezes menor
que o site de estatísticas.
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