Doença possui semelhanças com o Alzheimer, porém com diferenças significativas e pode afetar diferentes funções cognitivas
Ontem, o Fantástico revelou que o ex-repórter da
Globo, Mauricio Kubrusly, deixou a cidade de São Paulo e foi viver na Bahia
após ter sido diagnosticado com demência frontotemporal. “Maurício hoje vive no
sul da Bahia com a esposa, Beatriz Goulart, e com Shiva, simpático cachorro que
o acompanha na praia. Deixou São Paulo do coração para mergulhar na natureza
depois que foi diagnosticado com Demência Frontotemporal (DFT). A memória se
foi, mas, como ele sempre diz, permanece sua enorme paixão pela vida e pela
gente brasileira”, foram as frases exibidas durante o programa. O jornalista
havia deixado a Globo em maio de 2019, após 34 anos, mas já estava afastado da
emissora por problemas de saúde meses antes. Essa foi a mesma doença com a qual
o ator Bruce Willis já havia sido diagnosticado no início do ano. Mas afinal, o
que é a demência frontotemporal e como ela afeta as pessoas?
O neurologista do Hospital Edmundo Vasconcelos, Tiago Sowmy, explica que a demência frontotemporal, assim como a Doença de Alzheimer, são doenças crônicas neurológicas degenerativas, que se instalam ao longo de um período de tempo que pode abranger de meses a anos. “Ambas são doenças que afetam a cognição do indivíduo, o que pode prejudicar aspectos como a memória, linguagem (com leitura, escrita e fala), adequação do comportamento social, auto-organização, funções executivas e em alguns casos a perda da capacidade de reconhecimento de faces e de objetos”, detalha ele.
Porém, a demência frontotemporal é diferente do
Alzheimer em relação à sua apresentação clínica e à sua fisiopatologia. Segundo
o médico, é uma doença multifacetada e pode se apresentar de várias formas, com
sintomas que podem ser mais comportamentais (variante comportamental da
demência) ou mais relacionados à linguagem (afasia progressiva primária), em
que ocorre dificuldades para falar, escrever e compreender ordens simples ou
complexas advindas de outras pessoas. “No início, ambas podem se apresentar de
maneira parecida. O paciente pode apresentar alguma dificuldade cognitiva sem
grande repercussão, pois a doença ainda não se desenvolveu para que o
diagnóstico fique mais preciso. Não é incomum que apenas durante o curso da
patologia, de sua evolução clínica e da investigação laboratorial que fique
discriminada qual o tipo de demência frontotemporal apresentada pelo paciente”,
explica o especialista.
Os sintomas da demência frontotemporal são
alteração do comportamento e de personalidade e, com o decorrer do tempo, podem
surgir distúrbios cognitivos. Os sintomas comportamentais se iniciam com um
quadro de desinibição, apatia ou falta de engajamento nas atividades diárias,
podendo evoluir para um comportamento de impulsividade e comportamentos
antissociais, inclusive com episódios de agressividade. “Não é incomum
percebermos uma dificuldade para a realização de juízos de valor, ou seja, de
julgamentos ou ainda uma inflexibilidade nas atitudes ou ações. É muito comum
que o próprio paciente não tenha consciência da doença e dos sintomas que
apresenta (anosognosia)”, destaca o médico. A tendência é que, por ser uma
doença degenerativa progressiva, os sintomas se agravem ao longo do tempo,
tornando a convivência e os cuidados ainda mais complexos, o que afeta a vida
dos familiares e dos cuidadores.
Os sintomas da doença costumam iniciar com maior
frequência na faixa dos 50 e dos 60 anos, sendo que 10% dos casos se dão acima
dos 70 anos. Tiago Sowmy acrescenta que cerca de 40% dos pacientes
diagnosticados têm antecedentes familiares, com alguns tipos de mutações
genéticas.
Diagnóstico
Tiago indica que o primeiro passo para identificar
a doença é a realização de uma investigação ampla que afaste outras patologias
que possam explicar os sintomas. Entre os exemplos, ele aponta, estão casos de
neurosífilis, doenças hepáticas, doenças metabólicas associadas à disfunção
tireoidiana, depressão, transtorno bipolar e até mesmo o uso de drogas e
medicações que possam simular os sintomas. “Após essas doenças serem
descartadas, o médico responsável poderá realizar um diagnóstico clínico
apoiado por exames de imagem que podem mostrar alterações e o surgimento de
atrofias nas regiões dos lobos frontal e temporal. Além da ressonância
magnética, podem ser utilizados exames de imagem, como o PET e o SPECT, que
buscam avaliar não mais a anatomia ou estrutura do cérebro, mas principalmente
o seu metabolismo e o seu funcionamento”, destaca o médico.
Para além disso, há ainda trabalhos científicos e
pesquisas que podem identificar a presença de proteínas que se relacionam com
uma das variantes da demência frontotemporal. Por fim, ainda reforça que há
algumas alterações genéticas familiares que podem favorecer a manifestação da
doença. “O diagnóstico também se baseia em uma avaliação neuropsicológica,
feita por um profissional especializado que consegue mapear os domínios
cognitivos mais afetados. A avaliação de todos esses aspectos será determinante
para se fazer um diagnóstico mais apurado. Infelizmente ainda não existe um
tratamento específico, mas o grande objetivo de um diagnóstico precoce é o
controle de sintomas que o paciente possa apresentar, além de descartar doenças
potencialmente tratáveis”, finaliza.
Hospital Edmundo Vasconcelos
www.hpev.com.br
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