Amor, paixão, relacionamento, são vocábulos que estão na ordem do dia e sobre os quais todos têm uma opinião ou um conselho. No entanto, como em tudo na vida, a ciência pode explicar e desmistificar os processos por detrás dos nossos sentimentos e reações. O PhD, neurocientista, neuropsicólogo e biólogo Fabiano de Abreu ajuda a compreender as diferenças que ocorrem a nível cerebral alertando que a química do nosso corpo não nos deixa mentir.
"Detalhar
como o cérebro funciona no relacionamento não é tão simples, pois depende não
só do sentimento da pessoa, como também de outros fatores como a personalidade
e inteligência. Estes também interferem em como o cérebro funciona no
relacionamento. Portanto, qualquer receita de bolo para este título estaria
equivocada. Mesmo assim, vou selecionar alguns fatores que possam vir a
acontecer em diferentes casos no relacionamento. ", reflete.
Abreu
explica que a ciência ajuda a compreender melhor todo o processo que ocorre
quando nos apaixonamos, quando amamos ou quando simplesmente nos forçamos a uma
relação que já não nos satisfaz.
"Estudos
mostraram que quando olhamos para o rosto de quem estamos apaixonados, um
número limitado de áreas no cérebro estão especialmente envolvidas em sua
ativação, independentemente do sexo. Entre elas encontram-se estruturas corticais
e subcorticais: córtex insular, córtex cingulado anterior, hipocampo, partes do
córtex estriado e núcleo accumbens", explica,"Já ouviu dizer que a
paixão é passageira? Porque é uma emoção com prazo de validade e de alta
intensidade. A paixão ocasiona estados de hipermotivação, perda da razão,
estresse, dependência, obsessão e compulsões."
Mais
cientificamente Abreu garante que, "Dependendo do gênero, diversas regiões
do cérebro estão relacionadas à paixão, entre elas, o córtex pré-frontal e as
demais que estão localizadas nas regiões do núcleo da base e do sistema
límbico. O neurotransmissor envolvido é a famosa dopamina, responsável pela
sensação de recompensa.
Fibras
dopaminérgicas, via feixe prosencefálico medial, se projetam da área tegmental
ventral (VTA) do mesencéfalo para o núcleo accumbens. O córtex pré-frontal
também exerce a função de fornecer feedback para a VTA diretamente ou pelo
núcleo accumbens. Todas essas estruturas se comunicam com o hipotálamo para
iniciar as respostas neuroendócrinas e viscerais de recompensa."
Mesmo
as alterações que muitas vezes associamos a quem está apaixonado como a falta
de apetite ou o humor têm a sua explicação.
"Com
o aumento da dopamina, há uma diminuição da serotonina, neurotransmissor
relacionado ao apetite e ao humor. Por isso que muitos apaixonados emagrecem.
Estudos já provaram a redução de serotonina no estado inicial de paixão e o
mesmo acontece em pacientes com distúrbios obsessivo-compulsivos.
A
obsessão está relacionada ao vício, a dopamina é viciante, por isso usuários de
drogas tornam-se dependentes, pois este neurotransmissor está relacionado
também com a sensação de êxtase com o uso de drogas. Há um aumento do cortisol,
hormônio relacionado ao sistema imunológico no combate ao estresse, euforia,
ansiedade.", refere o neurocientista.
Uma
vez que deixamos de falar de paixão e começamos a falar de amor, as reações
químicas que ocorrem a nível cerebral são distintas.
Ao
amar, "vamos falar do hormônio oxitocina, também liberado no parto ou no sexo.
Ele está relacionado a vínculos mais duradouros. Assim como a vasopressina,
este hormônio aumenta a pressão sanguínea, por isso amar faz bem.
Ambos
os hormônios são produzidos no hipotálamo e armazenados na hipófise para serem
descarregados na corrente sanguínea. Principalmente durante o sexo, em homens e
nas mulheres durante o parto e na amamentação.", indaga
Da
mesma forma que quando o sentimento acaba e nos forçamos por variadas razões a
continuar numa relação que perdeu o sentido, o nosso cérebro se reprograma de
maneira diferente.
"O
cérebro age diferente e a neurociência pode identificar, até mesmo analisando o
comportamento. No romance, quando apaixonados, regiões como o córtex
pré-frontal, região da cognição, raciocínio lógico e consciência e a amígdala
cerebral, região dos instintos e situações de medo, são “desativados”. Esta
região é inibida desregulando a capacidade de discernimento. Com o tempo essas
alterações se invertem e aos poucos volta-se à "consciência" e o
tempo varia de acordo com a personalidade do indivíduo, inteligência e com
diversos fatores externos que possam causar desilusão, por isso, não tatue o
nome da namorada e cuidado com as loucuras impensáveis da paixão., explica.
Como
refere Abreu, "Quando racionalizamos os prós e os contras de forma
consciente e concluímos que algo no parceiro(a) não se encaixa, predomina então
o instinto de sobrevivência no sistema límbico ativando a ansiedade para que
possamos resolver a pendência que é se livrar daquela pessoa. Quando isso não
acontece, a ansiedade aumenta e envolve constantemente a amígdala cerebral que,
com o passar do tempo, se não resolver, coloca a pessoa em um sentimento de
infelicidade causando disfunção generalizada em diversos neurotransmissores.
Todo esse circuito neuronal envolve não só comportamentos como expressões que revelam a insatisfação conjugando diversas regiões do cérebro como o córtex cerebral, sistema límbico e o núcleos da base."
Em jeito de conclusão, Fabiano de Abreu aconselha:"Seja honesto e sincero com o seu parceiro(a), a ciência hoje em dia releva cada gesto, expressão e comportamento."

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