O número de Carteiras Nacionais de Habilitação (CNHs) emitidas e que constam a exigência do uso de lentes de contato ou óculos, por exemplo, aumentou 44%, entre 2014 e 2020. Atualmente, o grupo que necessita de restrições na CNH representa quase um terço da população habilitada no Brasil: são 20,7 milhões de motoristas e motociclistas.
Os dados inéditos,
divulgados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), corroboram avaliação
da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) sobre o impacto das
condições de saúde do condutor sobre os sinistros de trânsito no País.
"Esse é um alerta de grande relevância e que devemos observar ao
aplicarmos o Exame de Aptidão Físico e Mental (EAFM)", avalia Flávio
Adura, diretor científico da Abramet.
"Mais de 90% das
informações enviadas para o cérebro durante o ato de dirigir vêm da visão. Para
executar as manobras necessárias no trânsito é necessária uma boa visão",
observa. Segundo ele, doenças oftalmológicas interferem na direção veicular e
podem comprometer a capacidade do condutor. "Ao dirigir, o motorista deve
perceber, com precisão, todos os elementos presentes na via. O importante não é
o que se vê, mas como se reage ao que se vê", explica Adura, destacando
que a avaliação da acuidade do campo visual e da visão noturna são etapas
essenciais na aplicação do EAFM.
Na avaliação do
vice-presidente do CBO, Cristiano Caixeta Umbelino, o aumento dos índices de
pessoas com problemas visuais no trânsito está relacionado à conjunção de
alguns fatores, principalmente ao envelhecimento da população brasileira e a
maior facilidade de acesso ao atendimento oftalmológico.
"É um contexto
amplo. A expectativa de vida aumentou consideravelmente nas últimas décadas.
Nesse sentido, é natural que o envelhecimento dos olhos seja acompanhado do
surgimento de problemas de vista. Há ainda outras causas externas, como a
popularização das mídias digitais. Hoje, a sociedade está imersa em novos
hábitos, que sobrecarregam a visão, como a exposição diária dos olhos e por
longos períodos a telas", pondera.
Distúrbios visuais - O levantamento aponta
quais tipos de anotações aparecem com maior frequência na CNH dos motoristas
brasileiros. Na primeira colocação está a necessidade do uso de lentes corretivas
(restrição de código A), com mais de 20 milhões de condutores que não podem
dirigir ou pilotar se não estiverem fazendo uso de óculos ou lentes de contato.
Em segundo lugar, com
mais de 332 mil casos, constam as restrições associadas à visão monocular
(código Z), hoje excluída da Resolução do Contran que trata das restrições
médicas. Em terceiro lugar, com aproximadamente 102 mil casos, estão os
motoristas impedidos de dirigir após o pôr-do-sol (código U).
A inclusão dessas
anotações na CNH é feita pelo médico do tráfego, ao final da avaliação prévia
exigida para a concessão ou renovação da CNH. No exame, o especialista analisa
as condições do candidato de conduzir um veículo sem oferecer perigo para
outros motoristas, passageiros e pedestres.
São analisadas a
acuidade visual, o campo de visão, a capacidade do candidato de enxergar à
noite e reagir prontamente - com resposta rápida e segura ao ofuscamento
provocado pelos faróis dos demais veículos; e a capacidade de reconhecer as
luzes e sua posição dos semáforos.
Ao identificar a
existência ou sintoma de deficiência de visão, o médico do tráfego orienta a
busca por uma avaliação especializada, de um médico oftalmologista, para que
seja feito o diagnóstico e prescrição do tratamento. "No resultado do
exame, o médico do tráfego poderá considerar o candidato apto, apto com
restrições ou inapto", completa Adura.
Saúde do condutor - Dados divulgados pela
Abramet indicam que cerca de 250 mil sinistros que ocorreram entre janeiro de
2014 e junho de 2019 resultaram de problemas na saúde dos condutores. O
presidente da entidade, Antonio Meira Júnior, avalia que as dificuldades de
visão estão entre essas causas mais comuns, ao lado de velocidade excessiva e
ultrapassagens perigosas.
Segundo números oficiais
da Polícia Rodoviária Federal (PRF), o comprometimento da saúde visual foi
responsável por 1.659 sinistros de trânsito em rodovias federais, em apenas
três anos (2016-2019). Conforme avaliam os especialistas da área, se levado em
conta sinistros verificados em pistas, ruas e avenidas dos centros urbanos,
certamente o número seria ainda maior.
Outras restrições - Além das restrições
relacionadas à saúde visual, existem ainda outras restrições passíveis de
anotação na CNH. A resolução 425/2012 do Conselho Nacional de Trânsito
(Contran), que dispõe sobre a realização do exame de aptidão física e mental
para condutores e candidatos a condutores e veículos automotores, prevê a
indicação de eventual restrição médica do motorista e a solução indicada para a
direção segura, incluídas adaptações dos veículos para serem conduzidos por
pessoas com deficiência.
Considerando-se as
restrições obrigatórias para a condução de veículos adaptados por pessoas com
deficiência, a de maior frequência, com mais de 492 mil casos, é a que obriga
os motoristas a dirigir veículos com transmissão automática (código D). Em
seguida aparecem as anotações de obrigatoriedade do uso de veículo com direção
hidráulica (código F): são 408 mil casos em todo o País.
Em 2018, a ABRAMET
publicou diretriz específica para a avaliação clínica desses candidatos,
estabelecendo os procedimentos a serem observados pelo médico do tráfego
durante a realização do Exame de Aptidão Física e Mental. O protocolo apresenta
critérios para qualificar o exame, indicando os passos da avaliação clínica
inicial e os casos que devem ser apreciados por junta médica e durante a prova
prática de direção. Para cada alternativa, a entidade sinaliza os procedimentos
a serem adotados pelo médico especialista.
A diretriz também apresenta um conjunto de casos
especiais, apontando doenças e outros distúrbios que possam impactar a
capacidade de dirigir como a presença de próteses, tumores cerebrais,
distrofias etc.
Nenhum comentário:
Postar um comentário