22 de março dia mundial da água
O algodão
agroecológico reduz em até 91% o consumo de água, 62% no consumo de
energia e 46% nas emissões de GEE, além de menor toxicidade e maior
geração de emprego
A
boa notícia ganhou eco com o relatório :Fios da Moda: Perspectiva Sistêmica para Circularidade que
traz dados inéditos sobre os impactos socioambientais das principais fibras
utilizadas na indústria da moda brasileira: algodão, poliéster e viscose.
O
conceito de economia circular é uma visão completa e complexa para o
problema da crise climática, e com este relatório brasileiro os players da
indústria têxtil e moda ganham mais informações e ferramentas em direção a
soluções dentro da realidade do país.
Apesar
do estudo fazer uma análise das 3 principais fibras utilizadas no mundo,
chamamos a atenção para a relação do algodão e da água neste dia. A nível
global as técnicas usadas de irrigação fazem com que o consumo de água na
produção da matéria prima seja uma grande vilã, é comum vermos dados de quanto
uma camiseta ou calça jeans consomem de água na sua produção mas, se o algodão
for brasileiro existe grande chances da realidade ser bem diferente, o algodão
no país é em sua maioria produzido em sequeiro ou seja, apenas com água da
chuva.
“(...)
as características específicas da produção brasileira parecem ser muito
influentes para o consumo de água na cultura do algodão. O predomínio da
produção de algodão em sequeiro (sem irrigação) é refletido nos valores médios
nacionais para essa categoria: 2.333 L/kg de algodão (berço ao túmulo) e 1.704
L/kg de algodão (berço ao portão). Esses valores são de 4 a 5 vezes menores que
os valores médios relatados em estudos internacionais, considerando o escopo
berço ao portão e berço ao túmulo, respectivamente. Esse é um quadro
tipicamente brasileiro, dado que mais de 70% do algodão mundial é irrigado e a
média mundial de consumo de água de irrigação é de 10000 L de água por kg de
fibra (VASCONCELOS et al., 2012) (...)Essa peculiaridade da produção nacional
diminuiu drasticamente o consumo de água nessa etapa do ciclo de vida dos
vestuários.”
Porém
a preocupação com a água ainda é grande e, está ligada a contaminação : “ No
Brasil, o algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, sendo
responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no
país (BOMBARDI, 2017), com uma aplicação média de 28 litros de pesticidas por
hectare de algodão (ABRASCO, 2015). O impacto do uso de pesticidas é motivo de
grande preocupação, devido ao alto potencial de afetar a saúde humana e o meio
ambiente, podendo ocasionar a contaminação das águas superficiais e
subterrâneas, mortalidade de abelhas, intoxicação, aborto espontâneo e câncer
em seres humanos (ABRASCO, 2015).”
Contudo
o estudo observa a movimentação do setor para a questão ambiental “(...) país
tem investido em rastreabilidade e certificação para garantir uma produção com
menor impacto ambiental. O Brasil é o maior produtor mundial de algodão
certificado Better Cotton Initiative (BCI), respondendo por cerca de 30% do
volume total de algodão BCI (BCI, 2020; TEXTILE EXCHANGE, 2019)”
No
entanto a alternativa incentivada pelas pesquisadoras é o algodão agroecológico
por conta dos seis pilares para a circularidade elaborados por elas, que se
destaca por abordar uma avaliação que contempla além dos fatores ambientais
também os fatores sociais envolvidos na economia circular :1) Design de produto
circular, 2) Design de Processos e Fluxos Circulares 3) Sistemas Vivos: Regenerar
a Natureza, 4) Recursos e Toxicidade Limitada, 5) Condições Locais:
Internalizar Externalidades, e 6) Sociedade: Justiça e Ecologia Social.
Nesse
sentido em se tratando da fibra de algodão, a alternativa agroecológica se
demonstra mais coerente. “A produção de algodão em sistema de monocultura, em
geral, é bastante danosa ao ambiente, pois reduz a biodiversidade dos
agroecossistemas, tornando-os vulneráveis aos ataques de pragas e doenças,
assim como à perda de fertilidade dos solos. Isso implica a necessidade de usar
uma quantidade cada vez maior e mais perigosa de pesticidas e fertilizantes
químicos, os quais, além de poderem impactar a saúde humana, podem também
poluir as águas e o solo, causando perda de biodiversidade e dos seus serviços
ecossistêmicos (SAMBUICHI et al., 2017). Uma alternativa à cotonicultura é a
produção de algodão orgânico em bases agroecológicas. Nesse sistema, o cultivo
é realizado de forma a manter a saúde dos solos, ecossistemas e pessoas.
Baseia-se em processos agroecológicos, biodiversidade e ciclos adaptados às
condições locais, com o emprego de sistemas de rotação de culturas (que
contribuem para a restauração da qualidade do solo) e sem o uso de agrotóxicos
sintéticos tóxicos e persistentes (pesticidas e fertilizantes) e de sementes
geneticamente modificadas (TEXTILE EXCHANGE, 2019b).”
Para
o consumidor analisando o ciclo de vida de peças de algodão, o estudo aprofunda
várias observações e comparações entre autores e destaca que sob o olhar do
consumo da água, logo em seguida a etapa de produção, a fase do uso da peça é a
que mais se destaca.
“As etapas de fiação
e tecelagem e de tingimento também apresentam certo grau de impacto por
consumirem quantidades consideráveis de água, especialmente o tingimento
(QUANTIS, 2018). A etapa de uso é a segunda principal contribuinte em termos de
consumo de água. Nessa etapa, a lavagem é o principal processo contribuinte
para esse impacto (BEVILACQUA et al., 2014). Em análises de cenários, estima-se
que máquinas de lavar eficientes consomem 30% menos água durante a lavagem do
que máquinas de lavar convencionais (PERIYASAMY; WIENER; MILITKY, 2017) .
Ainda, a literatura aponta que a coloração do produto (ex.: camisa) apresenta
diferenças substanciais no consumo de água no processo de lavagem, apesar de
pouca diferença no consumo de energia (WANG et al., 2015). Assim, a etapa de
produção da matéria-prima, seguida da etapa de uso pelo consumidor, apresenta
os maiores impactos em relação ao consumo hídrico (PERIYASAMY; WIENER; MILITKY,
2017).”
“A vontade de
produzir um relatório sobre têxteis está ligada à urgência da transformação que
precisamos fazer acontecer na próxima década se quisermos garantir condições de
vida minimamente estáveis na Terra frente a um cenário climático em profunda transformação”,
ressalta Marina Colerato, coordenadora do projeto.
DADOS
EM DESTAQUE:
-
No Brasil, o algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, com
destaque para o glifosato, que corresponde a mais da metade do volume de agrotóxicos
comercializados no país;
-
O algodão é responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas
utilizados em território nacional;
-
A etapa de produção de matéria-prima é o principal ponto crítico no impacto à
biodiversidade e ocupação do solo pela cotonicultura, sendo responsável por 99%
do impacto total;
- A produção
agroecológica de algodão tem impacto positivo sobretudo na qualidade de vida
das mulheres camponesas e na soberania alimentar.
Acesso ao relatório: https://modefi.co/relatorio-fios-da-moda
Vídeo: http://modefi.co/filme-fios-da-moda
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