Pessoas fisicamente ativas ficam menos doentes, se recuperam mais rapidamente quando adoecem, possuem melhor qualidade de vida e são mais produtivas do ponto de vista laboral e das atividades diárias
O estilo de vida moderno impõe diversos
sacrifícios às pessoas em benefício dos ganhos financeiros e profissionais.
Como consequência, as pessoas dormem mal, se alimentam mal e estão se tornando
cada vez mais sedentárias em busca de um ideal, que pouco contribuiu com um
estilo de vida saudável. No dia mundial de combate ao sedentarismo, vale a pena
fazer uma reflexão dos motivos pelos quais ser fisicamente ativo deveria ser um
objetivo palpável e não utópico.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU),
estima-se que 27,5% dos adultos e mais de 81% dos adolescentes do mundo não
alcancem as recomendações mínimas de exercícios físico aeróbio. No Brasil, o
sedentarismo tem diminuído, porém, o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) apontou que 40,3% da população brasileira é sedentária.
Números alarmantes se levarmos em conta as consequências do sedentarismo.
Pessoas fisicamente ativas ficam menos doentes,
se recuperam mais rapidamente quando adoecem, possuem melhor qualidade de vida
e são mais produtivas do ponto de vista laboral e das atividades diárias. Esse
argumentos por si deveriam ser convincentes. Entretanto, em um país onde os
costumes e a agenda são pautados pelos agentes econômicos é salutar informar
que o Estado de São Paulo gastou mais de R﹩ 90 milhões em 2020
devido a doenças diretamente relacionadas ao sedentarismo. Estimativas sugerem
que os gastos do Ministério da Saúde relacionados à obesidade podem ter
atingido a incrível cifra de R﹩ 1,5 bilhão em 2020. São gastos com exames hospitalares,
internações, cirurgias e procedimentos de recuperação evitáveis.
Além do impacto econômico, o sedentarismo
permite ser observado por diferentes ângulos. Pessoas que são fisicamente
inativas desenvolvem ao longo do tempo uma condição denominada de
"inflamação crônica de baixo grau". Não se trata de uma inflamação de
magnitude incomparável como nas grandes infecções e como, infelizmente, nos
acostumamos a ouvir por causa da covid-19. O tecido adiposo produz proteínas
com elevado poder inflamatório. Por isso, quanto maior a quantidade de tecido
adiposo no organismo da pessoa maior a tendencia de desenvolvimento da quadros
inflamatórios crônicos. A inflamação crônica de baixo grau é silenciosa e sem sinais
evidentes, mas que por perdurar por meses ou anos pode estar na origem das
principais doenças cardiovasculares, doenças metabólicas como obesidade e
diabetes, depressão, piora do sono e da cognição (como dificuldade de
concentração e de aprendizado), doenças autoimunes, câncer e outras doenças
crônicas. Mais ainda, essa inflamação crônica faz com que a capacidade do
sistema imunológico de detectar patógenos (agentes tais como vírus e bactérias)
e destruí-los fique prejudicada, abrindo caminho para doenças infeciosas
oportunistas como gripes, resfriados e infecções gastrointestinais.
Por outro lado, o exercício físico tem papel
relevante no contexto fisiológico de combate aos efeitos do sedentarismo. Além
de reduzir a quantidade de gordura estocada no organismo, o exercício físico
faz com o que o músculo produza substâncias anti-inflamatórias, que como o
próprio nome sugere tem potencial de reduzir o quadro inflamatório causado pelo
sedentarismo e gerar um equilíbrio, que é favorável para a prevenção das
doenças anteriormente citadas.
Não se trata de treinar como o campeão olímpico
da maratona. Trata-se de deixar o carro em casa e ir de bicicleta, ir a pé na
padaria ou farmácia, caminhar no parque. Se possível treinar. As novas
recomendações apresentadas pela ONU em 2020 sugerem que todos as pessoas entre
18 e 64 anos devam praticar pelo menos 300 minutos de exercícios aeróbios com
intensidades moderadas ou 150 minutos de exercícios vigorosos por semana. Além
dos exercícios aeróbios, a ONU recomenda a realização de exercícios que
promovam o fortalecimento muscular por pelo menos duas vezes na semana. São
recomendações mínimas e possível para todos.
Essas recomendações são amplas, servem de guia
e precisam ser ajustadas para cada pessoa levando em conta idade, gênero,
doenças preexistentes e outras individualidades. Para maximizar os benefícios
do exercício e reduzir os riscos, é indispensável que a prática de qualquer
exercício físico seja acompanhada por um profissional de Educação Física, que é
o único profissional capacitado para prescrever exercício físico de forma
segura.
Combater
o sedentarismo deve ser prioridade, assim como o combate à pobreza e a fome, à
concentração de renda e à desigualdade social. A questão é social, econômica e
humanitária. Um país pactuado com a vida não pode se limitar a academias a céu
aberto construídas em praças e abandonadas à própria sorte. Precisa de
políticas públicas que fomente o desenvolvimento de um estilo de vida
fisicamente ativo desde as primeiras etapas da vida.
Ronaldo Vagner
Thomatieli dos Santos, professor associado do Departamento de Biociências e coordenador do curso
de Educação Física do Instituto de Saúde e Sociedade (ISS/Unifesp) - Campus
Baixada Santista.
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