Volume de empregos das mulheres regrediu ao patamar de 30 anos atrás. Somente no terceiro trimestre de 2020, 8,5 milhões perderam suas vagas no mercado de trabalho
No
segundo dia em que o Brasil ultrapassa duas mil mortes pela covid-19 em 24
horas, concentrando 10% dos óbitos pela doença no mundo, totalizando 267 mil
pessoas, ocorreu um debate sobre os impactos da pandemia na vida das mulheres.
São elas as que mais perderam empregos, redobraram o trabalho em casa, sofrem
violência doméstica, são as mais sobrecarregadas no cuidado com filhos e idosos
e terão maior dificuldade de retornar ao mercado de trabalho. (Confira vídeo com os dados)
Essas
constatações foram feitas pelas cinco convidadas da live “Pela Vida das Mulheres”, realizada nesta
quinta-feira (11), 19h, promovida pelas organizações sociais que articulam a
campanha “Tributar os Super-Ricos”.
As
deputadas Erika Kokay (PT/DF), Fernanda Melchionna (PSOL/RS) e Gleisi Hoffmann
(PT/PR) enfatizaram a importância deste movimento nacional para exigir que o
Congresso Nacional aprove medidas que promovam justiça fiscal e a redução das
desigualdades.
Desmonte
de políticas
“As
primeiras vítimas de uma crise como essa são as mulheres. São elas as que mais
sofrem”, registrou Gleisi Hoffmann, lembrando que as gestões do PT foram
muito importante para as mulheres pela criação do Bolsa Família, Secretaria
Especial de Políticas para as Mulheres, Luz Para Todos, o programa de cisternas
entre outras iniciativas com recorte de gênero.
A
presidenta do Partido dos Trabalhadores destacou a anulação da condenação do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e enfatizou que após o golpe de 2016
contra Dilma Rousseff, a primeira mulher presidenta do Brasil, várias
conquistas foram desmontadas, como a desregulamentação do trabalho doméstico,
que abrange mais de seis milhões de mulheres no Brasil, assim como outras
políticas de proteção.
Milhões
sem renda e ricos isentos
Para
Erika Kokay, o recorte de gênero deve estar presente em todas as políticas
públicas e nas grandes questões do país. “Taxar os super-ricos é o cerne da
política. Temos milhões de brasileiros sem nenhum tipo de renda e os
super-ricos continuam não taxados”, acentuou.
“Quando
se fala em ajuste fiscal e se preserva os milionários você dirige suas armas
para o servidor publico e no Estado de bem-estar social, como é essa PEC
Emergencial votada hoje. Metade do orçamento é garfado pelo serviço da dívida.
Quem ganha com o serviço da dívida, são os super-ricos na especulação dos
recursos públicos. A Câmara e o governo são sabujos do mercado neste momento”,
resume a parlamentar do Distrito Federal.
Retrocesso
de 30 anos
O
número de postos de trabalho ocupados por mulheres regrediu na pandemia ao
patamar de 30 anos atrás, acentuou a líder do PSOL na Câmara, Fernanda
Melchionna. “É inadimissível liberar R$ 350 bilhões para pagamentos de juros da
dívidas em 2020, valor superior ao destinado ao auxilio emergencial”,
comparou. A deputada gaúcha lembrou ainda que 42 bilionários brasileiros
ficaram mais ricos na pandemia, faturando R$ 176 bilhões apenas de março a
junho de 2020 (dados da Oxfam).
O
percentual de mulheres que estavam trabalhando ficou em 45,8% no terceiro
trimestre de 2020, segundo os dados mais recentes do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea). O nível mais baixo desde 1990, quando a taxa ficou
em 44,2%.
O
país ocupa a segunda posição em concentração da renda total pelo 1% mais rico,
perdendo apenas para o Catar. Também ostenta a sétima posição entre os países
com maior número de bilionários e é o sétimo país mais desigual.
Pedido
para tramitação urgente
“É
mais que urgente tributar os super-ricos e distribuir renda e riqueza para
políticas públicas e pagar o auxilio emergencial enquanto durar a pandemia”,
acentuou Maria Regina Paiva Duarte, presidente do Instituto Justiça Fiscal
(IJF), uma das entidades que articula a campanha.
Em
agosto de 2020 foram apresentados ao Congresso oito projetos que propõem
reduzir impostos para os mais pobres e pequenas empresas e elevar para altas
rendas e grandes fortunas, tributando 0,3% mais ricos e arrecadando cerca de R$
300 bilhões ao ano.
Corrigir
a tabela do IRPF com alíquotas mais altas para altas rendas, acabar com isenção
de lucros e dividendos distribuídos e a dedução de juros sobre capital próprio,
combinadas com a implementação do Imposto sobre Grandes Fortunas, revisão de
benefícios fiscais e combate à sonegação são parte do conteúdo das propostas da
campanha.
A
dirigente do IJF solicitou apoio das bancadas de oposição na Câmara Federal
para que esses projetos emergenciais sejam pautados com urgência diante da
profunda crise sanitária, econômica e social. “Contamos com os partidos para
avançar”, enfatizou.
Tributação
e desigualdade
“A
pandemia aprofundou as desigualdades entre homens e mulheres que é estrutural
na sociedade capitalista”, analisa a doutora em Desenvolvimento Econômico pelo
Instituto de Economia da Unicamp, Juliane Furno.
“Tributar
os super-ricos é condição necessária para uma vida mais justa. Só nessas
condições a gente pode reduzir as desigualdades de gênero”´, observa.
Para
a economista, o sistema tributário regressivo é prejudicial para a receita
pública e penaliza os mais pobres.” Mas é preciso derrubar o teto de gastos, ou
não importa o nível de receita”, destaca.
Matar
os pobres
“O
governo tira tributos dos mais pobres e abona os mais ricos. Perdoa dívidas
milionárias, como das igrejas, recurso que poderia servir para o auxílio
emergencial, não esse auxilio miséria”, pontua a moradora da Baixada Santista,
Débora Silva. Fundadora do movimento social Mães de Maio, coletivo de mulheres
que tiveram os filhos assassinados pelas polícias. Ela observa que o valor de
R$ 250,00 não mantém uma família de quatro pessoas nem por uma semana.
“A
gente precisa defender a renda básica do cidadão. Somos a maioria que estamos
na miséria. Os mais ricos não têm piedade dos mais pobres. A gente vê um
ministro, como Paulo Guedes, odiar pobres. Todas as reformas são para nos
eliminar desse país”, sintetiza Débora Silva.
Para
a ativista de Direitos Humanos, o Congresso é recheado de empresários que votam
leis para continuarem com privilégios.
“Nós
mulheres de periferia e favela sabemos o que é miséria. Onde há miséria, há
violência. É o Estado que nos violenta. Quando a gente fala em miséria, a gente
fala da violência dos nossos corpos. Continuamos violentadas”, revela. Ela
informou que o Movimento Mães de Maio exige um fundo para reparação
psicológica, econômica e social para mães e familiares das vítimas do
Estado.
Débora conclama para uma mudança
urgente no país frente ao flagelo de 60 milhões na miséria, 14 milhões de
desempregados e incerteza quanto à imunização. “Todo mundo precisa estourar
suas bolhas de privilégios e dar as mãos para tirar Bolsonaro. Não podemos
mais assistir a miséria, porque a fome tem pressa”.
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