Em home office forçado, empresas conseguem
converter incertezas em engajamento para superar problemas
Acelerar
tendências como a intensificação do uso do home office pelas empresas
brasileiras é um dos desdobramentos do novo coronavírus que, em menos de um
mês, já rendeu aprendizados valiosos ao universo corporativo. O principal deles
é que o engajamento e a motivação dos times podem, inclusive, aumentar no
trabalho remoto, a partir de ações criativas que valorizam uma comunicação
clara com o colaborador e, principalmente, consigam demonstrar cuidado e
respeito à saúde e ao bem-estar de cada profissional da equipe.
Com
60 colaboradores, a PhoneTrack - plataforma de call tracking que mensura
ligações recebidas, auxiliando nas áreas de venda, gestão, atendimento e
marketing da empresa -, resolveu mandar seus funcionários para casa na
tarde do dia 16 de março, praticamente uma semana antes da maioria das empresas
aderirem ao isolamento social para conter a transmissão do coronavírus. O CEO
da startup, Márcio Pacheco, admite que a decisão foi tomada em uma reunião
entre as lideranças de cada setor pela manhã, a fim de priorizar a saúde dos
colaboradores. “Até então, não havia uma prática de trabalho remoto, era um
projeto que seria implantado ao longo de 2020”, explica.
Na
visão dele, o que permitiu fazer com que todos os colaboradores se adaptassem à
mudança repentina para o home office foi o fato de haver um respaldo de
infraestrutura, já que todos tinham o próprio equipamento (notebook), softwares
de acesso remotos e apenas precisaram se deslocar. “Por ser uma empresa de
tecnologia, fazemos uso de softwares que podem ser acessados de qualquer lugar.
Toda a documentação de trabalho já estava em nuvem e o canal de comunicação
também podia ser acessado de qualquer lugar. Isso facilitou bastante a
adaptação”, conta.
Contudo,
a principal solução encontrada pela empresa para construir à distância um
ambiente de trabalho com entrosamento foi priorizar a clareza e a transparência
com os colaboradores desde o primeiro momento. “A comunicação é o ponto
fundamental para que o trabalho dê certo. Como o cenário vem mudando muito,
diariamente, os líderes vão ajustando as prioridades com os times”, explica
Pacheco. Somado a isso, a PhoneTrack colocou o setor de RH voltado para
monitorar a saúde dos colaboradores, não só olhando para o novo coronavírus,
mas para a saúde mental. “Nosso RH está em contato diariamente com o time, para
detectar se alguém está com algum sintoma ou precisa de algum acompanhamento
psicológico”, afirma Pacheco. Logo na primeira semana de home office, o papel
do RH foi de grande valia. A produtividade não foi a mesma e ficou claro que
era um período de adaptação. “Orientamos para que as equipes não se cobrassem
tanto. Agora, já é nítida a diferença. A equipe está fluindo melhor tanto na
comunicação como no alinhamento”, constata.
No
caso da Tecnobank - empresa que desenvolve tecnologias para os segmentos
financeiro e de veículos -, o advento integral do home office serviu para
aprofundar um trabalho iniciado em 2019, que visava levar os mais de 100
colaboradores a trabalhar remotamente, em um programa de rodízio. Por conta da
complexidade do negócio, a Tecnobank já tinha implementado uma série de
políticas de segurança e compliance para que o acesso remoto dos colaboradores
preservasse a integridade das informações dos clientes e da empresa. “Foi
criado um espaço on-line, no qual cada colaborador tem um link de acesso a um
mesmo escritório e cada equipe tem a sua própria sala. Diariamente, cada equipe
se conecta pela manhã, todos conseguem se ver na mesma tela e, se precisar
fazer reunião com outras áreas, agendamos visitas nas salas de outras áreas ou
recebemos visitas na nossa sala. Tornamos o nosso dia a dia de trabalho muito
próximo daquele que temos no escritório, com uma troca em tempo real”, descreve
o vice-presidente de Negócios da empresa, Luís Otávio Matias.
“Como
sempre utilizamos ferramentas de comunicação e de organização de tarefas, já
havia uma cultura de acompanhamento sempre muito tecnológica. Por isso, colocar
todos em home office foi razoavelmente tranquilo e tem funcionado com absoluta
perfeição. Não tivemos nem 1% de queda na operação”, celebra. Assim como a
PhoneTrack, a Tecnobank aderiu ao isolamento no dia 16 de março, antes das
determinações oficiais. “Identificamos junto a muitos estudos o que o mundo
vinha fazendo, e já iniciamos. Quando o Brasil entrou em isolamento social, em
23 de março, nós já estávamos bem adaptados”, conta. Além de baterem as metas
previstas para o mês, a empresa realizou contratações com 100% do processo de
integração feito virtualmente. ”Criamos processos para o período, como reuniões
diárias com todas as lideranças para atualização da situação, incluindo um
grupo de saúde, que se reúne com o comitê gestor todo início de tarde”,
comenta.
Foco
nas pessoas
Outras
medidas adotadas pela Tecnobank em prol da estabilidade dos colaboradores foi
no aspecto financeiro “Mesmo diante das incertezas que o cenário econômico
traz, o pagamento integral da PLR (Participação nos Lucros e Resultados) foi
mantido. Também permitimos que os colaboradores fizessem a distribuição do
crédito dos benefícios de vale-refeição e vale-alimentação de acordo com as necessidades
de cada um, uma vez que, estando mais em casa, se compra mais nos supermercados
que nos restaurantes”, aponta Matias. Na parte da saúde, a Tecnobank subsidiou
as vacinas contra a gripe para todos os colaboradores e seus dependentes
legais, uma vez que sintomas de gripe e de COVID-19 são muito parecidos. “Ao
prevenir contra a gripe, prevenimos sintomas que eventualmente podem encher os
hospitais por qualquer espirro ou tosse”, analisa.
Confraternização
online
O
encerramento do mês de março serviu de oportunidade para as duas empresas
surpreenderem seus colaboradores, com ações criativas de engajamento. Tanto
PhoneTrack como Tecnobank costumavam promover confraternizações antes da
quarentena - e agora, encontraram caminhos de seguir com a tradição. A
estratégia da PhoneTrack para o happy hour mensal, valorizou um negócio local
de pizzas customizadas e, por meio de uma videoconferência, promoveu um
encontro entre todos os colaboradores. “Foi entregue um kit para que cada um
fizesse uma pizza sozinho ou em família. Aí elegemos o melhor pizzaiolo e todos
comeram ao mesmo tempo e juntos em videoconferência, conta Pacheco.
Já a
Tecnobank, na última sexta-feira de março, celebrou os aniversariantes do mês
de forma diferente. “Fizemos virtual, com toda a empresa conectada e todos os
colaboradores cantaram parabéns ao mesmo tempo. Além disso, os aniversariantes
receberam em suas residências um bolo, seguindo todas as medidas de segurança e
sanitárias adequadas. Foi mais uma prova que dá para manter e até aumentar o
engajamento das pessoas à distância”, defende Matias.
O
que vem pela frente
Quanto
ao futuro do trabalho remoto nas empresas, para Tecnobank é um caminho natural.
“O mercado todo foi forçado a evoluir alguns anos em dez dias. Apesar do
cenário ser incerto globalmente, por conta de uma pandemia, ela trouxe esse
ponto positivo de uma adaptação para que, quando a vida voltar ao normal, o
home office faça parte da rotina das empresas”, acredita Cristiano Caporici,
head de Comunicação e Marketing da empresa. “Existia um mindset de que o
trabalho em casa tende a não ser tão produtivo por uma visão ainda da Era
Industrial, em que a presença física era indispensável. Mas, mesmo quem
supostamente não teria o perfil para trabalhar de home office, pode ser treinado,
pode se adaptar e se acostumar com o cenário, como aconteceu forçadamente
agora”, esclarece.
A
PhoneTrack pretende manter um programa de home office em sistema de
escalas.“Estamos fazendo uma pesquisa semanalmente com os nossos colaboradores
e, na última delas, questionamos exatamente de colocar 100% do trabalho remoto
ou algumas vezes por semana, quando a pandemia estiver controlada. A maioria -
cerca de 80% do nosso quadro - respondeu que tem interesse em manter uma vez
por semana”. Segundo Pacheco, os colaboradores afirmam sentir falta da
aproximação com os colegas. “Tanto quem mora sozinho, quanto quem tem família
grande, sente falta dessa aproximação. Por isso pensamos em adotar o home
office com parcimônia”, explica Pacheco.
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