Lei do Senado que
aprova desconto de meia-entrada para doadores de sangue não pode ser
transformada em moeda de troca
O projeto de lei aprovado na Comissão de Assuntos
Sociais do Senado sobre concessão de meia-entrada em eventos culturais e
esportivos para doadores de sangue no país não deve ser transformado em moeda
de troca e sim apenas um incentivo a quem doa sangue de forma altruísta.
Opinião é do hematologista Adelson Alves,
presidente do Hemocentro São Lucas e do Hemomed Instituto de Oncologia e
Hematologia, com expertise de 47 anos no setor de hemoterapia.
Ele lembra os horrores da época dos anos de 1980
quando o doador de sangue vendia seu sangue e recebia valor em dinheiro. “A
camada social da população de baixa renda é a que doava sangue com maior
frequência para receber o dinheiro. Este fato foi uma nódoa na imagem da
medicina transfusional brasileira”, alerta.
Para o hematologista, a doação de sangue não pode
ser motivo de qualquer tipo de barganha. “O sangue deve ser doado de forma
altruísta. Trata-se de um ato de amor, um ato de cidadania dos mais nobres e
legítimos que possa existir”, destaca.
Adelson Alves considera válido o ato do Senado, mas
ressalta que o benefício da meia-entrada precisa ser colocado dentro de um
limite e obedecendo as normas técnicas da doação. “Deve funcionar como um mimo
apenas, e que não se estimule o pagamento novamente ou a doação através de uma
vantagem somente”.
No inverno, o hematologista alerta que as doações
caem. “Fica bem difícil manter os estoques dos hospitais e clínicas que
precisam do sangue para seus pacientes nessa época do ano. O próprio tempo,
gelado e com chuva, acaba retraindo os doadores. Mas os hemocentros precisam de
doadores. E o apelo à doação consciente e altruísta começa nas escolas“,
observa.
Portaria proibiu doação paga
Objetivando resguardar a dignidade da medicina
transfusional e dos próprios doadores, Alves lembra que a Associação Paulista
de Medicina, da qual era diretor, lançou na época uma campanha para proibir a
doação paga e incentivar a doação espontânea em todo país. “Eu e o professor de
hematologia, Celso Campos Guerra, percorremos o Brasil defendendo a proibição
da doação paga e o governador André Franco Montoro baixou uma portaria
proibindo, finalmente, a doação mediante dinheiro. Foi uma vitória da
dignidade”, conta.
Doação no Brasil ainda é baixa
O brasileiro ainda doa muito pouco sangue. Hoje 1,5
% da população doam sangue no país enquanto em países desenvolvidos esse índice
alcança 4,5% da população, portanto, três vezes mais.
Toda iniciativa para incentivar a doação de sangue
é válida. “ Mas precisamos deixar claro que não se faça desse benefício da
meia-entrada condição sine qua non para a doação. E, mais que
incentivos, precisamos conscientizar a população a partir das escolas e por
meio de campanhas educativas”, conclui o hematologista.
Hemomed Instituto de Oncologia e Hematologia
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