O crescimento
econômico observado no passado recente foi fortemente baseado no consumo. O
cenário atual é outro e voltar a crescer de modo sustentado somente será
possível com a expansão dos investimentos, sobretudo em infraestrutura.
O poder
público foi incapaz nos últimos anos de promover ações que pudessem elevar a
taxa de formação de capital para manter o PIB crescendo. Se a demanda avança e
a oferta não acompanha o resultado é inflação, crescimento minguado e até
recessão.
O país não tem
como acelerar seu crescimento por longo tempo em função do baixo nível de
investimento em infraestrutura. O Brasil investe nessa área o equivalente a
1,5% do seu PIB, enquanto a média global é de 3,8%. Para enfrentar esse
gargalo, frente a orçamentos restritivos e a impossibilidade de impor mais
impostos ao contribuinte, a alternativa passa pela criação de um ambiente que estimule
e facilite a celebração de parcerias entre o poder público e as empresas.
A
convergência de interesses legítimos dos setores governamental e privado se faz
necessária para o Brasil implementar os investimentos requeridos para a
expansão e manutenção da infraestrutura. Por conta disso, vale a tese do
economista Vilfredo Pareto, segundo a qual as transações entre dois agentes
econômicos ocorrem quando ambos satisfazem seus interesses. Essa ideia precisa
ser difundida e deve nortear as ações relacionadas ao desenvolvimento
socioeconômico no país.
Nesse sentido
surgem as Parcerias Público-Privadas (PPPs). Esse instrumento teve origem na
Inglaterra da era Thatcher, através das Public
Private Partnerships, e no Brasil surgiu apenas em 2004. As PPPs revelam
enorme potencial para assumir importante papel para os investimentos no país. Para
cumprir essa função é preciso superar vários entraves à sua expansão e
consolidação.
A
inflexibilidade das leis, a instabilidade inflacionária, a fragilidade
financeira do poder público, a tributação desestimuladora e a desconfiança nas
relações entre o governo e o setor privado limitam o uso desse instrumento.
Cumpre
lembrar que, historicamente o setor privado vem investindo em bens públicos e
explorando atividades de produção, distribuição e controle, sob o comando do
governo. Trata-se de uma antiga tradição, não apenas na história brasileira,
mas no mundo inteiro. Na transição do século 19 para o século 20, toda a
infraestrutura pública no Brasil foi feita de forma extremamente bem-sucedida através
de parcerias entre os setores público e privado. As estradas de ferro, todas
construídas e operadas pelo setor privado, são um exemplo disso, assim como as
concessões de água, a distribuição de energia elétrica, o transporte coletivo e
as companhias de bondes de São Paulo e de outras cidades brasileiras.
Até meados do
século 20, era comum que essas parcerias fossem utilizadas para suprir a
incapacidade do setor público em investir tanto quanto a sociedade moderna
demandava. Considerar novamente esse instrumento não seria, portanto, uma
grande novidade, mas um resgate dessa experiência e sua reintrodução como meio
para o financiamento da expansão da infraestrutura. Para isso, é necessário que
se reflita sobre as melhores experiências e as melhores práticas em uso no
mundo – assuntos que foram, em grande parte, deixados de lado no Brasil devido
a preconceitos que devem ser superados.
Marcos Cintra -
doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e
vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.
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