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sábado, 9 de maio de 2026

Por que trocar o prazer das telas de celular pelo prazer da leitura?


Minha desconfiança com o entretenimento instantâneo começou numa manhã de sexta, a caminho do trabalho. A situação trivial, naquele vagão de metrô, teria sido há muito esquecida, salvo por um detalhe curioso: todas as pessoas sentadas, dentro do meu campo visual, tinham a cabeça inclinada e os olhos pregados em seus respectivos celulares. Havia, entre elas, rostos curiosos e concentrados; alguns pareciam divertidos; outros, tristes. O único traço comum a todos era o isolamento social.

Vivenciamos, com o advento dos modernos aparelhos celulares, uma era de conforto, comunicação e acesso à informação sem precedentes. Informação no sentido mais amplo possível: da singela música infantil ao esquema de funcionamento de um artefato bélico nuclear, passando por toda a sorte de conteúdo pensado para capturar a atenção do usuário pelo maior período de tempo possível. Onipresentes na rede, algoritmos eficientes identificam preferências individuais, realimentando o usuário em um interminável carrossel de novidades afins.

É sabido que o cérebro humano tende a repetir ações que ativem o sistema de recompensa baseado nos chamados “hormônios do prazer”, cuja finalidade é o reforço de comportamentos favoráveis à sobrevivência do indivíduo, como o estresse da caça, a concentração do aprendizado ou o esforço físico produtivo. Como não há dilemas de sobrevivência envolvidos na interminável rolagem da telinha, temos, nesse caso, o reforço de um hábito que leva o usuário a consumir horas do seu tempo numa atividade absolutamente estéril, tudo pelas endorfinas “baratas” e instantâneas proporcionadas pelo celular.

Este apego moderno tem substituído hábitos antigos mais saudáveis, como o da leitura. Ler exige, contrariamente ao entretenimento instantâneo, investimento de longo prazo. Adiando a recompensa, comunicamos ao nosso cérebro que coisas boas exigem esforço, investimento e participação. Ler demanda esforço intelectual, disciplina e comprometimento. É treino mental. Treino que abre portas para a satisfação da tarefa cumprida, do trabalho bem-feito, do aprendizado e da realização pessoal.

Se o usuário compulsivo das telas tende à preguiça e à procrastinação – pois está viciado em recompensas imediatas –, o leitor assíduo treina sua mente para as demandas da vida e para a ação.

E aí, de qual lado você quer ficar? 

 

Marcel Bennet - escritor e autor do livro “Pássaro de Fogo – O Talismã de Yelnya”

 

Revolver a terra da memória: quando a literatura desorganiza o arquivo da História

A partir da ideia de anarquivamento, a escritora e crítica literária Myriam Scotti analisa como a literatura aparece como prática de deslocamento, alteridade e insurgência contra o apagamento histórico.

 

Nos últimos anos, a literatura contemporânea tem procurado recontar a História ao se insurgir contra os discursos oficiais que, por anos, moldaram nossa imaginação e criaram a impressão de haver uma história única, o que é um erro e um perigo, como já expôs a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Penso que escrever ficção abre a possibilidade de se reinventar o passado, revelando perspectivas deixadas de lado pelo olhar de quem não tinha a intenção (ou o interesse) de contar uma história completa. Escrever pode se tornar, assim, um gesto de anarquivamento, no sentido de se rebelar contra o que por anos foi tido como a única verdade possível.

 

Nesse movimento, Eliane Marques, no premiado Louças de família, revisita as heranças familiares para tensionar as camadas de silêncio que atravessam a memória e a formação social brasileira, revelando como a violência colonial permanece inscrita nas relações mais íntimas. Ao deslocar o olhar para aquilo que foi naturalizado, a autora expõe fissuras na narrativa histórica e nos convida a perceber o passado como uma matéria ainda em disputa. Já Geni Núñez, em Descolonizando afetos, propõe uma reflexão contundente sobre as formas pelas quais o colonialismo também organizou nossas maneiras de sentir, desejar e nos relacionar. Ao questionar afetos moldados pela lógica da dominação, a autora abre caminho para imaginar outras possibilidades de existência, baseadas na reciprocidade, no cuidado e na escuta. Ao desmontarem versões cristalizadas da História, ambas não apenas recuperam perspectivas silenciadas, mas também nos convocam a repensar o presente. 

 

À vista disso, minha escrita tenta, igualmente, abrir brechas para outras sensibilidades, isto é, para afetos que escapam às normas coloniais e patriarcais e afirmar a potência da narrativa como espaço de reinvenção do passado e, sobretudo, do futuro. Em minha mais recente obra, Sol abrasador prepara solo fértil – contos, não escrevo para repetir fatos, mas como tentativa de dar voz a quem deixamos de escutar ao longo da História, ou seja, para escutar silêncios: da terra, dos corpos, das histórias que insistem em permanecer soterradas. O passado, nas minhas narrativas, não é um arquivo morto; ele é terreno fértil. De modo que penso a escrita como deslocamento. Aliás, não só a escrita, mas sobretudo, a leitura. Afinal, me desloco do meu lugar enquanto escrevo, bem como os leitores se deslocam no momento em que mergulham na história e se permitem a fruição, aquela sensação incrível de quando nos sentimos parte da história, do texto, quando esquecemos o tempo e o espaço presente. 

 

Na verdade, trata-se de um processo de alteridade e compartilhamento que ocorre entre escritor e leitor, mas principalmente um gesto de alteridade com o mundo ao redor, pois depois de uma extenuante escrita ou de uma leitura exigente, já não voltamos os mesmos para o mundo nem para as pessoas com quem convivemos. Reinventar o passado, portanto, não é repetir o que já está nos registros oficiais, mas reescrevê-lo a partir de outras perspectivas. Pois o passado, como nos é contado, nunca nos chega inteiro: é fragmentado, é falho e a literatura está aí para quem se dispuser a reinventá-lo.

 

Escrever não é arquivar o passado, mas desorganizá-lo

 

Essa reflexão se conecta ao conceito de anarquivamento, do crítico literário Márcio Seligmann-Silva. Ele fala em recolecionar as ruínas dos arquivos e reconstruí-las de forma crítica. Para ele, os artistas (ainda que seu artigo se referisse à arte visual) abrem esses arquivos à anarquização, possibilitando que nos apropriemos deles de modo criativo. Pensando isso na literatura, percebo que escrever é também um gesto de anarquivar: não apenas resgatar memórias, mas desorganizá-las, inscrevendo-as de novo para que falem de outro modo. É nesse ponto que a metáfora da terra, tão presente na minha obra, se ilumina. Revolver a terra é revolver o arquivo: abrir camadas, deixar escapar cheiros, lembranças, vozes. É um gesto ao mesmo tempo violento, porque abre feridas; e vital, porque desse mesmo chão germina a possibilidade de vida nova, de se contar outras histórias.

 

Nos contos de Sol abrasador prepara solo fértil, esse gesto aparece como fragmentos de arquivo: pequenas histórias individuais e coletivas, restos de experiências que, ao serem recolhidos, se insurgem contra o apagamento. Escrever, assim, é anarquivar e reinventar; é insurgir contra os discursos oficiais que pretendem encerrar o passado em uma versão única. Minha escrita busca abrir brechas para outras sensibilidades, para afetos que escapam às normas coloniais e patriarcais. Nesse sentido, reinvento o passado porque a vida contemporânea exige outras narrativas. É esse gesto que me move: revolver a terra da memória para que dela brotem vozes, afetos e histórias capazes de reconfigurar o presente. Como Roland Barthes dizia, a língua precisa deixar de estar a serviço de um poder para, acima de tudo, estar a serviço da humanidade. Penso que sou uma escritora teimosa porque tento, por meio da escrita literária, me deslocar dos discursos que me cercam.

 

Myriam Scotti - escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?” (editora Pantograf) foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo. Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos” (editora Patuá). Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria Conto. Em 2024, ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip. Myriam é autora de  “Sol abrasador prepara solo fértil“ (editora orlando, 2025, 136 págs.)


Desenhos animados para crianças: veja lista de indicações por faixa etária

Crédito: Magnific
 Educadores apontam produções adequadas para cada idade e explicam a importância das obras audiovisuais para o desenvolvimento dos pequenos

 

Os desenhos animados fazem parte do cotidiano de muitas famílias e podem ter um papel relevante no desenvolvimento infantil quando escolhidos com critério e consumidos de forma equilibrada. Além de oferecer entretenimento, as produções audiovisuais podem estimular a linguagem, criatividade, empatia e o aprendizado de conceitos básicos, sendo frequentemente utilizadas também como apoio em atividades pedagógicas na educação infantil e nos primeiros anos escolares. 

Contudo, a relação das crianças com telas exige atenção dos adultos. Bebês de até dois anos de idade não devem ter acesso a telas. Para crianças a partir dessa idade, o conteúdo dos desenhos precisa ser adequado à faixa etária, e o tempo de exposição deve ser limitado para evitar impactos negativos na concentração, no sono e no desenvolvimento cognitivo. 

“Nesse período, o desenvolvimento do indivíduo ocorre principalmente por meio da interação direta com pessoas, objetos e ambientes. Dessa forma, os pais não devem deixar a criança assistindo desenhos livremente, como se esse recurso fosse uma espécie de babá eletrônica”, explica Thaís Cadorin, coordenadora pedagógica do colégio Progresso Bilíngue de Vinhedo (SP). Além disso, programas com ritmo muito acelerado ou estímulos excessivos podem dificultar a capacidade de foco das crianças mais novas. “A exposição precoce a telas pode substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento sensorial e social”, diz. 

Thaís ressalta que a presença dos pais durante o consumo de desenhos animados pode transformar o momento de entretenimento em uma oportunidade de aprendizado. “A mediação do adulto é fundamental. Quando os pais assistem junto com a criança e conversam sobre a história, o desenho deixa de ser apenas um passatempo e passa a ter um propósito educativo. Vale perguntar, por exemplo, por que determinado personagem tomou certa decisão, se a atitude dele foi correta ou como a criança se sentiria naquela situação”, explica. 

Segundo a docente, esse diálogo ajuda a desenvolver senso crítico, empatia e compreensão emocional. “Também é interessante relacionar o que aparece na tela com situações do dia a dia, estimulando a criança a refletir sobre valores, convivência e consequências das escolhas”, completa Thaís.
 

CONTEÚDOS INDICADOS PARA CADA FAIXA ETÁRIA
 

Primeira infância: de 2 a 6 anos 

A partir dos dois anos, o contato com desenhos animados pode ser introduzido gradualmente, sempre com supervisão e preferencialmente com a presença de um adulto. Para essa faixa etária, o consumo de desenhos deve ser de até uma hora por dia, intercalada com brincadeiras, leitura e atividades físicas. A recomendação é por conteúdos com ritmo mais calmo, narrativas simples e propostas educativas, que estimulem a linguagem, a curiosidade e habilidades socioemocionais. 

Segundo Jacqueline Cappellano, psicopedagoga e coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri (SP), o ideal é priorizar produções que valorizem a descoberta e a imaginação. “Desenhos com histórias simples, personagens empáticos e situações do cotidiano ajudam a criança a compreender emoções, regras de convivência e a ampliar o vocabulário”, afirma. “A presença de músicas, cores e histórias curtas facilita o aprendizado nessa idade, mas o conteúdo precisa ser equilibrado. Estímulos exagerados podem deixar a criança mais agitada ou dificultar a concentração”, explica. 

Entre os desenhos indicados pela docente da EIA para crianças pequenas, estão:
 

A Turma da Mônica: clássico brasileiro sobre amizade, imaginação e convivência entre crianças. Disponível no YouTube;
 

Caillou: mostra o cotidiano de um menino curioso que aprende sobre emoções, convivência e pequenas descobertas do dia a dia. Disponível no YouTube;
 

Charlie e Lola: a série acompanha o relacionamento entre dois irmãos e mostra, com humor e sensibilidade, situações comuns da infância, como dividir brinquedos e lidar com frustrações. Disponível no Prime Video;
 

Dora, a Aventureira: a personagem Dora vive aventuras interativas nas quais convida o público a ajudar a resolver desafios, estimulando o raciocínio e o aprendizado de palavras em inglês. Disponível no Paramount+;
 

Masha e o Urso: série russa sobre a relação divertida entre uma menina muito curiosa e um urso paciente. Disponível na Netflix;
 

Meu Amigãozão: produção brasileira em que três crianças vivem aventuras com amigos imaginários que ajudam a lidar com as emoções. Disponível no Globoplay;
 

Mundo Bita: produção musical brasileira que utiliza canções e personagens coloridos para ensinar valores, curiosidades e conceitos básicos às crianças. Disponível no YouTube;
 

O Show da Luna: a curiosa Luna transforma perguntas do cotidiano em aventuras científicas, estimulando o interesse por ciência e investigação nas crianças. Disponível no YouTube;
 

Os Backyardigans: cinco amigos vivem aventuras imaginárias cheias de música e criatividade no próprio quintal. Disponível no Prime Video;
 

Os Octonautas: equipe de exploradores marinhos vivem aventuras científicas enquanto aprendem sobre os animais do oceano. Disponível na HBO Max;
 

Peppa Pig: a série acompanha o cotidiano da porquinha Peppa, sua família e amigos, em histórias simples sobre brincadeiras, convivência e descobertas do dia a dia. Disponível na HBO Max;
 

Pocoyo: um menino curioso explora o mundo ao seu redor ao lado dos amigos. Com cenários simples e narrativa interativa, estimula a imaginação e o aprendizado de conceitos básicos. Disponível na Netflix;
 

Sid, o Cientista: série educativa em que um garoto faz perguntas e investiga fenômenos simples, estimulando a curiosidade científica. Disponível no Prime Video;
 

Tainá eos Guardiões da Amazônia: animação brasileira que apresenta aventuras na floresta e ensina sobre a natureza e a preservação ambiental. Disponível no Globoplay.
 

Idade escolar: de 6 a 12 anos
 

Com o início da vida escolar, a criança amplia sua capacidade de compreender narrativas mais estruturadas, acompanhando histórias com maior desenvolvimento de personagens e de temas diversos. Nesse contexto, os desenhos animados podem desempenhar um papel relevante no processo de aprendizagem, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da resolução de problemas, desde que haja intencionalidade na escolha dos conteúdos. 

“Sabemos que o tempo de exposição às telas ainda é um tema em discussão, mas as recomendações apontam para um limite entre uma e duas horas diárias, considerando todos os dispositivos. Do ponto de vista pedagógico, buscamos nos aproximar do tempo mínimo, priorizando a qualidade em vez da quantidade”, destaca Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School (BIS)

Segundo a educadora, mais do que restringir, é essencial orientar as crianças, pois as telas fazem parte da rotina. “Não se trata de proibir, mas de ensinar a criança a fazer boas escolhas e a refletir sobre o que consome.” Nesse sentido, conteúdos que exploram a ciência, a cooperação, a diversidade e os valores sociais tendem a ser especialmente ricos nessa fase do desenvolvimento. “Muitos desenhos conseguem traduzir conceitos complexos em narrativas acessíveis, ampliando o repertório cultural e despertando a curiosidade das crianças. Quando há acompanhamento e diálogo, o que elas assistem deixa de ser apenas entretenimento e se transforma em uma oportunidade significativa de aprendizagem”, acrescenta. 

Entre os desenhos indicados pela docente do Colégio BIS, para crianças maiores, estão:
 

Ask the StoryBots: pequenos personagens ajudam a responder perguntas das crianças sobre o mundo, explorando temas como corpo humano, espaço e tecnologia de forma acessível e divertida. Indicado a partir de 6 anos. Disponível na Netflix;
 

Avatar, A Lenda de Aang: acompanha um jovem responsável por restaurar o equilíbrio entre nações, abordando ética, responsabilidade e amizade. Indicado a partir de 8 anos. Disponível na Netflix;
 

Ben 10: um garoto se transforma em diferentes criaturas para enfrentar desafios, com foco em ação e estratégia. Indicado a partir dos 7 anos, com equilíbrio. Disponível no YouTube;
 

Carmen Sandiego: série investigativa que explora a geografia, a cultura e a história do mundo. Indicado a partir de 8 anos. Disponível na Netflix;
 

DuckTales: aventuras leves com foco em família, curiosidade e descobertas pelo mundo. Indicado a partir de 6 anos. Disponível no Disney+;
 

Hilda: acompanha uma menina que explora um mundo repleto de criaturas e descobertas, trabalhando a coragem, a empatia e a abertura ao diferente. Indicado a partir de 7/8 anos. Disponível na Netflix;
 

Jimmy Neutron: um menino cientista resolve problemas com suas invenções, estimulando o raciocínio lógico e a curiosidade. Indicado a partir de 6 anos. Disponível no Paramount+;
 

O Laboratório de Dexter: um garoto-gênio cria invenções em seu laboratório secreto, em histórias que unem humor e ciência. Indicado a partir de 6 anos. Disponível na HBO Max;
 

O Príncipe Dragão: aborda conflitos entre reinos, empatia e convivência entre culturas. Narrativa mais complexa. Indicado a partir de 9 anos. Disponível na Netflix;
 

Phineas e Ferb: dois irmãos criam projetos criativos durante as férias, estimulando imaginação, curiosidade e resolução de problemas. Indicado a partir de 6 anos. Disponível no Disney+;
 

Pokémon: aventuras com batalhas entre criaturas, destacando amizade, estratégia e perseverança. Indicado a partir dos 6 anos, com mediação. Disponível na Netflix;
 

Scooby-Doo: um grupo de amigos resolve mistérios, incentivando curiosidade, investigação e trabalho em equipe. Indicado a partir de 6 anos. Disponível no YouTube;
 

Wild Kratts: dois irmãos exploram o mundo animal em aventuras baseadas na ciência, promovendo a consciência ambiental. Indicado a partir de 6/7 anos. Disponível na Prime Video.
 

Proibidos para crianças 

Nem todo desenho animado é apropriado para o público infantil. Algumas produções apresentam violência excessiva, linguagem inadequada, humor adulto ou temas complexos, como sexualidade ou conflitos psicológicos intensos, que podem gerar confusão ou medo nas crianças. Por abordarem assuntos que exigem maior maturidade emocional e senso crítico, devem ser consumidos apenas por adolescentes mais velhos e adultos. 

Além disso, Renata Alonso, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), alerta para o crescimento de conteúdos falsos ou inadequados disfarçados de produções infantis, especialmente em plataformas abertas da internet. “Os adultos precisam supervisionar o que as crianças assistem, principalmente na internet. Nem tudo que parece infantil realmente é apropriado”, diz. 

Entre os títulos que devem ser evitados por menores de 12 anos, a educadora cita:
 

Big Mouth: animação voltada para adolescentes mais velhos e adultos que aborda puberdade e sexualidade de forma explícita;
 

Family Guy: comédia animada que utiliza humor politicamente incorreto, referências sexuais e piadas voltadas para adultos;
 

Rick and Morty: a série acompanha aventuras de ficção científica com humor ácido, violência e temas existenciais complexos;
 

South Park: série satírica conhecida por humor extremamente ácido, linguagem ofensiva e críticas sociais direcionadas ao público adulto.
 

“A curadoria dos pais continua sendo essencial. O desenho animado pode ser um aliado no desenvolvimento infantil, mas apenas quando o conteúdo e o tempo de consumo são adequados”, conclui Renata.
  


Beatriz Martins Perpetuo - educadora com mais de 30 anos de atuação na educação, sendo 18 deles em funções de liderança pedagógica, formando equipes, projetos e — principalmente — pessoas. Possui licenciatura plena pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduação pelo Instituto Singularidades. Atualmente atua como coordenadora pedagógica no Colégio BIS.

Jacqueline Cappellano - pedagoga, pós-graduada em Bilinguismo e Psicopedagogia coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville. É uma grande entusiasta da Educação Bilíngue e fascinada pelo universo da educação infantil. Enxerga no intercâmbio entre ideias e culturas, um caminho para a paz entre os povos.

Renata Alonso - formada em Pedagogia e pós-graduada em Psicomotricidade, com mais de 15 anos de experiência em educação bilíngue. Sua grande paixão são as crianças bem pequenas, e seus estudos são voltados à primeira infância, crianças de 0 a 3 anos. Com um olhar atento ao desenvolvimento integral dos pequenos, Renata acredita que essa fase da vida é crucial para a formação de indivíduos seguros, criativos e capazes de se expressar com confiança. Seu trabalho visa proporcionar um ambiente acolhedor e estimulante para o aprendizado, sempre com foco no cuidado e no afeto.

Thaís Cadorin - possui mais de 25 anos de experiência na área educacional, com sólida atuação na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Graduada em Pedagogia e pós-graduada em Educação Infantil e Alfabetização, construiu sua trajetória profissional pautada no compromisso com a excelência no ensino e no desenvolvimento integral dos alunos. Integra a equipe do Colégio Progresso Vinhedo há 15 anos, onde, desde 2019, exerce a função de coordenadora dos anos iniciais do Ensino Fundamental, atuando no acompanhamento pedagógico, na orientação docente e na implementação de práticas educacionais alinhadas à aprendizagem dos alunos.
  


International Schools Partnership - ISP
Para mais informações, acesse o site.

 


A pressão social sobre mulheres que não querem ser mães e seus impactos na saúde mental

 

A decisão de não ter filhos ainda provoca estranhamento em muitos contextos sociais, especialmente quando essa decisão parte de mulheres. Em uma sociedade que historicamente associa a maternidade à identidade feminina, escolher um caminho diferente pode significar enfrentar julgamentos, questionamentos e até tentativas de invalidação dessa escolha. Mais do que uma decisão individual, o tema revela padrões culturais profundamente enraizados sobre o que significa ser mulher. 

A maternidade, por muito tempo, foi tratada como um destino natural e quase obrigatório, sustentado por fatores históricos, religiosos e sociais que valorizam o papel feminino como cuidadora. Quando uma mulher opta por não seguir esse caminho, ela desafia esse modelo estabelecido, o que frequentemente gera reações negativas. Em muitos casos, a ausência do desejo de ser mãe é interpretada como egoísmo, imaturidade ou até falha emocional, evidenciando mais sobre os valores da sociedade do que sobre a escolha em si. 

Esse cenário pode trazer impactos significativos para a saúde mental. A pressão constante leva, muitas vezes, a sentimentos de inadequação, culpa e isolamento. Não é incomum que mulheres se vejam obrigadas a justificar repetidamente uma decisão que deveria ser íntima. Em situações mais intensas, esse desgaste emocional pode evoluir para quadros de ansiedade, estresse crônico e baixa autoestima. Há ainda o risco de internalização desse julgamento, gerando dúvidas persistentes sobre uma escolha que, em essência, é pessoal. 

As expectativas de gênero reforçam esse processo ao longo da vida. Desde a infância, muitas mulheres são expostas a discursos e representações que colocam a maternidade como um marco central da vida adulta. Esse “roteiro” social se intensifica com o tempo, especialmente em fases em que surgem cobranças relacionadas a casamento e filhos. Quando esse caminho não é seguido, a decisão tende a ser questionada ou desvalorizada, criando um ambiente de pressão contínua. 

Diferenciar um desejo genuíno de não ser mãe de uma decisão influenciada por medo ou contexto externo exige reflexão. Em geral, escolhas alinhadas aos próprios valores tendem a se manter consistentes ao longo do tempo. Já decisões baseadas em insegurança podem vir acompanhadas de ambivalência e sofrimento. O ponto central não está em rotular a escolha, mas em compreender sua origem e garantir que ela seja feita com autonomia e consciência. 

Diante desse cenário, algumas estratégias podem ajudar a preservar o bem-estar emocional. Estabelecer limites claros, especialmente em relação a conversas invasivas, é um passo importante. Construir uma rede de apoio também funciona como fator de proteção, assim como a psicoterapia, que pode auxiliar no fortalecimento da autonomia e na elaboração dos sentimentos gerados pela pressão social. Trabalhar a validação interna, reconhecendo a legitimidade da própria decisão independentemente da aprovação externa, é um dos pilares para uma relação mais saudável consigo mesma. 

É fundamental compreender que não querer ser mãe não é um problema a ser corrigido, mas uma possibilidade legítima de trajetória de vida. A saúde mental está menos relacionada ao cumprimento de expectativas sociais e mais à capacidade de viver de forma coerente com os próprios valores. Ampliar a forma como entendemos o papel da mulher na sociedade é um passo essencial para reduzir estigmas e garantir que escolhas individuais sejam respeitadas. No fim, o debate sobre maternidade não deve ser sobre imposição, mas sobre liberdade. E promover essa liberdade é também uma forma de cuidar da saúde mental coletiva, criando espaços mais diversos, acolhedores e compatíveis com a pluralidade das experiências humanas. 

 

Guido Boabaid May - Médico psiquiatra há mais de 32 anos, com mais de 110 mil consultas realizadas, mais de 1.100 pacientes em tratamento guiado com teste farmacogenético e pioneiro da farmacogenética no Brasil. Guido também é fundador e CEO da GnTech, empresa de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil, com mais de 25 mil testes farmacogenéticos realizados sob sua liderança, a empresa é detentora do maior banco de dados de farmacogenética sobre a população brasileira. Boabaid também atua como médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e é autor do livro "Onde Foi Parar Minha Alegria?”, publicado em 2025.


Quando o dinheiro vira ansiedade: o custo invisível da desorganização financeira


A relação dos brasileiros com o dinheiro está longe de ser apenas matemática. Ela é emocional, comportamental e, muitas vezes, silenciosa. Não por acaso, a desorganização da vida financeira tem se consolidado como uma das principais fontes de ansiedade - um problema que começa nas planilhas, mas rapidamente atravessa a saúde mental. 

Dados recentes levantados pelo Velotax mostram que o medo mais recorrente quando o assunto é dinheiro não está necessariamente ligado ao quanto se ganha, mas à sensação de falta de controle: não ter ou não saber administrar. Isso ajuda a explicar por que tantos brasileiros convivem com dívidas que são “empurradas com a barriga” - sejam contas básicas, aluguel, parcelas de cartão ou financiamentos. 

O retrato é ainda mais delicado quando olhamos para o tempo de sustentação desse cenário: enquanto 35,8% das pessoas conseguem permanecer nessa situação por mais de três meses, 35,6% não conseguem passar sequer um mês. Ou seja, há uma tensão constante, que oscila entre o limite e o colapso. 

Essa pressão contínua não é neutra. Pelo contrário, ela se acumula e se transforma. 

Do ponto de vista da psicologia, um dos mecanismos que mantém as pessoas presas nesse ciclo de ansiedade financeira é a construção de uma narrativa interna de incapacidade. Quando alguém passa a acreditar que “não sabe lidar com dinheiro”, que “sempre erra” ou que “não tem saída”, cria-se um terreno fértil para a paralisia. A preocupação deixa de ser pontual e passa a ser estrutural. 

E há um ponto de virada importante: quando essa preocupação começa a gerar prejuízos reais na vida da pessoa. Isso pode aparecer no afastamento de amigos e da família, na perda de interesse em resolver o problema, na sensação de que não há solução possível. Nesse estágio, não estamos mais falando apenas de finanças, mas também de saúde mental. 

Os dados reforçam essa dimensão emocional. Na pesquisa do Velotax, entre os mais de 3000 entrevistados, 32,2% apontam que o maior peso da situação financeira vem de decisões erradas no passado, enquanto 25,2% relacionam ao alto custo de vida. Independentemente da origem, o impacto é profundo: 97,6% afirmam que só se sentirão aliviados quando quitarem suas dívidas. 

O pensamento de que “só vou ficar bem quando tudo estiver resolvido” pode ser perigoso. Ele desloca o bem-estar para um futuro incerto e, ao mesmo tempo, intensifica a sensação de aprisionamento no presente. 

Outro dado que chama atenção é o fato de que 56,9% das pessoas lidam com seus problemas financeiros de forma velada. Ou seja, não compartilham, não pedem ajuda, não dividem a carga. O silêncio, nesse contexto, não protege - ele isola. 

Paradoxalmente, há um esforço de mudança: a maioria dos entrevistados consome conteúdos de educação financeira, seja com frequência (26,8%) ou ocasionalmente (39,7%), principalmente no YouTube e no Instagram. Isso indica que existe interesse e disposição para aprender, mas muitas vezes, falta suporte prático e emocional para transformar conhecimento em ação.
 

É aqui que a conversa precisa amadurecer. 

Organizar a vida financeira não é apenas uma questão de disciplina ou informação. É também sobre lidar com emoções como culpa, vergonha e medo. É sobre reconhecer que o dinheiro ocupa um papel importante na nossa sensação de segurança, mas não pode ser o único pilar que sustenta o bem-estar. 

Na prática, isso passa também por criar caminhos possíveis de recomeço. Durante a estruturação do Velotax, uma das preocupações foi justamente ampliar o acesso a soluções para quem, muitas vezes, é deixado de fora do sistema tradicional — inclusive pessoas negativadas, que encontram mais barreiras do que alternativas. Iniciativas que permitem renegociação de dívidas com descontos relevantes, que podem chegar a até 90%, ou que oferecem formas mais acessíveis de crédito, ajudam a transformar um cenário de bloqueio em possibilidade de retomada. Plataformas como o próprio Serasa também cumprem um papel importante ao ampliar essas alternativas no mercado. 

Mais do que resolver tudo de uma vez, é fundamental começar de algum lugar. Pequenos avanços já são capazes de reduzir a sensação de descontrole e devolver ao indivíduo uma percepção de autonomia sobre a própria vida financeira. 

Em momentos de instabilidade financeira, fortalecer outros aspectos da vida é essencial. Manter vínculos sociais, cultivar uma rede de apoio e encontrar formas acessíveis de lazer ajudam a evitar que o problema financeiro se torne o centro absoluto da existência. Afinal, ele é um problema, não a definição de uma vida. 

Isso não significa ignorar a realidade. Pelo contrário: enfrentar a situação financeira é necessário e, muitas vezes, desconfortável. Mas esse enfrentamento precisa vir acompanhado de estratégia e, sobretudo, de humanidade. A vida financeira, assim como a própria vida, é cíclica. Haverá momentos de aperto e de alívio. O que não pode acontecer é transformar uma fase difícil em uma sentença permanente. 

No fim das contas, organizar o dinheiro é também reorganizar a forma como nos relacionamos com ele - e com nós mesmos. Porque, quando a conta não fecha, não é só o saldo que fica negativo. A saúde mental também entra no vermelho.

 

Victor Savioli - Cofundador do Velotax. Especialista em crédito e tecnologia com anos de experiência na área de risco de crédito do Banco de Investimento J.P. Morgan. 

Carol Melhem - psicóloga clínica. Formada em psicologia em 2002 pela UNIP e pós-graduada em Terapia Cognitiva Comportamental pelo CTC Veda, atende adultos e adolescentes. Também é especialista também em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) pelo Hospital das Clínicas.

 

Dia das Mães: como as armaduras emocionais impactam a maternidade e o que fazer para viver esse papel com mais leveza

Especialista em autoconhecimento explica como padrões inconscientes influenciam a forma de maternar e aponta caminhos para relações mais saudáveis


 

O Dia das Mães, celebrado no segundo domingo de maio, costuma ser marcado por muitas homenagens e demonstrações de carinho. Mas, para muitas mulheres, a data também desperta sentimentos mais complexos como cobrança, culpa, exaustão e a sensação constante de não fazer o suficiente.

 

Para Renata Fornari, especialista em autoconhecimento e autoamor, esse cenário tem uma raiz profunda: as chamadas armaduras emocionais, mecanismos de defesa construídos desde a infância e que seguem influenciando a maneira como cada mulher vive a maternidade. 

“As armaduras emocionais foram essenciais em algum momento da vida, porque ajudaram essa mulher a se proteger. O problema é quando ela continua vivendo a partir dessas estruturas sem perceber. Isso afeta diretamente a forma como ela se posiciona como mãe”, explica. 

Segundo Renata, essas armaduras aparecem de diferentes formas na rotina. A Controladora, que tenta dar conta de tudo e sente dificuldade em delegar; a Invisível, que se anula para evitar conflitos ou rejeição; a Sabotadora, que se cobra tanto que acaba se sentindo insuficiente ou desistindo emocionalmente; e a Autossuficiente, que acredita que precisa ser forte o tempo todo e não se permite pedir ajuda. 

“Muitas mulheres entram na maternidade tentando provar valor o tempo inteiro. Querem dar conta de tudo, não falhar, não errar. Só que isso não sustenta. Essa dinâmica cansa, desconecta e, com o tempo, impacta a relação com os filhos”, afirma. 

Outro ponto de atenção é a dificuldade em lidar com as próprias emoções. “Quando a mulher opera muito a partir da armadura da Autossuficiente, por exemplo, ela pode ter dificuldade de acessar vulnerabilidade, demonstrar fragilidade ou até receber apoio. Isso acaba criando uma barreira no vínculo”. 

Renata reforça que a maternidade não cria essas questões, ela intensifica o que já existe. “O filho não ativa algo que não está ali. Ele evidencia. Por isso, muitas mulheres se surpreendem com reações ou gatilhos que não conseguiam enxergar antes”. 

Apesar dos desafios, a especialista destaca que esse também pode ser um dos momentos mais potentes de transformação. “A maternidade abre uma oportunidade real de olhar para dentro e revisar padrões. Quando essa mulher começa a se perceber, ela deixa de reagir no automático e passa a escolher como quer agir”. 

Entre os primeiros passos, Renata aponta a importância de reconhecer esses comportamentos sem julgamento. “Não adianta se culpar por sentir. O caminho é se observar com honestidade. Entender de onde vem essa necessidade de controle, esse medo de rejeição ou essa sensação constante de insuficiência”. 

Ela também reforça a necessidade de incluir a si mesma na própria rotina de cuidado. “Existe uma ideia de que ser uma boa mãe é se colocar sempre em último lugar. Mas uma mulher exausta e sobrecarregada não consegue estar presente de verdade. Cuidar de si é responsabilidade emocional, e não egoísmo como muitas pensam”. 

Para Renata, uma maternidade mais leve não está ligada ao desempenho, mas à consciência. “Quando essa mulher começa a se relacionar melhor com ela mesma, ela naturalmente constrói um ambiente mais seguro e mais acolhedor para o filho”. 

Neste Dia das Mães, o convite, segundo a especialista, é olhar com mais profundidade para dentro e questionar os padrões que ainda conduzem suas escolhas. “A melhor versão de uma mãe nasce de uma mulher que se conhece, se acolhe e não precisa mais viver presa a padrões que não fazem mais sentido”, finaliza.


Quem sofre mais quando o amor termina pela morte? O que a ciência revela e o que ainda evitamos encarar

 

Há temas que o Direito encontra todos os dias, mas que a sociedade prefere tratar em silêncio. A morte de um dos cônjuges é um deles. Costumamos falar do luto como uma experiência universal, quase homogênea, como se todos percorressem o mesmo caminho emocional. A ciência, porém, começa a desmontar essa narrativa. Pesquisas robustas conduzidas nos Estados Unidos, no Japão e em outros países vêm demonstrando que homens e mulheres não apenas vivenciam a perda de forma distinta, como também sofrem impactos profundamente diferentes na saúde, na expectativa de vida e na própria capacidade de reorganizar a existência. O amor, ao que parece, deixa marcas desiguais quando parte.

Um dos conceitos mais estudados na área da saúde pública é o chamado “widowhood effect”, ou “efeito da viuvez”. Trata-se de um fenômeno estatisticamente comprovado: a perda do cônjuge aumenta o risco de morte de quem fica. Um estudo clássico publicado no Journal of Public Health mostrou que, nos primeiros três meses após a perda, o risco de morte pode aumentar entre 30% e 90%, dependendo da faixa etária e do contexto social. Mas o dado que chama mais atenção — e que raramente aparece nas conversas de bar — é outro: esse aumento é significativamente maior entre homens do que entre mulheres. Em alguns recortes, homens viúvos chegam a apresentar um risco de mortalidade até duas vezes superior ao de mulheres na mesma condição.

No Japão, país conhecido por sua tradição metodológica em estudos populacionais, o Japan Collaborative Cohort Study, que acompanhou dezenas de milhares de pessoas ao longo de anos, chegou a uma conclusão direta e desconfortável: a viuvez está associada ao aumento de mortalidade em homens, mas não apresenta o mesmo impacto entre mulheres. Em outras palavras, perder o cônjuge pode ser, do ponto de vista estatístico, mais letal para eles do que para elas. Estudos mais recentes, publicados em bases como a ScienceDirect, reforçam essa diferença ao apontar que homens viúvos têm maior incidência de depressão, declínio cognitivo e até demência, enquanto mulheres demonstram maior capacidade de adaptação ao novo cenário de vida.

Nos Estados Unidos, análises conduzidas com base em grandes bancos de dados longitudinais, como o Health and Retirement Study (HRS), vêm reiterando esse padrão. Um levantamento recente coordenado por pesquisadores da Boston University indicou que homens viúvos apresentam aumento significativo no risco de mortalidade e piora acentuada no bem-estar psicológico, ao passo que mulheres, embora também afetadas pela perda, não registram aumento proporcional nos níveis de depressão e, em alguns casos, relatam até melhora na satisfação com a vida ao longo do tempo. Sim, você leu corretamente: em determinados contextos, a viuvez não apenas não destrói, como pode abrir espaço para uma reorganização emocional mais estável entre mulheres.

A pergunta que naturalmente surge é: por quê? A resposta não está em uma suposta “força feminina” mística, nem em uma fragilidade masculina caricata. Está, antes, na forma como construímos socialmente o casamento. Diversos estudos em psicologia social apontam que homens tendem a concentrar na relação conjugal a maior parte de seu suporte emocional, enquanto mulheres, historicamente, mantêm redes sociais mais amplas e diversificadas — amigas, familiares, vínculos comunitários. Quando o casamento termina pela morte, muitos homens perdem não apenas a companheira, mas também sua principal (às vezes única) fonte de escuta, organização cotidiana e afeto estruturante. Já as mulheres, embora sofram profundamente, costumam ter onde se apoiar. É uma diferença silenciosa, mas brutal.

Há também um componente prático que não pode ser ignorado, e aqui o humor ajuda a digerir a dureza dos dados. Em muitos casamentos, especialmente nas gerações mais tradicionais, a mulher não apenas ama: ela organiza, agenda, cuida, lembra, sustenta a logística invisível da vida doméstica. Quando ela parte, alguns homens descobrem, da forma mais abrupta possível, que o amor também incluía saber onde está o documento do plano de saúde, como funciona o pagamento das contas e até qual é o horário da consulta médica. Pode parecer anedótico, mas a literatura científica mostra que essa desorganização súbita contribui para o aumento de doenças, negligência com a saúde e, em última análise, maior mortalidade.

Do ponto de vista jurídico, esse fenômeno ainda é pouco explorado. O Direito das Famílias lida com a morte de forma essencialmente patrimonial: inventário, partilha, transmissão de bens. Mas a ciência sugere que há algo mais, algo que escapa às planilhas e às escrituras. A vulnerabilidade emocional e física do cônjuge sobrevivente, especialmente quando homem, é um dado real, mensurável e relevante, que poderia — e talvez devesse — influenciar políticas públicas, estratégias de assistência e até a forma como pensamos a proteção familiar no pós-ruptura involuntária.

No fim das contas, a grande provocação que esses estudos nos deixam é desconfortável, mas necessária: o casamento não significa a mesma coisa para homens e mulheres e, por isso, sua ausência também não produz os mesmos efeitos. Se, durante a vida, muitos homens parecem mais “independentes”, a ciência sugere que essa independência pode ser, em parte, uma ilusão sustentada pela presença silenciosa da parceira. Quando ela se vai, o que sobra não é apenas saudade, é um vazio estrutural.

Talvez seja hora de começarmos a falar disso com mais honestidade. Não para competir sobre quem sofre mais, afinal o luto não é um campeonato. Mas para compreender que as relações que construímos moldam profundamente nossa forma de existir no mundo. E, ao que tudo indica, quando o amor termina pela morte, ele não deixa apenas lembranças. Deixa também estatísticas. E elas contam uma história que ainda estamos aprendendo a ouvir.

  

Marcelo Santoro Almeida - professor de Direito de Família da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio


Presenteísmo: o fenômeno silencioso custa bilhões às empresas brasileiras

 

Até um terço da força de trabalho pode estar operando com desempenho reduzido. É o fenômeno silencioso vem comprometendo a produtividade das empresas brasileiras — e ele não aparece em atestados médicos. Trata-se do presenteísmo, condição em que o profissional permanece fisicamente no trabalho, mas já não consegue desempenhar com sua plena capacidade cognitiva e emocional. “É o trabalhador que continua entregando, mas entrega menos. Decide, mas decide pior. Lidera, mas já está desgastado. Como ele ainda está presente, esse problema é invisível — e, muitas vezes, normalizado dentro das empresas”, explica o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista saúde mental no trabalho. 

Os números mostram que o impacto está longe de ser pequeno. Estimativas do IBEF-SP apontam que o presenteísmo custa mais de R$ 200 bilhões por ano à economia brasileira. Dentro das empresas, o índice médio chega a 31%, o que significa que quase um terço da folha de pagamento pode estar sendo destinado a uma performance comprometida.

 

O adoecimento que começa antes do afastamento 

Por trás desses números está um processo progressivo de desgaste emocional que antecede o colapso. Ansiedade constante, exaustão, dificuldade de concentração, irritabilidade e perda de prazer são alguns dos sinais mais comuns — frequentemente ignorados ou tratados como parte da rotina. 

“Antes do afastamento formal, há meses — às vezes anos — de queda silenciosa de desempenho. É o líder que perde a tolerância, o gestor que não dorme, o executivo que toma decisões com a cognição comprometida. É o adoecimento disfarçado de produtividade”, afirma Dr. Daniel. 

E os dados recentes reforçam o cenário: em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais — o maior número da série histórica, com crescimento expressivo dos casos de ansiedade na última década. Para o especialista, no entanto, esses números representam apenas a “ponta do iceberg”.

 

Estudos comprovam o prejuízo 

No cenário internacional, um estudo publicado no Journal of Affective Disorders coloca o Brasil como o segundo país com maior prejuízo causado por presenteísmo associado à depressão, ultrapassando US$ 63 bilhões anuais — atrás apenas dos Estados Unidos. 

Já a Harvard Business Review indica que, em ambientes de alta exigência cognitiva e emocional, o custo do presenteísmo pode ser até três vezes maior do que o do absenteísmo.

 

Saúde mental deixa de ser benefício e vira obrigação legal 

Com a entrada em vigor da atualização da NR-1, que inclui os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos, a saúde mental passa a ser reconhecida como risco ocupacional — com responsabilidade direta das empresas. 

“Não se trata mais de uma pauta de bem-estar. É uma questão de gestão de risco. Ignorar o presenteísmo é ignorar um fator que compromete produtividade, segurança e tomada de decisão”, destaca o psiquiatra.

Para Dr. Daniel, um dos principais equívocos das organizações é tratar o presenteísmo como falha individual, e não como reflexo de uma estrutura de trabalho disfuncional.

“As empresas que não revisarem suas práticas vão pagar duas vezes: na produtividade que se perde todos os dias e no passivo trabalhista que se acumula em silêncio. Não falta gente trabalhando. Falta gente inteira”, conclui. 

 

Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida. Link

 

A vida nos impõe dureza

 Freepik

Como observadora atenta da alma humana, percebi que a vida, muitas vezes, nos impõe uma arquitetura de sobrevivência muito similar a de uma noz. Existe uma rigidez necessária, uma carapaça que desenvolvemos para suportar as pressões externas, os silenciamentos e as intempéries de uma realidade que, historicamente, exige das mulheres uma força desproporcional.  

No cenário atual, onde os índices de violência contra a mulher ainda nos estarrecem, essa proteção emocional não é uma escolha estética; é um mecanismo de defesa vital contra o desamparo e a agressão. 

Precisamos falar abertamente sobre esse "endurecimento". Ele nasce dos enfrentamentos diários, das pequenas e grandes lutas que moldam quem somos. Em um mundo que ainda tenta ditar nossos passos e limitar nossos desejos, a resiliência torna-se nossa pele mais dura.  

Muitas vezes, essa proteção é vista como frieza ou distanciamento, mas, na verdade, é o resultado de uma sensibilidade que precisou se transmutar em coragem para não ser estilhaçada. O endurecimento é a resposta instintiva ao medo e à necessidade de preservação da própria identidade. 

Entretanto, o que a analogia da noz nos ensina de mais valioso é que a casca, por mais resistente que seja, não define o fruto; ela apenas o guarda. Existe um perigo real em nos confundirmos com a nossa armadura, esquecendo que o propósito da proteção é permitir que a semente interna permaneça intacta, viva e potente.  

A violência e o medo tentam nos esvaziar, mas a nossa natureza é feita de algo muito mais profundo: uma capacidade inesgotável de regeneração e recomeço. A esperança reside justamente no gesto de compreender quando essa proteção cumpriu seu papel e permitir-se, então, romper as limitações.  

Mesmo em tempos áridos, onde as notícias parecem sufocar nossa liberdade, vejo mulheres transformando dor em autonomia e luto em luta. A beleza da existência feminina está nessa dialética entre a resistência da casca e a delicadeza do miolo. Somos capazes de endurecer para sobreviver, mas guardamos a doçura e a força necessárias para florescer novamente assim que encontramos solo seguro. 

Não estamos sozinhas nessa jornada de "quebrar cascas". A união e o reconhecimento mútuo dessas batalhas silenciosas são o que fortalece nossa estrutura. Que possamos honrar nossa resiliência sem nunca perder de vista a liberdade que existe do outro lado da barreira.  

A vida pode ser dura, mas a capacidade de criar formas de existir, a partir de cada desafio superado, é a prova definitiva de que a luz sempre encontrará uma fresta para atravessar o que quer que tente nos fechar. 

 

 

Maria de Lourdes Rabelo Cruz , escritora, psicanalista, autora do livro Noz Mulheres (LC Books

 

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