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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Proibição por medida provisória tira as plataformas do ar, mas não alcança quem já criou o hábito; psicóloga lista sinais que pais e responsáveis devem observar agora

 

As plataformas de apostas online saem do ar na segunda-feira (6 de outubro), após a medida provisória assinada em 25 de setembro que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de cota fixa e jogos online no país. Para os adolescentes, a proibição já existia: a Lei 14.790/2023 veta a participação de menores de 18 anos. Mesmo assim, mais de 1 milhão de jovens de 14 a 18 anos já apostaram no Brasil, segundo o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. 

O estudo mostra que 10,9% dos jovens nessa faixa etária já apostaram e que 2,2% desse grupo já apresenta sinais de comportamento problemático ligado ao hábito. O que mais leva os adolescentes ao primeiro contato com as apostas é a curiosidade, e não a expectativa de lucro. Na justificativa da medida provisória, o governo federal cita aumento de 140% nos atendimentos do SUS relacionados a jogo patológico e problemas com apostas entre 2018 e 2025. 

Entre os motivos declarados, a curiosidade lidera com 37% das menções, seguida da influência do grupo de amigos, com 28%. A expectativa de ganhar dinheiro aparece só em terceiro lugar, citada por 25% dos jovens, o que ajuda a explicar por que o primeiro contato com o jogo costuma vir pela porta social, e não pela promessa financeira. 

Para Daiane Fernandes Viana, psicóloga disponível na plataforma Doctoralia, esse padrão ganha peso agora, com a saída das plataformas do ar, e reforça a importância de os pais e responsáveis observarem mudanças de comportamento e manterem o diálogo aberto com os filhos. 

“Muitas vezes, o contato com as apostas começa como uma experiência de curiosidade ou como uma forma de acompanhar o grupo de amigos. O problema pode surgir quando esse comportamento passa a ocupar um espaço cada vez maior na rotina e começa a gerar prejuízos”, explica. 

A saída dos sites autorizados não elimina o acesso. Plataformas clandestinas operam fora da regulação e não têm obrigação de verificar a idade de quem aposta. O governo anunciou que vai intensificar o combate ao mercado ilegal, com bloqueio de domínios, remoção de aplicativos e rastreamento de recursos. Além da fiscalização, o olhar atento da família pode ser decisivo para identificar cedo mudanças que mereçam acompanhamento.
 

O que muda quando o acesso é interrompido?

Para quem já desenvolveu uma relação problemática com o jogo, a interrupção repentina pode vir acompanhada de desconforto emocional. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, inclui entre os critérios do transtorno do jogo a inquietação ou irritabilidade ao tentar reduzir ou parar de jogar. 

“Quando o acesso é cortado de uma hora para outra, o adolescente que já tinha o hábito de jogar pode apresentar sintomas claros de abstinência, como irritabilidade intensa, ansiedade e uma busca compulsiva por caminhos alternativos para continuar apostando. Vale observar se aparecem aplicativos desconhecidos no celular, pedidos de dinheiro sem explicação ou o uso de contas e cartões de outras pessoas”, afirma a psicóloga.
 

Quais sinais podem indicar uma relação problemática com as apostas? 


Preocupação constante com o jogo: o adolescente passa a falar, pesquisar ou planejar apostas com frequência, inclusive fora dos momentos em que está jogando. Conversas sobre futebol, por exemplo, podem começar a estar frequentemente associadas a resultados e apostas.
 

Aumento do tempo ou dos valores apostados: o adolescente passa a dedicar cada vez mais tempo às apostas ou aumenta os valores envolvidos em busca da mesma sensação de emoção.
 

Queda no rendimento e isolamento: piora no desempenho escolar, abandono de atividades que antes despertavam interesse e redução do convívio presencial podem ser sinais de alerta quando aparecem associados a outras mudanças.
 

Sigilo ou mentiras relacionadas a dinheiro: esconder notificações no celular, omitir o uso de aplicativos, pedir dinheiro emprestado sem explicar claramente o motivo, usar cartão, conta ou dados de outras pessoas, inclusive dos próprios pais, ou negar que esteja apostando podem indicar que existe algo a ser investigado.
 

Mudanças de humor ligadas ao jogo: irritação, ansiedade ou agitação quando não consegue apostar ou após uma perda, assim como euforia desproporcional depois de uma vitória, também merecem atenção. Segundo a psicóloga, o alerta vale também para o período sem acesso às plataformas. Quando a aposta ocupava um lugar importante na rotina do adolescente, a perda desse espaço pode trazer tristeza persistente, desânimo e falta de interesse por outras atividades. Se esses sintomas se prolongam, podem evoluir para um quadro depressivo, que precisa de avaliação profissional.
 

Como os pais e responsáveis podem agir? 

A identificação desses sinais não significa, isoladamente, que o adolescente tenha um transtorno. O mais importante é observar a frequência e a intensidade dos comportamentos e, principalmente, se eles estão provocando impactos na vida escolar, familiar, social ou emocional. 

“É importante que os pais e responsáveis não abordem o assunto apenas a partir da punição. Perguntar sobre o contato com as apostas, entender como o adolescente conheceu as plataformas e conversar sobre os riscos pode abrir espaço para que ele fale sobre o que está acontecendo”, orienta a especialista. 

Quando houver perda de controle, prejuízos na rotina, conflitos familiares ou sofrimento emocional relacionados às apostas, a recomendação é buscar avaliação de um profissional de saúde mental. 

Buscar esse tipo de apoio tende a ser mais natural para essa geração do que foi para as anteriores. O Perfil do Paciente Digital, levantamento feito pela Doctoralia com usuários da plataforma no Brasil, mostra que o público mais jovem, faixa que inclui os adolescentes de hoje, usa serviços de psicologia e psiquiatria de 2 a 3 vezes mais do que adultos com mais de 60 anos, e que o estigma em torno da terapia vem caindo, principalmente entre a Geração Z e os millennials. Para os pais, isso é um sinal de que abrir essa conversa com o filho tende a encontrar menos resistência do que encontraria há uma geração.


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