Proibição por medida provisória tira as plataformas do ar, mas não alcança quem já criou o hábito; psicóloga lista sinais que pais e responsáveis devem observar agora
As plataformas de apostas
online saem do ar na segunda-feira (6 de outubro), após a medida provisória
assinada em 25 de setembro que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade de
apostas de cota fixa e jogos online no país. Para os adolescentes, a proibição
já existia: a Lei 14.790/2023 veta a participação de menores de 18 anos. Mesmo
assim, mais de 1 milhão de jovens de 14 a 18 anos já apostaram no Brasil,
segundo o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad
III), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em
parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
O estudo mostra que 10,9% dos
jovens nessa faixa etária já apostaram e que 2,2% desse grupo já apresenta
sinais de comportamento problemático ligado ao hábito. O que mais leva os
adolescentes ao primeiro contato com as apostas é a curiosidade, e não a
expectativa de lucro. Na justificativa da medida provisória, o governo federal
cita aumento de 140% nos atendimentos do SUS relacionados a jogo patológico e
problemas com apostas entre 2018 e 2025.
Entre os motivos declarados, a
curiosidade lidera com 37% das menções, seguida da influência do grupo de
amigos, com 28%. A expectativa de ganhar dinheiro aparece só em terceiro lugar,
citada por 25% dos jovens, o que ajuda a explicar por que o primeiro contato
com o jogo costuma vir pela porta social, e não pela promessa financeira.
Para Daiane Fernandes Viana,
psicóloga disponível na plataforma Doctoralia, esse padrão ganha peso agora, com
a saída das plataformas do ar, e reforça a importância de os pais e
responsáveis observarem mudanças de comportamento e manterem o diálogo aberto
com os filhos.
“Muitas vezes, o contato com as
apostas começa como uma experiência de curiosidade ou como uma forma de
acompanhar o grupo de amigos. O problema pode surgir quando esse comportamento
passa a ocupar um espaço cada vez maior na rotina e começa a gerar prejuízos”,
explica.
A saída dos sites autorizados
não elimina o acesso. Plataformas clandestinas operam fora da regulação e não
têm obrigação de verificar a idade de quem aposta. O governo anunciou que vai
intensificar o combate ao mercado ilegal, com bloqueio de domínios, remoção de
aplicativos e rastreamento de recursos. Além da fiscalização, o olhar atento da
família pode ser decisivo para identificar cedo mudanças que mereçam
acompanhamento.
O que muda quando o acesso é
interrompido?
Para quem já desenvolveu uma
relação problemática com o jogo, a interrupção repentina pode vir acompanhada
de desconforto emocional. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, inclui entre os critérios
do transtorno do jogo a inquietação ou irritabilidade ao tentar reduzir ou
parar de jogar.
“Quando o acesso é cortado de
uma hora para outra, o adolescente que já tinha o hábito de jogar pode
apresentar sintomas claros de abstinência, como irritabilidade intensa,
ansiedade e uma busca compulsiva por caminhos alternativos para continuar
apostando. Vale observar se aparecem aplicativos desconhecidos no celular,
pedidos de dinheiro sem explicação ou o uso de contas e cartões de outras
pessoas”, afirma a psicóloga.
Quais sinais podem
indicar uma relação problemática com as apostas?
Preocupação constante
com o jogo: o adolescente passa a falar, pesquisar ou
planejar apostas com frequência, inclusive fora dos momentos em que está
jogando. Conversas sobre futebol, por exemplo, podem começar a estar
frequentemente associadas a resultados e apostas.
Aumento do tempo ou dos
valores apostados: o adolescente passa a dedicar cada vez
mais tempo às apostas ou aumenta os valores envolvidos em busca da mesma
sensação de emoção.
Queda no rendimento e
isolamento: piora no desempenho escolar, abandono de
atividades que antes despertavam interesse e redução do convívio presencial
podem ser sinais de alerta quando aparecem associados a outras mudanças.
Sigilo ou mentiras
relacionadas a dinheiro: esconder notificações no
celular, omitir o uso de aplicativos, pedir dinheiro emprestado sem explicar
claramente o motivo, usar cartão, conta ou dados de outras pessoas, inclusive
dos próprios pais, ou negar que esteja apostando podem indicar que existe algo
a ser investigado.
Mudanças de humor
ligadas ao jogo: irritação, ansiedade ou agitação quando não
consegue apostar ou após uma perda, assim como euforia desproporcional depois
de uma vitória, também merecem atenção. Segundo a psicóloga, o alerta vale
também para o período sem acesso às plataformas. Quando a aposta ocupava um
lugar importante na rotina do adolescente, a perda desse espaço pode trazer
tristeza persistente, desânimo e falta de interesse por outras atividades. Se
esses sintomas se prolongam, podem evoluir para um quadro depressivo, que
precisa de avaliação profissional.
Como os pais e
responsáveis podem agir?
A identificação desses sinais
não significa, isoladamente, que o adolescente tenha um transtorno. O mais
importante é observar a frequência e a intensidade dos comportamentos e,
principalmente, se eles estão provocando impactos na vida escolar, familiar,
social ou emocional.
“É importante que os pais e
responsáveis não abordem o assunto apenas a partir da punição. Perguntar sobre
o contato com as apostas, entender como o adolescente conheceu as plataformas e
conversar sobre os riscos pode abrir espaço para que ele fale sobre o que está
acontecendo”, orienta a especialista.
Quando houver perda de
controle, prejuízos na rotina, conflitos familiares ou sofrimento emocional
relacionados às apostas, a recomendação é buscar avaliação de um profissional
de saúde mental.
Buscar esse tipo de apoio
tende a ser mais natural para essa geração do que foi para as anteriores. O
Perfil do Paciente Digital, levantamento feito pela Doctoralia com usuários da
plataforma no Brasil, mostra que o público mais jovem, faixa que inclui os
adolescentes de hoje, usa serviços de psicologia e psiquiatria de 2 a 3 vezes
mais do que adultos com mais de 60 anos, e que o estigma em torno da terapia
vem caindo, principalmente entre a Geração Z e os millennials. Para os pais,
isso é um sinal de que abrir essa conversa com o filho tende a encontrar menos
resistência do que encontraria há uma geração.
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