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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Mudamos o mundo. Por que a sala de aula continua a mesma?


Se uma pessoa de algumas décadas atrás entrasse hoje em um escritório, provavelmente encontraria um ambiente muito diferente daquele que conheceu. Mudaram as ferramentas, a forma de trabalhar, de fazer reuniões, de buscar informações e até de organizar os espaços. Em muitas salas de aula, no entanto, ela ainda reconheceria boa parte da estrutura: carteiras voltadas para a frente, um professor conduzindo a explicação e um grupo de alunos recebendo o mesmo conteúdo, ao mesmo tempo e da mesma maneira. 

A escola que ensinou nossos pais se parece, em muitos aspectos, com a que nos ensinou e ainda mantém características da escola que oferecemos aos nossos filhos. Só que, nesse intervalo, as crianças mudaram profundamente, assim como mudou o mundo ao redor delas. 

Hoje, crianças e adolescentes crescem em contato com uma quantidade de informações e estímulos que não existia para as gerações anteriores. Transitam entre diferentes linguagens, telas, vídeos, conversas e ferramentas digitais desde cedo. Uma informação que antes dependia de uma enciclopédia, de uma biblioteca ou da explicação de um professor pode ser encontrada em segundos. Mais recentemente, a Inteligência Artificial tornou possível não apenas localizar uma informação, mas receber uma explicação, organizar um conteúdo e interagir com ele de inúmeras formas. 

A escola não precisa competir com essa velocidade nem transformar a aprendizagem em entretenimento permanente. Pelo contrário. Parte do trabalho educacional está justamente em ajudar crianças e adolescentes a desenvolver atenção, escuta, persistência e capacidade de se aprofundar em algo. Mas precisamos reconhecer que fazemos isso com alunos que vivem em um ambiente muito diferente daquele em que nós crescemos. 

Essa mudança também começa a aparecer na própria arquitetura escolar. Durante muito tempo, a sala de aula foi concebida como um espaço fechado, com pouca interferência do que acontecia ao redor. Hoje existem experiências em outros países, inclusive no Canadá, com ambientes mais flexíveis, espaços compartilhados, diferentes configurações de mobiliário e uso de vidro para ampliar a integração visual entre as áreas de aprendizagem. 

A presença do vidro, por si só, evidentemente não transforma a educação. O que me interessa nesse tipo de experiência é a concepção de escola que existe por trás dela. Em um ambiente mais aberto, o aluno percebe o movimento externo, mas aprende gradualmente a direcionar a atenção para aquilo que está fazendo. Em vez de depender sempre de um espaço completamente isolado para conseguir se concentrar, ele também desenvolve recursos para lidar com os estímulos ao redor. Afinal, o mundo em que ele vai estudar, trabalhar e viver não será livre de distrações. 

Na Start Anglo Bilingual School Recreio acreditamos que a arquitetura é apenas uma parte dessa discussão, uma parte extremamente relevante, mas existe uma mudança ainda mais importante quando olhamos para quem aprende. Durante muito tempo, a escola foi organizada a partir da ideia de que alunos da mesma idade poderiam avançar juntos, recebendo o conteúdo de maneira semelhante e dentro de um ritmo previamente estabelecido. A experiência cotidiana de qualquer educador mostra que a aprendizagem é muito mais diversa. 

Há crianças que compreendem rapidamente uma explicação oral, enquanto outras precisam visualizar ou experimentar para construir aquele conhecimento. Algumas organizam muito bem o pensamento pela escrita, outras precisam conversar sobre o assunto. Há alunos que fazem perguntas o tempo inteiro e aqueles que precisam de mais segurança para expor uma dúvida. Uma mesma criança pode avançar com enorme facilidade em determinada área e precisar de muito mais tempo em outra. Desenvolvimento e aprendizagem não acontecem de maneira uniforme.

Reconhecer essas individualidades não significa imaginar uma escola diferente para cada aluno. A escola é, por natureza, um espaço coletivo, e aprender a conviver com pessoas que têm ritmos, habilidades, opiniões e dificuldades diferentes também faz parte da formação. O desafio está em construir esse coletivo sem tornar o aluno invisível dentro dele. 

Entendemos que conseguimos ter 15, 20 crianças em uma sala e fazer com que cada uma perceba que está sendo vista. Isso acontece quando o professor conhece seus alunos, identifica quem realmente compreendeu e quem apenas permaneceu em silêncio, percebe quem precisa de um desafio maior, quem necessita de mais tempo e quando uma explicação precisa encontrar outro caminho. Individualizar o olhar é diferente de individualizar toda a experiência escolar. 

Esse talvez seja um dos pontos que mais exigem de nós, educadores. Queremos uma escola capaz de respeitar diferenças e desenvolver autonomia, criatividade, pensamento crítico e capacidade de aprender continuamente, mas muitas vezes tentamos alcançar tudo isso dentro de estruturas rígidas, desenhadas para uma realidade que já não existe. 

Por isso, quando falamos em inovação na educação, não deveríamos começar necessariamente pela tecnologia. Uma escola pode ter tablets, plataformas digitais, laboratórios e Inteligência Artificial e continuar reproduzindo a mesma lógica de décadas atrás. A transformação acontece quando essas ferramentas vêm acompanhadas de uma revisão sobre a maneira como organizamos o tempo, os espaços, as relações e o próprio processo de aprendizagem. 

Também não se trata de rejeitar tudo o que veio antes. Depois de tantos anos trabalhando com educação, aprendi a desconfiar tanto das soluções milagrosas quanto da ideia de que tudo precisa ser reinventado. Existem práticas tradicionais que continuam importantes e existem novidades que, apesar de atraentes, pouco acrescentam à aprendizagem. O critério não deveria ser o que é antigo ou moderno, mas o que faz sentido para o aluno que temos diante de nós. 

No Dia dos Professores, essa reflexão me parece especialmente necessária porque não podemos cobrar do professor uma educação preparada para o futuro enquanto mantemos ao redor dele uma escola estruturada para o passado. A transformação precisa envolver formação, práticas pedagógicas, recursos, ambientes e uma compreensão mais profunda sobre as crianças e os adolescentes que estamos educando. 

Nós já não trabalhamos, nos comunicamos ou buscamos informação como nossos pais faziam. As profissões mudaram, as relações mudaram e novas tecnologias continuarão transformando a maneira como vivemos. A escola também precisa acompanhar esse movimento, preservando aquilo que continua essencial e tendo coragem para rever estruturas que deixaram de responder às necessidades dos alunos. 

Talvez essa seja uma boa reflexão para o Dia dos Professores. Em vez de discutir apenas novas ferramentas para ensinar, precisamos permitir que os educadores participem da construção de uma escola mais coerente com seu tempo, capaz de enxergar o aluno como parte de um coletivo sem perder de vista quem ele é, como aprende e de que forma pode se desenvolver.
 

Cristiane Cristo - pedagoga, psicopedagoga com mais de 20 anos de experiência e hoje atua como diretora pedagógica da Start Anglo Bilingual School Recreio.


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