Reinaldo Domingos, o “Dr. Dívidas” e considerado um dos pioneiros da educação financeira no Brasil, alerta para o risco de transformar o desejo de presentear em endividamento e orienta consumidores a combinar planejamento, pesquisa e segurança
O Dia das Crianças deve movimentar bilhões de
reais no comércio brasileiro, mas a busca pelo presente ideal pode representar
também uma armadilha para o orçamento das famílias. Segundo projeção da
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as vendas
relacionadas à data devem alcançar R$
9,27 bilhões em 2026, alta de 1,8% em relação ao ano passado.
Já levantamento do SPC Brasil e da CNDL estima que 74% dos consumidores pretendem comprar
presentes, com gasto médio de R$ 308.
O cenário exige atenção porque o apelo
emocional da data pode estimular decisões que ultrapassam a capacidade
financeira das famílias. De acordo com a mesma pesquisa do SPC Brasil/CNDL, 22% dos consumidores pretendem gastar
além do que podem, enquanto 35% dos compradores estão
inadimplentes.
Para Reinaldo
Domingos, educador financeiro, presidente da Associação Brasileira de
Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN), conhecido como “Dr. Dívidas” e
considerado o pai da educação financeira no Brasil, o principal
cuidado não está apenas em encontrar o menor preço, mas em evitar que a compra
comprometa sonhos e compromissos futuros.
“Presentear uma criança é um gesto de carinho,
mas o amor não precisa ser medido pelo preço do presente. Quando a família
compra por impulso, parcela sem planejamento ou assume uma dívida que não
consegue carregar, aquele momento de alegria pode se transformar em meses de
preocupação financeira”, afirma Domingos.
Segundo ele, o Dia das Crianças pode ser
inclusive uma oportunidade para ensinar os próprios filhos sobre a relação com
o dinheiro. “Educação financeira começa no comportamento. A criança precisa
entender que o dinheiro é limitado, que escolhas fazem parte da vida e que nem
todo desejo precisa ser atendido imediatamente. O presente pode ser uma
oportunidade para ensinar a importância de escolher, planejar, poupar e
valorizar aquilo que se tem”, explica.
O cuidado se estende às compras digitais. A
pesquisa da TransUnion mostra que brasileiros que relataram perdas com fraudes
digitais tiveram prejuízo médio de R$
10.699, valor 60% superior ao registrado no levantamento
anterior. No comércio eletrônico, a Serasa Experian identificou 110.867 tentativas de fraude em maio de
2026, que poderiam representar prejuízo superior a R$ 107,6
milhões caso não fossem barradas.
Outro levantamento, da Agência Lupa, mostra que
os golpes digitais seguem padrões conhecidos: 71% dos conteúdos fraudulentos analisados prometiam algum
tipo de vantagem financeira e 74% exploravam a credibilidade de marcas ou
personalidades conhecidas. Cerca de um terço exigia pagamento
exclusivamente via Pix.
“Os golpes estão cada vez mais sofisticados e,
muitas vezes, não parecem golpes. O criminoso cria uma promoção, utiliza a identidade
de uma marca conhecida, oferece um desconto extraordinário e cria uma sensação
de urgência. O consumidor precisa aprender a desconfiar justamente quando a
oferta parece boa demais”, alerta Reinaldo.
20 passos para comprar melhor e evitar
problemas
- Defina quanto pode gastar antes
de procurar o presente
O primeiro passo é estabelecer um valor total para a data. O orçamento deve vir antes da escolha do presente, e não o contrário. - Faça uma lista de quem será
presenteado
Relacionar as crianças que receberão presentes ajuda a evitar que novas compras sejam incorporadas ao carrinho por impulso. - Estabeleça um limite por
presente
Ter um teto de gasto para cada pessoa facilita as escolhas e impede que um único presente comprometa todo o orçamento. - Não transforme o presente em
dívida
Parcelar uma compra também significa assumir um compromisso futuro. Se houver necessidade de parcelamento, a prestação deve caber no orçamento dos próximos meses. - Compare o preço final, não
apenas o desconto anunciado
Frete, juros, acessórios e outros custos podem mudar completamente a vantagem de uma oferta. - Pesquise o histórico de preços
Descontos muito elevados podem ser apenas uma estratégia de marketing. Compare o valor atual com preços praticados anteriormente. - Não confunda desejo da criança
com necessidade de compra
Conversar com a criança sobre o que ela realmente gostaria de receber pode evitar a aquisição de produtos caros que serão pouco utilizados. - Considere o custo depois da
compra
Videogames, por exemplo, podem exigir jogos, controles, assinaturas e outros acessórios. O preço do presente não é necessariamente o custo total. - Avalie alternativas mais
simples
Livros, jogos educativos, experiências e atividades em família podem representar opções de menor custo e, ao mesmo tempo, maior significado. - Não compre para compensar a
ausência
O desejo de proporcionar uma experiência especial à criança não deve levar os pais ou familiares a gastar além das possibilidades. - Desconfie de ofertas extraordinárias
Preço muito abaixo do mercado, contagem regressiva, mensagens de urgência e promessa de prêmio são sinais que exigem atenção redobrada. - Entre diretamente no site da
loja
Evite clicar em links recebidos por WhatsApp, redes sociais, SMS ou e-mail. Quando houver interesse em uma oferta, procure o endereço oficial da empresa por conta própria. - Confira o destinatário antes de
pagar por Pix
Antes de confirmar a operação, confira nome, CPF ou CNPJ e instituição financeira exibidos no aplicativo. O Banco Central orienta que vítimas de golpes acionem imediatamente o banco e solicitem o Mecanismo Especial de Devolução (MED). - Não forneça dados pessoais sem
necessidade
CPF, telefone, endereço, dados bancários e informações de cartão não devem ser compartilhados indiscriminadamente em sites, formulários ou promoções. - Desconfie de pesquisas que
prometem dinheiro ou presentes
Fraudes recentes têm utilizado marcas conhecidas para oferecer supostos prêmios ou pagamentos mediante o preenchimento de pesquisas. A recomendação é verificar a promoção diretamente nos canais oficiais da empresa. - Verifique a reputação da loja
Antes de comprar, procure informações sobre a empresa em fontes de defesa do consumidor e confira seus dados cadastrais e canais oficiais de atendimento. - Guarde comprovantes e
documentos da compra
Nota fiscal, pedido, comprovante de pagamento, anúncios e conversas com o fornecedor devem ser preservados até o fim da garantia e do período de utilização do produto. - Conheça o direito de
arrependimento
Nas compras realizadas fora do estabelecimento comercial, como pela internet, telefone ou catálogo, o consumidor pode desistir em até sete dias a partir da assinatura ou do recebimento do produto ou serviço, conforme as regras do Código de Defesa do Consumidor. - Fique atento à segurança do
brinquedo
Além do preço, é preciso verificar a indicação de faixa etária, as instruções de uso e a certificação exigida. O Inmetro determina que brinquedos tenham indicação de faixa etária e informações de segurança na embalagem. - Se cair em um golpe, aja
imediatamente
Quem fizer um Pix e descobrir que foi vítima de fraude deve procurar o banco o mais rapidamente possível e solicitar o MED. O pedido pode ser feito em até 80 dias da transação, mas a rapidez aumenta as chances de recuperação dos recursos. O mecanismo não garante a devolução e depende da análise da fraude e da existência de saldo na conta envolvida.
O presente também pode ensinar
Para Reinaldo Domingos, o Dia das Crianças
oferece uma oportunidade que vai além do consumo. A própria escolha do presente
pode ser utilizada pelos adultos para desenvolver nas crianças uma relação mais
consciente com o dinheiro.
“É importante envolver a criança nas escolhas,
respeitando sua idade. Ela pode aprender que existe um valor disponível, que
existem diferentes opções e que, ao escolher uma coisa, eventualmente terá de
abrir mão de outra. Isso é educação financeira na prática”, afirma.
O especialista também recomenda que os adultos
evitem utilizar o cartão ou o parcelamento como uma extensão da renda. “Cartão
de crédito não aumenta salário. Ele apenas antecipa uma decisão de consumo que
será paga depois. Quando utilizado sem planejamento, o consumidor pode
comprometer justamente o dinheiro que deveria estar destinado aos seus sonhos e
às suas prioridades”, explica. Reinaldo reforça que endividamento não deve ser
tratado apenas como um problema matemático. Para ele, a relação com o dinheiro
envolve comportamento, hábitos e escolhas.
“Minha experiência mostra que muitas pessoas
não se endividam porque simplesmente ganham pouco. Elas também podem se
endividar porque não planejam, porque compram para aliviar uma emoção ou porque
não sabem dizer não a um desejo. O problema começa quando o consumo de hoje
passa a comprometer a vida financeira de amanhã”, afirma.
Por isso, a recomendação para o Dia das
Crianças é simples: antes de perguntar “o
que a criança quer ganhar?”, o consumidor deveria perguntar “quanto posso gastar sem comprometer
minha vida financeira?”. “Um presente realmente especial é
aquele que cabe no orçamento, não gera uma dívida que a família não consegue
pagar e ainda deixa uma lição positiva para a criança. Essa é uma forma de
transformar o consumo em educação financeira”, conclui Domingos.
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