Para Guilherme Susteras
e Alexandre Bueno, que somam mais de 25 anos de experiência no setor de energia
e fundadores da Sun Mobi, mecanismos de crédito, liquidez, fiscalização e
governança precisarão acompanhar a entrada em massa de consumidores de baixa
tensão no mercado livre
Segmento
de GD por assinatura registra inadimplência de 17% ao mês e rotatividade de
clientes que chega 40% no ano
A
experiência acumulada pela geração solar por assinatura traz um alerta para a
abertura plena do mercado livre de energia no Brasil, com a entrada de
consumidores industriais e comerciais a partir de 25 de novembro de 2027 e dos
demais consumidores, incluindo os residenciais, a partir de 25 de novembro de
2028. Estudo elaborado pelos especialistas Guilherme Susteras e Alexandre
Bueno, que acumulam mais de 25 anos de experiência no setor elétrico e
fundadores da Sun Mobi, os indicadores observados no segmento ajudam a
antecipar desafios que poderão ganhar escala com a ampliação do varejo de
energia.
Segundo os autores, esse modelo de negócio registra média mensal de 17% de
inadimplência e rotatividade de clientes de 40% ao ano no Brasil. A análise
utilizou uma base de mercado da Wattio, composta por 88 mil unidades
consumidoras, vinculadas a 1,4 mil usinas solares compartilhadas e conectadas a
40 distribuidoras, no período de janeiro de 2025 a maio de 2026.
Engenheiro
eletricista e mestre em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Economia pela London School of
Economics, doutorado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas
e pós-doutorado pelo Núcleo de Inovação em Sistemas de Energia da USP,
Guilherme Susteras tem mais de 25 anos de experiência em estratégia, regulação
e inovação no setor de energia.
Alexandre Bueno, por sua vez, é historiador pela USP, possui MBA em Energia
pela mesma universidade e especializações pela ESPM, FGV e Universidade de
Cambridge. Também acumula mais de 25 anos de experiência nos setores elétrico
brasileiro. Juntos, os especialistas estiveram à frente da Sun Mobi entre 2016
e 2025, empresa pioneira no modelo de energy-as-a-service em geração
distribuída solar.
A análise, desenvolvida no âmbito da Allez Estratégia, consultoria
especializada em regulação e varejo de energia, parte dessa experiência
empresarial para avaliar comportamentos, riscos e desafios que podem se repetir
com a abertura do mercado livre para consumidores de menor porte. Entre os
principais pontos de atenção estão governança, liquidez, capital de giro,
robustez dos contratos, análise de crédito, mecanismos antifraude e práticas
comerciais.
Governança e regulação
entram no centro do debate
Segundo os especialistas, os mecanismos atuais de fiscalização estão fortemente
associados ao balanço de energia. Com a expansão do varejo, porém, será
necessário acompanhar também a saúde financeira dos agentes e a qualidade das
relações comerciais estabelecidas com os consumidores.
“A abertura do mercado livre exigirá uma abordagem mais ampla de governança.
Não será suficiente acompanhar apenas o equilíbrio físico e energético do
sistema. Questões como capital de giro, liquidez, robustez dos contratos,
análise de crédito, mecanismos antifraude e práticas comerciais terão
importância crescente para a sustentabilidade do varejo”, afirma Guilherme
Susteras.
A abertura também adicionará complexidade operacional em razão da
heterogeneidade dos processos de medição e faturamento das distribuidoras na
baixa tensão. Para os especialistas, problemas relacionados à experiência do
consumidor podem ser os primeiros sinais de estresse regulatório em um ambiente
com maior número de comercializadores, consumidores e relações contratuais.
Consumidor pode ser o
primeiro ponto de tensão
Um dos desafios identificados pelos especialistas é o fato de a energia
elétrica não estar entre as quatro principais prioridades dos pequenos empreendedores.
Segundo dados da Abrasel considerados no estudo, esse público concentra sua
atenção em pessoas e mão de obra, insumos e alimentação, vendas e marketing e
questões tributárias e burocráticas. Na prática, a conta de energia ganha maior
relevância quando há aumento expressivo dos custos ou problemas de
fornecimento.
Esse comportamento, já observado na GD por assinatura, pode fazer com que o
consumidor contrate um produto de energia sem compreender integralmente as
condições comerciais, a dinâmica de faturamento ou as responsabilidades
envolvidas na contratação.
“A assimetria de informação é um ponto crítico. Criam-se situações em que
consumidores alegam não reconhecer contratos ou enfrentam dificuldades para
compreender a cobrança apresentada na fatura. Em um mercado mais pulverizado,
problemas dessa natureza podem resultar em aumento de reclamações junto a
órgãos fiscalizadores, reguladores e de defesa do consumidor”, afirma Alexandre
Bueno.
Outro fator destacado são os prazos entre a contratação e o início efetivo do
fornecimento, além do período para arrependimento e retorno às condições
anteriores. Na geração por assinatura, o período de até 90 dias entre a
contratação e a entrega do benefício, assim como entre o cancelamento e o
retorno às condições originais, já exige comunicação clara com o consumidor.
No mercado livre, o desafio pode ser ainda maior. Embora o prazo para início do
fornecimento pela comercializadora seja semelhante aos 90 dias observados na GD
por assinatura, o retorno ao fornecimento pela distribuidora pode levar até um
ano. Para consumidores sem experiência prévia na contratação de energia, esse
intervalo pode representar uma fonte adicional de insegurança.
Guerra de preços pode
pressionar sustentabilidade do mercado
Do lado dos comercializadores, os especialistas identificam outro risco: a
competição por clientes pode estimular uma política de preços incompatível com
a sustentabilidade financeira das empresas. Na GD por assinatura, o desconto
médio anual é de 17%, sendo que, neste ano, esse patamar já alcançou 19%.
A busca por participação de mercado pode levar agentes a renunciar a margem em
um ambiente de elevada concorrência. Embora descontos agressivos possam parecer
positivos para o consumidor, cada redução de preço representa uma pressão
direta sobre a margem do comercializador.
“Em um mercado com custos relevantes de aquisição de clientes, inadimplência e
necessidade de capital de giro, uma estratégia baseada exclusivamente em preços
mais baixos pode comprometer a sustentabilidade financeira da operação. Em um
cenário extremo, a quebra de comercializadoras pode deixar consumidores à mercê
do Supridor de Última Instância, com condições de fornecimento potencialmente
mais caras”, explica Susteras.
A experiência da GD por assinatura também mostra que a pulverização da base de
clientes não elimina os riscos de inadimplência. O estudo registra média de 17%
de inadimplência ao mês. Quando combinada a outras pressões financeiras, uma
taxa elevada de inadimplência pode comprometer a liquidez e criar um efeito
cascata sobre a capacidade de os comercializadores honrarem seus compromissos.
Por isso, mecanismos de análise de crédito, garantias e gestão de recebíveis
passam a ter papel central. Na avaliação dos especialistas, esses fundamentos
precisam ser considerados desde o início por empreendedores, reguladores e
financiadores, evitando que uma expansão acelerada da base de consumidores seja
acompanhada por fragilidades financeiras.
Rotatividade de clientes
e excesso de oferta também preocupam
Outro indicador destacado é a rotatividade média de clientes de 4% ao mês na
geração solar por assinatura. A combinação entre contratos com baixa barreira
de saída, pouca compreensão sobre o produto, pressão comercial e competição por
preço contribui para a movimentação frequente da carteira.
Em termos anuais, uma taxa dessa magnitude pode representar uma renovação
superior a 40% da base, elevando os custos de aquisição e exigindo esforço
comercial permanente para recompor clientes. No mercado livre, uma base mais
dinâmica pode aumentar a necessidade de capital e dificultar a previsibilidade
das receitas.
O estudo também identifica a vacância de projetos (falta de clientes para
absorver a oferta existente) como um dos principais problemas de caixa da GD
por assinatura. O excesso de otimismo em relação ao ritmo de adesão pode
estimular investimentos e contratação de oferta antes que exista demanda
suficiente.
No mercado livre, uma dinâmica semelhante poderia aumentar a exposição dos
comercializadores ao Mercado de Curto Prazo (MCP), especialmente em situações
de excesso de contratação ou crescimento da oferta acima da capacidade de
absorção dos consumidores.
Experiência da GD
antecipa desafios do varejo de energia
Para Susteras e Bueno, a experiência da geração distribuída por assinatura
permite observar, em um ambiente já existente, comportamentos que podem ganhar
escala com a abertura total do mercado livre. A combinação entre inadimplência,
rotatividade de clientes, pressão sobre preços, custos de aquisição, vacância e
assimetria de informação cria riscos que precisam ser tratados de forma
integrada.
“A experiência da GD por assinatura confirma, com dados reais, riscos que
precisam ser considerados na abertura total do mercado livre de energia. O novo
ambiente exigirá uma abordagem mais ampla de governança, que considere não
apenas o equilíbrio físico e energético do sistema, mas também a saúde
financeira dos agentes, a qualidade das relações contratuais e a proteção dos
consumidores”, afirma Bueno.
Segundo Susteras, a evolução da regulação precisará acompanhar a transformação
do mercado varejista. “A capacidade de fiscalizar contratos e práticas
comerciais, combater fraudes, acompanhar indicadores de liquidez e inadimplência
e lidar com diferentes processos de medição e faturamento será determinante
para a consolidação de um mercado mais amplo e sustentável”, acrescenta.
A abertura do mercado livre representa uma oportunidade de ampliar a liberdade
de escolha dos consumidores e desenvolver novos modelos de negócio no setor
elétrico. A experiência da GD por assinatura, porém, indica que a expansão do
varejo precisará ser acompanhada pela maturidade dos mecanismos de governança,
regulação e gestão de riscos.
“Os agentes que conseguirem executar bem fundamentos como formação de preços,
aquisição e retenção de clientes, análise de crédito, gestão da inadimplência e
controle da oferta estarão mais preparados para atuar no novo varejo de
energia”, conclui Bueno.
Acesse o estudo
completo:
www.allezestrategia.com.br/estudos
Guilherme Susteras - cofundador da Sun Mobi, pioneira em energy-as-a-service em geração distribuída solar entre 2016 e 2025. Engenheiro Eletricista e Mestre em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da USP, é pós-graduado em Economia pela London School of Economics, Doutor em Administração de Empresas pela FGV e pós-doutor pelo Núcleo de Inovação em Sistemas de Energia da USP. Possui mais de 25 anos de experiência em estratégia, regulação e inovação no setor de energia, com passagem por consultorias estratégicas e utilities de grande porte no Brasil e no Reino Unido.
Alexandre Bueno - cofundador da Sun Mobi, pioneira em energy-as-a-service em geração distribuída solar entre 2016 e 2025. Historiador pela USP, possui MBA em Energia pela mesma universidade e especializações pela ESPM, FGV e Universidade de Cambridge. Acumula mais de 25 anos de experiência nos setores elétrico brasileiro e de infraestrutura, com atuação em empreendedorismo, inovação, novos serviços, propostas de valor, marketing e gestão comercial.
Allez Estratégia
www.allezestrategia.com.br
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