Pesquisar no Blog

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Diagnóstico antes da maternidade: por que falar de fertilidade deve fazer parte do tratamento do câncer de mama

Ginecologista explica como a preservação da fertilidade pode ser planejada antes da quimioterapia e o que se sabe hoje sobre gravidez depois do câncer 

 

Quando se fala em câncer de mama, a imagem mais comum é a de uma mulher mais velha. Mas a doença também atinge mulheres jovens, muitas delas ainda sem filhos ou com planos de aumentar a família. Para elas, o diagnóstico traz uma pergunta que nem sempre é feita a tempo: será que ainda vou poder ser mãe? No Outubro Rosa, essa é uma conversa que merece mais espaço.

Segundo Camila Bolonhezi, médica ginecologista, o momento em que esse assunto é abordado faz toda a diferença. "Diante do diagnóstico, é natural que o foco esteja totalmente no tratamento do câncer. Só que algumas decisões sobre fertilidade precisam ser tomadas antes de começar a quimioterapia. Se essa conversa fica para depois, algumas possibilidades podem se perder", explica.


Por que o tratamento pode afetar a fertilidade

Alguns quimioterápicos podem danificar os óvulos e reduzir a reserva ovariana, levando, em certos casos, à menopausa precoce. O risco varia conforme a idade da paciente, o tipo de medicamento e a duração do tratamento. Além disso, muitas mulheres com tumores sensíveis a hormônios fazem hormonioterapia por cinco anos ou mais, período em que a gravidez não é recomendada. Com isso, a tentativa de engravidar pode acabar adiada para uma idade em que a fertilidade naturalmente já está menor.

"Não é toda paciente que vai ficar infértil, mas é impossível prever com exatidão quem será afetada. Por isso, a recomendação é que toda mulher em idade reprodutiva que tenha o desejo, ou mesmo a dúvida, sobre ter filhos seja informada e encaminhada para avaliação antes do início do tratamento", afirma Camila.


Quais são as opções

A alternativa mais conhecida é o congelamento de óvulos, que envolve um período de estimulação ovariana e coleta, geralmente em cerca de duas semanas. Também é possível congelar embriões, no caso de mulheres com parceiro ou que optem por sêmen de doador, e, em situações específicas, tecido ovariano.

"Uma dúvida frequente é se a estimulação hormonal pode piorar o câncer. Hoje existem protocolos adaptados para pacientes com câncer de mama, que mantêm os níveis de estrogênio mais baixos durante o processo. Também é possível começar a estimulação em qualquer fase do ciclo menstrual, o que evita atrasos no tratamento oncológico", explica a ginecologista.

Durante a quimioterapia, em alguns casos, também pode ser indicado um medicamento que coloca os ovários temporariamente "em repouso", com o objetivo de protegê-los. "Essa estratégia pode ajudar, mas não substitui o congelamento de óvulos quando há desejo de gestar no futuro", ressalta.


E a gravidez depois do câncer?

Muitas mulheres temem que uma gestação após o tratamento aumente o risco de a doença voltar. Segundo Camila, as evidências disponíveis são tranquilizadoras. "Os estudos não mostram que engravidar depois do câncer de mama piore o prognóstico. Pesquisas recentes indicam, inclusive, que algumas pacientes com tumores sensíveis a hormônios podem interromper temporariamente a hormonioterapia para tentar engravidar, sem aumento do risco de recidiva no curto prazo, sempre com acompanhamento próximo da equipe", afirma.

O momento ideal para tentar a gravidez é definido caso a caso, em conjunto com o oncologista, levando em conta o tipo de tumor, o tratamento realizado e o risco individual. Durante o tratamento, a orientação é usar métodos contraceptivos não hormonais, como o DIU de cobre, já que alguns medicamentos podem causar danos ao bebê.


Uma conversa que precisa ser feita

Para Camila, falar de fertilidade é também falar de qualidade de vida e de projeto de futuro. "Muitas mulheres dizem que ninguém perguntou a elas se queriam ter filhos. O diagnóstico de câncer é um momento de muitas urgências, mas o desejo de ser mãe não pode ser tratado como algo secundário. Informar é o primeiro passo para que cada mulher possa decidir", conclui.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados