Ginecologista explica como a preservação da fertilidade pode ser planejada antes da quimioterapia e o que se sabe hoje sobre gravidez depois do câncer
Quando se fala em câncer de mama, a
imagem mais comum é a de uma mulher mais velha. Mas a doença também atinge
mulheres jovens, muitas delas ainda sem filhos ou com planos de aumentar a
família. Para elas, o diagnóstico traz uma pergunta que nem sempre é feita a
tempo: será que ainda vou poder ser mãe? No Outubro Rosa, essa é uma conversa
que merece mais espaço.
Segundo Camila Bolonhezi, médica
ginecologista, o momento em que esse assunto é abordado faz toda a diferença.
"Diante do diagnóstico, é natural que o foco esteja totalmente no
tratamento do câncer. Só que algumas decisões sobre fertilidade precisam ser
tomadas antes de começar a quimioterapia. Se essa conversa fica para depois,
algumas possibilidades podem se perder", explica.
Por que o
tratamento pode afetar a fertilidade
Alguns quimioterápicos podem
danificar os óvulos e reduzir a reserva ovariana, levando, em certos casos, à
menopausa precoce. O risco varia conforme a idade da paciente, o tipo de
medicamento e a duração do tratamento. Além disso, muitas mulheres com tumores
sensíveis a hormônios fazem hormonioterapia por cinco anos ou mais, período em
que a gravidez não é recomendada. Com isso, a tentativa de engravidar pode
acabar adiada para uma idade em que a fertilidade naturalmente já está menor.
"Não é toda paciente que vai
ficar infértil, mas é impossível prever com exatidão quem será afetada. Por
isso, a recomendação é que toda mulher em idade reprodutiva que tenha o desejo,
ou mesmo a dúvida, sobre ter filhos seja informada e encaminhada para avaliação
antes do início do tratamento", afirma Camila.
Quais são as
opções
A alternativa mais conhecida é o
congelamento de óvulos, que envolve um período de estimulação ovariana e
coleta, geralmente em cerca de duas semanas. Também é possível congelar
embriões, no caso de mulheres com parceiro ou que optem por sêmen de doador, e,
em situações específicas, tecido ovariano.
"Uma dúvida frequente é se a
estimulação hormonal pode piorar o câncer. Hoje existem protocolos adaptados
para pacientes com câncer de mama, que mantêm os níveis de estrogênio mais
baixos durante o processo. Também é possível começar a estimulação em qualquer
fase do ciclo menstrual, o que evita atrasos no tratamento oncológico",
explica a ginecologista.
Durante a quimioterapia, em alguns
casos, também pode ser indicado um medicamento que coloca os ovários temporariamente
"em repouso", com o objetivo de protegê-los. "Essa estratégia
pode ajudar, mas não substitui o congelamento de óvulos quando há desejo de
gestar no futuro", ressalta.
E a gravidez
depois do câncer?
Muitas mulheres temem que uma
gestação após o tratamento aumente o risco de a doença voltar. Segundo Camila,
as evidências disponíveis são tranquilizadoras. "Os estudos não mostram
que engravidar depois do câncer de mama piore o prognóstico. Pesquisas recentes
indicam, inclusive, que algumas pacientes com tumores sensíveis a hormônios
podem interromper temporariamente a hormonioterapia para tentar engravidar, sem
aumento do risco de recidiva no curto prazo, sempre com acompanhamento próximo
da equipe", afirma.
O momento ideal para tentar a
gravidez é definido caso a caso, em conjunto com o oncologista, levando em
conta o tipo de tumor, o tratamento realizado e o risco individual. Durante o
tratamento, a orientação é usar métodos contraceptivos não hormonais, como o
DIU de cobre, já que alguns medicamentos podem causar danos ao bebê.
Uma conversa que
precisa ser feita
Para Camila, falar de fertilidade é
também falar de qualidade de vida e de projeto de futuro. "Muitas mulheres
dizem que ninguém perguntou a elas se queriam ter filhos. O diagnóstico de
câncer é um momento de muitas urgências, mas o desejo de ser mãe não pode ser
tratado como algo secundário. Informar é o primeiro passo para que cada mulher
possa decidir", conclui.
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