Prof. Dr. José Carlos Sadalla, oncoginecologista da Clínica Andrade & Sadalla, explica por que os cânceres ginecológicos, que afetam mais de 30 mil brasileiras por ano, ainda ficam à sombra da conscientização consolidada em torno do câncer de mama
Quando
o mês de outubro chega, o país inteiro se veste de rosa. Campanhas, iluminação
de monumentos, matérias na imprensa: o Outubro Rosa se consolidou como uma das
ações de conscientização em saúde mais bem-sucedidas do Brasil, e o resultado
prático disso é visível, com mais mulheres fazendo mamografia e buscando
diagnóstico precoce. Mas um mês antes, em setembro, uma campanha igualmente
urgente ainda luta para conquistar o mesmo espaço na consciência coletiva: o
Setembro em Flor, dedicado aos cânceres ginecológicos.
Um
grupo de cânceres que atinge 30 mil brasileiras por ano
Idealizada
em 2021 pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), a campanha
Setembro em Flor reúne cinco tipos de câncer que afetam o sistema reprodutor
feminino: colo do útero, ovário, endométrio, vagina e vulva. Segundo o
Instituto Nacional de Câncer (INCA), mais de 30 mil mulheres são diagnosticadas
com algum desses tumores por ano no Brasil, um número que coloca esse grupo de
cânceres como um dos mais relevantes da saúde feminina, ainda que menos
conhecido do público em geral do que o câncer de mama.
Para o
Prof. Dr. José Carlos Sadalla, médico oncoginecologista e cofundador da Clínica
Andrade & Sadalla, essa diferença de visibilidade tem consequências diretas
na vida das pacientes.
"O
Outubro Rosa foi um sucesso extraordinário de saúde pública, e isso é motivo de
celebração: salvou e continua salvando vidas todos os anos. Mas os cânceres
ginecológicos, como um todo, afetam um número de mulheres muito próximo ao do
câncer de mama isoladamente, e ainda assim não têm nem de longe o mesmo nível de
conhecimento popular. Muitas pacientes não sabem diferenciar os sintomas de
cada um desses tumores, e isso atrasa diagnósticos que poderiam ser feitos de
forma muito mais precoce. O Setembro em Flor precisa da mesma força de
mobilização que o Outubro Rosa conquistou", afirma Dr. Sadalla.
O
câncer de colo do útero: o mais prevenível de todos
Entre os cinco tumores contemplados pela campanha, o câncer de colo do útero é o mais comum e, ao mesmo tempo, um dos mais evitáveis da medicina moderna, já que sua principal causa, a infecção persistente pelo HPV, pode ser prevenida por vacina e o próprio câncer pode ser rastreado por um exame simples e amplamente disponível, o papanicolau e a pesquisa do DNA-HPV. Ainda assim, o Brasil registra milhares de novos casos por ano, muitos deles em regiões com menor acesso a rastreamento regular, o que reforça que a lacuna, aqui, é mais de informação e acesso do que de tecnologia médica disponível.
Câncer
de ovário e endométrio: os desafios do diagnóstico silencioso
Já o câncer de ovário carrega um desafio bem diferente: não existe, até hoje, um exame de rastreamento populacional eficaz, como existe para o colo do útero. Isso faz com que grande parte dos diagnósticos aconteça apenas quando sintomas como inchaço abdominal persistente, dor pélvica e alterações intestinais ou urinárias já estão presentes, muitas vezes em estádios mais avançados da doença. O câncer de endométrio, por sua vez, costuma surgir após a menopausa e tem no sangramento vaginal anormal seu principal sinal de alerta, um sintoma que nunca deveria ser normalizado ou ignorado nessa fase da vida.
A
boa notícia por trás dos números
Apesar
da magnitude desses números, existe um ponto em comum entre todos os cânceres
ginecológicos que deveria ser o centro da mensagem de setembro: quando
descobertos precocemente, esses tumores têm altas taxas de tratamento
bem-sucedido. A diferença entre um diagnóstico feito no início e um diagnóstico
tardio, em praticamente todos os casos, é a diferença entre
um tratamento mais simples e um tratamento muito mais complexo e agressivo.
"Assim
como aprendemos, coletivamente, a associar outubro ao autoexame das mamas e à
mamografia, precisamos aprender a associar setembro à ida regular ao
ginecologista, ao papanicolau em dia, à atenção redobrada a sangramentos fora
do padrão e a sintomas persistentes que muitas vezes são minimizados. Não é
sobre gerar medo, é sobre gerar o mesmo hábito de cuidado que já conquistamos
com outras campanhas", completa o especialista.
Av. Ibirapuera, 2.907, conjunto 720, Moema, São Paulo.
Instagram: @clinicaandradesadalla

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