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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Constipação, diarreia, náusea e sensação de estômago cheio podem aparecer para quem usa ‘canetinhas’: como perceber mudanças no hábito intestinal


Olhar antes de dar descarga pode salvar vidas já que as características como formato e consistência das fezes fornecem informações importantes sobre o funcionamento do intestino de quem usa medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 e terapias relacionadas, usados no tratamento da obesidade e do diabetes. Isso porque, os medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam também no sistema gastrointestinal, podem provocar sintomas como náusea, vômitos, constipação, diarreia, desconforto abdominal e sensação prolongada de estômago cheio.

Segundo o cirurgião do aparelho digestivo Dr. Rodrigo Barbosa, mudanças no funcionamento intestinal durante o tratamento não devem provocar pânico, mas também não precisam ser simplesmente ignoradas.

“Quando iniciamos um medicamento que interfere no trato gastrointestinal, é possível perceber mudanças que antes não faziam parte da rotina. O mais importante é observar a intensidade, a duração e a evolução dos sintomas. Uma alteração ocasional é diferente de uma mudança persistente do hábito intestinal”, explica.
 

Você sabe identificar seu tipo de fezes?

Uma das ferramentas utilizadas para descrever a consistência das fezes é a Escala de Bristol, que as divide em tipos:

  • Fezes mais endurecidas, fragmentadas ou em formato de salsicha, mas com aspecto irregular, geralmente associadas à constipação.
  • Fezes com consistência mais macia, e costumam representar um padrão intestinal considerado adequado.
  • Fezes de menor consistência, chegando às fezes completamente líquidas, e podem estar relacionados à aceleração do trânsito intestinal e à diarreia.

“A Escala de Bristol é interessante porque transforma algo bastante subjetivo em uma informação que o próprio paciente consegue observar e relatar. Em vez de dizer apenas que o intestino ‘mudou’, ele consegue explicar melhor o que está acontecendo”, afirma Barbosa.


Por que as canetas emagrecedoras podem mexer com o intestino?

Parte da ação desses medicamentos envolve alterações na motilidade gastrointestinal e no esvaziamento do estômago, além dos mecanismos relacionados à saciedade. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas relatam ficar satisfeitas com quantidades menores de comida ou sentir que o alimento permanece no estômago por mais tempo.

O efeito, entretanto, pode vir acompanhado de desconfortos gastrointestinais, principalmente em determinadas fases do tratamento ou após ajustes de dose.

No intestino, as manifestações variam. Algumas pessoas apresentam constipação e passam a evacuar com menor frequência ou ter fezes mais endurecidas. Outras podem apresentar episódios de diarreia.

Isso significa que observar apenas quantas vezes se vai ao banheiro pode não contar toda a história.

“Uma pessoa pode evacuar regularmente, mas fazer muito esforço e eliminar fezes extremamente endurecidas. Outra pode perceber uma mudança importante na consistência mesmo sem grande alteração na frequência. Por isso, precisamos avaliar o conjunto”, explica o cirurgião.
 

Nem toda mudança é culpa do medicamento

Quem começa um tratamento para perda de peso frequentemente modifica também sua alimentação. Pode passar a comer porções menores, reduzir determinados grupos alimentares, consumir mais proteínas ou alterar significativamente a ingestão de fibras e líquidos. Todas essas mudanças também podem interferir no funcionamento intestinal.

Por isso, atribuir automaticamente qualquer sintoma gastrointestinal ao medicamento pode mascarar outros fatores — e até problemas que não têm relação com o tratamento.

“Se o hábito intestinal mudou, precisamos olhar o contexto. Houve mudança na alimentação? A ingestão de água diminuiu? O paciente está comendo menos fibras? Começou outro medicamento? Existem sintomas associados? A avaliação não pode se limitar à caneta”, ressalta Barbosa.


Quando a mudança merece atenção?

Dor abdominal importante ou progressiva, vômitos persistentes, incapacidade de manter hidratação, distensão abdominal acentuada, sangue nas fezes, fezes muito escuras ou mudanças persistentes e inexplicadas do hábito intestinal merecem avaliação médica.

“Olhar para o vaso sanitário é essencial para conhecer o próprio padrão intestinal e ajuda a perceber quando existe uma mudança relevante além de fornecer informações melhores para a consulta. Se o intestino mudou e não voltou ao seu padrão habitual, vale entender o motivo”, conclui Dr. Rodrigo Barbosa.

 

Dr Rodrigo Barbosa - cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. CEO do Instituto Medicina em Foco 


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