Para Gabi Sartori, da NEUROARQ® Academy, organização espacial,
materialidade, iluminação e mobiliário podem estimular a exploração e a
interação e criar limites mais claros para as telas
Quando Toy Story chegou aos cinemas, em 1995,
a franquia já tratava do impacto de uma novidade tecnológica sobre o brincar.
Buzz Lightyear, com luzes, sons e asas retráteis, parecia representar o futuro
diante de Woody, um brinquedo mais tradicional, acionado por uma corda.
Três décadas depois, Toy Story 5 leva esse
conflito a outra escala: Jessie e os demais brinquedos se sentem ameaçados por
Lilypad, um tablet inteligente que não apenas entretém Bonnie, mas lhe
apresenta um mundo de interação e promete ajudá-la a encontrar amigas. A
comparação lança uma questão para arquitetos e designers: como fazer o espaço
físico continuar interessante quando a tecnologia também passa a mediar os vínculos?
Para a arquiteta e urbanista Gabi Sartori,
cofundadora da NEUROARQ® Academy e especialista em neurociência e
desenvolvimento infantil, a resposta não está em excluir a tecnologia de todos
os contextos, nem em mantê-la disponível em todos eles. O projeto pode convidar
ao movimento, à imaginação e ao encontro, além de reservar momentos e ambientes
livres de telas.
“A tecnologia faz parte da infância
contemporânea. O desafio é impedir que ela se torne a única experiência
atraente do ambiente. Precisamos criar espaços nos quais a criança possa
escolher, explorar e interagir de outras maneiras, além de preservar situações
em que a tela não esteja presente”, afirma.
A
arquitetura também disputa atenção
Gabi explica que celulares e tablets passaram
a acompanhar refeições, descanso, convivência e brincadeiras. Com notificações,
vídeos curtos e recompensas imediatas, os dispositivos competem continuamente
com o ambiente.
Essa disputa também é influenciada pelo
projeto. Quando a tela está acessível, enquanto brinquedos, livros e materiais
permanecem escondidos, o espaço já orienta uma escolha. Estantes baixas,
objetos ao alcance das mãos, áreas livres e móveis que possam ser reorganizados
ampliam a autonomia e transformam o ambiente em um campo de exploração e
interação.
“Todo ambiente apresenta convites. Uma tela
ligada convida a olhar; um brinquedo visível, a tocar; uma área livre, a
movimentar o corpo. A arquitetura não determina o comportamento, mas pode
ampliar as possibilidades de escolha e tornar a exploração e a interação mais
acessíveis”, diz Gabi.
O
corpo como ponto de partida do projeto
A criança conhece o mundo caminhando,
tocando, ouvindo, equilibrando-se e testando distâncias. Por estar em pleno
desenvolvimento, ela não apenas ocupa o ambiente: relaciona-se com ele de
maneira intensa, quase simbiótica, e o transforma enquanto brinca. Projetar
para a infância, portanto, vai além da decoração: o espaço precisa oferecer
oportunidades de movimento, exploração, interação e descoberta.
A interatividade do espaço físico não precisa
copiar a lógica digital. Ela pode surgir em elementos que a criança toque,
mova, combine e reorganize, permitindo que sua ação produza respostas concretas
no ambiente. A configuração do mobiliário também interfere nas relações: mesas
compartilhadas, assentos frente a frente e ambientes que não tenham a televisão
como único ponto focal favorecem contato visual, conversa e atividades
coletivas.
Segundo Gabi, a alternativa ao excesso de
estímulos não é criar espaços vazios, mas diferenciar intensidade de qualidade
sensorial. Luz natural, conforto acústico, texturas, plantas e variações de
luminosidade oferecem uma experiência rica, material e concreta, sem reproduzir
a intensidade do digital.
Um ambiente visualmente carregado, com
excesso de cores, objetos e informações concorrentes, pode ampliar a dispersão.
Ruídos constantes dificultam a concentração e
impedem momentos de recuperação. Uma iluminação uniforme e muito intensa
durante todo o dia elimina variações que ajudariam a marcar atividade,
transição e descanso.
“O mundo físico não precisa imitar a
intensidade do digital para ser interessante. Sua força está na profundidade da
experiência: tocar um material, perceber uma mudança de luz, ouvir um som
distante ou observar algo que se transforma lentamente”, afirma.
Projetar diferentes níveis de estímulo também
é importante. Um mesmo ambiente pode oferecer áreas mais ativas, destinadas ao
movimento, à convivência e ao brincar, e espaços mais protegidos para leitura,
concentração ou descanso. Essa diversidade permite que a criança explore o
espaço e encontre o nível de interação adequado a diferentes momentos, em vez
de permanecer exposta a uma única intensidade ambiental.
Os
limites digitais também podem ser projetados
Para Gabi, o equilíbrio entre experiências
digitais e presenciais não depende apenas de regras familiares ou disciplina
individual. Em um contexto de discussão crescente sobre limites para celulares
nas escolas e acesso de crianças às redes sociais, o desenho dos espaços pode
dar suporte concreto a essa organização.
Quando todos os aparelhos permanecem
espalhados e disponíveis, o gesto de consultá-los tende a acontecer de maneira
automática. Para a criança, a simples presença da tela pode criar uma disputa
desigual com outras atividades. Um local específico para guardar e carregar celulares
e tablets cria uma barreira física e ajuda a marcar os momentos de uso.
Da mesma forma, alguns ambientes e situações
podem ser intencionalmente livres de telas e, quando fizer sentido, de acesso à
internet. Áreas de leitura e de brincar podem proteger a continuidade da
atividade; a mesa de refeições pode recuperar sua função de encontro; o quarto
pode favorecer a desaceleração antes do sono. Nesses casos, a ausência da tecnologia
não é uma rejeição ao digital, mas uma condição de projeto para que outras
experiências tenham tempo e espaço para acontecer.
Não se trata de eliminar a tecnologia da
infância contemporânea, mas de decidir onde e quando ela faz sentido. Em
escolas, bibliotecas e espaços culturais, os recursos digitais podem ocupar
áreas definidas, enquanto outros ambientes permanecem dedicados à
experimentação, à leitura, ao movimento e à produção coletiva. Em residências,
o projeto pode evitar que a tela seja o único centro organizador da sala e
criar configurações que estimulem diferentes usos.
“Quando a tecnologia ocupa todos os
ambientes, ela também ocupa todos os tempos. A arquitetura pode criar lugares
para conexão, mas também espaços deliberadamente livres dela, nos quais o
corpo, o brincar e as relações recuperem o protagonismo”, ressalta Gabi.
Das
telas para a vida real
Ao transformar um tablet em personagem, Toy
Story 5 torna visível uma disputa que normalmente acontece de forma silenciosa.
Lilypad não oferece apenas entretenimento: promete a Bonnie possibilidades de
interação e pertencimento. Ao longo da história, porém, o contato construído no
virtual revela seus limites diante da profundidade das relações presenciais. A
imagem das crianças diante do brilho azul das telas, vistas através das janelas
das casas, sintetiza uma infância fisicamente dentro do espaço, mas pouco
conectada a ele.
O filme também deixa claro que a absorção
pelas telas não é apenas infantil. Os adultos aparecem concentrados em seus
próprios dispositivos, e até a comunicação entre Bonnie e o pai passa por
mensagens. A reflexão, portanto, alcança casas, escolas, brinquedotecas,
bibliotecas, restaurantes, espaços culturais, áreas comuns de condomínios e
ambientes urbanos. Em todos eles, o projeto pode convidar crianças e adultos a
estarem de corpo presente, reduzir distrações e favorecer encontros.
Para Gabi, o neurodesenvolvimento ensina à
arquitetura que a criança aprende por meio de experiências concretas, ao
experimentar o mundo com todos os sentidos. Ela precisa tocar, mover-se, ouvir,
observar, manipular, imaginar e conviver. A tela restringe parte dessa
experiência sensorial; o ambiente físico, por sua vez, pode ampliar as
oportunidades de ação, exploração, interação, encontro e descoberta. Esse
convite também precisa alcançar o adulto, cuja presença ajuda a sustentar o
envolvimento da criança com o espaço e com as relações.
“Não podemos pedir presença se o ambiente não
oferece motivos para permanecer nele. Se queremos crianças mais curiosas,
participativas e conectadas ao próprio corpo, precisamos projetar espaços que
elas queiram explorar, com os quais possam interagir e que sustentem essas
experiências”, conclui.
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