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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Além dos pulmões, poluição do ar está associada a maior risco cardiovascular

Estudo internacional liderado pelo Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz acompanhou mais de 157 mil pessoas em 21 países e reforça impacto das partículas finas sobre coração e cérebro

 

No Dia de Combate à Poluição, celebrado em 14 de agosto, o alerta sobre a qualidade do ar também passa pela saúde. Embora seus efeitos sejam frequentemente associados a problemas respiratórios, a exposição prolongada à poluição atmosférica está relacionada também a doenças cardiovasculares, AVC, câncer de pulmão e outras doenças crônicas. 

Dados do State of Global Air 2025 mostram a dimensão do problema: em 2023, cerca de 7,9 milhões de mortes no mundo, aproximadamente uma em cada oito, foram atribuídas à poluição do ar1. Desse total, 6,8 milhões estavam relacionadas a doenças crônicas não transmissíveis. A exposição ao material particulado fino presente no ambiente, o chamado PM2,5, respondeu sozinha por aproximadamente 4,9 milhões de mortes. 

Essas partículas têm diâmetro inferior a 2,5 micrômetros e, por serem extremamente pequenas, conseguem atingir regiões profundas dos pulmões e chegar à circulação sanguínea, desencadeando processos inflamatórios e danos que não se restringem ao sistema respiratório. A Organização Mundial da Saúde destaca entre os principais impactos da poluição doenças cardíacas, AVC, doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão2.

 

Estudo com participação do Hospital Alemão Oswaldo Cruz 

Uma das pesquisas que ajudam a dimensionar esse impacto é uma análise do estudo internacional PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology), liderado no Brasil pelo Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. 

Publicado no The Lancet Planetary Health, o trabalho avaliou 157.436 adultos, entre 35 e 70 anos, de 747 comunidades em 21 países, investigando a associação entre a exposição prolongada ao PM2,5 e a ocorrência de doenças cardiovasculares3. A maior parte dos participantes, cerca de 140 mil, vivia em países de baixa e média renda.

Na população acompanhada, os pesquisadores estimaram que 13,9% dos eventos cardiovasculares poderiam ser atribuídos à exposição ao PM2,5. Para AVC, essa proporção chegou a 19,6%, ou praticamente um em cada cinco eventos observados no estudo3. 

Os resultados reforçam que a qualidade do ar deve ser considerada também na prevenção cardiovascular. Fatores individuais, como controle da pressão arterial, alimentação saudável, atividade física, tabagismo e acompanhamento médico, seguem fundamentais, mas a exposição ambiental representa um componente de risco que não depende apenas das escolhas de cada pessoa.

Um estudo brasileiro publicado em 2026 nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia reforça esse cenário. Ao analisar os bairros do município do Rio de Janeiro entre 2000 e 2019, pesquisadores observaram ampla exposição da população a concentrações elevadas de PM2,5 e associação entre a poluição atmosférica e a mortalidade por doenças do aparelho circulatório4. 

Além do coração e dos pulmões, evidências mais recentes vêm ampliando a compreensão dos efeitos da poluição sobre o organismo. A OMS aponta associações também com diabetes, alterações da função renal e declínio cognitivo, e o State of Global Air 2025 passou a estimar o impacto da poluição sobre a demência. 

Para especialistas, reduzir a exposição à poluição atmosférica exige tanto medidas individuais de proteção em períodos de pior qualidade do ar quanto políticas públicas voltadas à redução das emissões, ao monitoramento da qualidade do ar e ao planejamento das cidades.

  

Hospital Alemão Oswaldo Cruz

 

Referências:

  1. HEALTH EFFECTS INSTITUTE. State of Global Air 2025. Boston: Health Effects Institute, 2025. Disponível em: https://www.stateofglobalair.org/resources/report/state-global-air-report-2025. Acesso em: 07 ago. 2026. (stateofglobalair.org)
  2. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Air pollution: tackling a critical driver of the global NCD crisis. Geneva: WHO, 3 jul. 2025. Disponível em: https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/air-pollution--tackling-a-critical-driver-of-the-global-ncd-crisis. Acesso em: 07 ago. 2026.
  3. HYSTAD, Perry et al. Associations of outdoor fine particulate air pollution and cardiovascular disease in 157 436 individuals from 21 high-income, middle-income, and low-income countries (PURE): a prospective cohort study. The Lancet Planetary Health, v. 4, n. 6, p. e235-e245, 2020. DOI: 10.1016/S2542-5196(20)30103-0. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lanplh/article/PIIS2542-5196%2820%2930103-0/fulltext. Acesso em: 10 ago. 2026.
  4. MOURA, Paulo Henrique de et al. Impacto da poluição do ar por MP2,5 na mortalidade por doenças do aparelho circulatório nos bairros do município do Rio de Janeiro (2000-2019). Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 123, n. 1, e20250459, 2026. DOI: 10.36660/abc.20250459. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/8gY64NJkwjQQkHtBhR6k8Vb/?lang=pt. Acesso em: 10 ago. 2026. (abccardiol.org)

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