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| Solenopsis invicta, conhecida por picadas dolorosas Alex Wild |
Um estudo
conduzido por pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) alerta
para a perigosa expansão das formigas-de-fogo que vem ocorrendo no território
brasileiro, com riscos para a saúde pública e para a biodiversidade. A pesquisa
acompanhou o movimento silencioso de dispersão de duas espécies que vem
ganhando as cidades nas últimas décadas como consequência da urbanização
descontrolada.
As espécies das
formigas estudadas são a Solenopsis saevissima e a Solenopsis invicta.
A primeira, nativa das áreas de florestas da Amazônia, ganhou terreno ao longo
dos anos e atualmente pode ser encontrada em 16 estados, entre eles Rio Grande
do Norte, Alagoas e Espírito Santo, locais em que foram registradas
recentemente.
Já a invicta,
originalmente concentrada mais nas áreas alagadas do Pantanal, avançou para 11
estados, sendo recentemente vista no Rio de Janeiro, Piauí e em Sergipe. Essa
espécie é conhecida por suas picadas bastante dolorosas, que costumam formar
bolhas e causar fortes reações alérgicas – daí a preocupação com a saúde
pública ao proliferar e circular em centros urbanos.
O estudo,
publicado no periódico científico Biological Invasions, também reuniu biólogos e pesquisadores do Museu de
Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), do Museu Paraense Emílio Goeldi,
da UNESP de Rio Claro e do Kompetenzzentrum für Biodiversität & Integrative
Taxonomie der Insekten – Institut für Biologie, Universität Hohenheim, da
Alemanha. Ele integra um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp - Processo nº 2023/17547-4).
“Este apoio foi
fundamental para que os pesquisadores realizassem visitas às coleções
biológicas e efetuassem coletas em localidades sem registros prévios de
espécies de formigas-de-fogo, bem como pudessem realizar as análises
moleculares para a confirmação das espécies”, destaca a Profa. Dra. Maria
Santina de Castro Morini, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em
Biotecnologia da UMC e do estudo.
Décadas de
análises
A constatação da
invasão dessas espécies de formigas-de-fogo foi possível após o grupo de
pesquisadores analisar mais de quatro mil registros, entre levantamentos de
campos e outros dados de coleções biológicas de diferentes estados brasileiros
num período que abrange 124 anos.
“Revisamos e
analisamos informações do ano de 1900 a 2024 e separamos as informações em cinco
décadas, para entender e reconstruir de forma detalhada a trajetória de
dispersão dessas espécies. Assim, pudemos identificar padrões relacionados às
transformações ambientais, a partir da utilização de coordenadas geográficas
para a geração de mapas e modelos que nos deram os padrões de expansão de ambas
as espécies, bem como sua relação com a fragmentação da paisagem ao longo do
tempo”, explica Victor Hideki Nagatani, pós-graduando da UMC e um dos autores
do estudo.
Nagatani destaca
que os resultados das análises apontam que fatores como a urbanização e a
fragmentação de habitats naturais tiveram e seguem tendo papel central nesse
processo: “Essas mudanças no uso do solo criam condições favoráveis para a
expansão das formigas, que apresentam elevada capacidade de adaptação e
competição com espécies nativas, causando impactos negativos à biodiversidade,
para além do risco à saúde pública, provocado pelas ferroadas e reações severas
em humanos”.
Os achados da
pesquisa dão mais um importante sinal de alerta sobre como as ações humanas
influenciam diretamente a dinâmica dos ecossistemas, além de reforçarem a
importância do monitoramento de espécies invasoras, como as formigas-de-fogo.
“Ao integrar dados históricos e abordagens científicas contemporâneas, o estudo
contribui significativamente para o avanço do conhecimento em biotecnologia,
biodiversidade e conservação ambiental, além de subsidiar estratégias para a
construção de ambientes mais sustentáveis e resilientes”, conclui Nagatani.

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