No Mês dos
Pais, neurologista destaca a paternidade neurodivergente e o diagnóstico tardio
que transforma vidas
Desde há
muito tempo, o autismo tem sido subdiagnosticado em adultos, especialmente nos
homens que se tornaram pais. São pessoas que, mesmo convivendo com dificuldades
de interação social, rotinas rígidas e interesses específicos, seguiram suas
vidas, casaram-se, tiveram filhos e hoje buscam compreender por que carregam
tanto sofrimento silencioso.
"No Mês
dos Pais, o convite é para um olhar mais amplo e inclusivo sobre a paternidade.
Afinal, nem todos os pais seguem os mesmos padrões de comportamento, expressão
emocional ou comunicação", explica o Dr. Matheus Trilico, neurologista
referência no diagnóstico e acompanhamento de adultos com autismo.
Dados
emergentes indicam um crescimento significativo no diagnóstico tardio de TEA em
adultos no Brasil. Esta tendência revela uma realidade que permanecia oculta:
milhares de pais descobrindo, tardiamente, que estão no espectro autista.
O Despertar
Através dos Filhos
Muitos
desses homens só desconfiam da possibilidade de estarem no espectro após o
diagnóstico de um filho. "É comum que, ao acompanharem a avaliação do
filho, comecem a se identificar com os traços apresentados e iniciem uma
jornada de autoconhecimento que, muitas vezes, traz alívio", explica Dr.
Trilico.
Pesquisas
sugerem que uma parcela significativa de pais diagnosticados com TEA na idade
adulta relataram uma transformação profunda em sua compreensão sobre
paternidade. "Finalmente entendi por que sempre me senti diferente, por
que as interações sociais eram tão desafiadoras" – este é um relato comum
entre esses pais.
Segundo Dr.
Trilico, essa descoberta tardia é especialmente significativa. "Muitos
homens recebem o diagnóstico de TEA apenas quando seus filhos são avaliados. É
um momento de dupla transformação: compreender o filho e compreender a si mesmo.
Imagine a revolução interna que isso representa", explica o médico.
Desafios
Únicos da Paternidade Autista
O
diagnóstico em adultos não é simples. Envolve escuta atenta, análise da
história de vida, observação clínica e, sobretudo, empatia. E quando esse homem
é pai, surgem novos desafios: a sobrecarga sensorial da rotina com crianças, as
demandas emocionais intensas da paternidade, a culpa por não conseguir se
comunicar da forma esperada, o medo de ser julgado ou de "falhar como
pai".
"A
alexitimia, dificuldade em identificar e expressar emoções, afeta uma parcela
considerável dos adultos com TEA. Isso pode criar barreiras na comunicação
emocional entre pai e filho, mas longe de ser uma limitação insuperável,
representa apenas uma forma diferente de vivenciar a paternidade”, destaca Dr.
Trilico.
Estudos
científicos documentam que pais autistas frequentemente enfrentam dificuldades
específicas: interpretação de sinais sociais sutis dos filhos, comunicação
emocional complexa e situações sociais imprevisíveis. "Mas é fundamental
compreender que essas dificuldades não diminuem o amor ou o comprometimento
paterno. Pelo contrário, muitas vezes intensificam a busca por formas
alternativas de conexão", enfatiza Dr. Trilico.
Forças
Ocultas da Paternidade Neurodivergente
O que
precisamos entender é que o pai autista não é menos afetivo ou menos presente.
Ele sente profundamente, apenas expressa de outra forma. Quando há apoio,
acolhimento e, principalmente, informação, esse pai floresce em sua melhor
versão.
Pesquisas
emergentes revelam características notáveis em pais com TEA. Estudos
longitudinais indicam que filhos de pais autistas frequentemente apresentam
desenvolvimento positivo em áreas como organização pessoal, cumprimento de
rotinas e habilidades acadêmicas específicas.
"Pais
autistas tendem a criar rotinas muito organizadas para seus filhos, estabelecem
regras claras e são extremamente consistentes em suas abordagens educativas. A
mente autista paterna oferece uma estrutura que muitas crianças, especialmente
as neurodivergentes, encontram reconfortante e previsível. É como um porto
seguro em meio ao caos do mundo”, observa Dr. Trilico.
A capacidade
de foco intenso permite que dediquem atenção profunda aos interesses de seus
filhos. "Pais autistas frequentemente se tornam especialistas nos temas
que fascinam seus filhos, criando conexões profundas através de interesses
compartilhados. Quantos pais se tornaram experts em dinossauros, trens ou
astronomia só para se conectar com seus pequenos?", complementa Dr.
Trilico com um sorriso.
Uma
Linguagem Própria do Amor
Dr. Tony
Attwood, renomado pesquisador australiano, documentou em seus estudos que pais
autistas frequentemente desenvolvem sistemas únicos de comunicação com seus
filhos. "Eles podem não expressar afeto da forma tradicional, mas criam
linguagens próprias de carinho – seja através de atividades compartilhadas,
interesses especiais ou formas não-verbais de demonstrar amor", detalha
Dr. Trilico.
A
honestidade direta, característica comum no TEA, resulta em comunicação clara e
sem ambiguidades. "Crianças de pais autistas frequentemente relatam
sentir-se seguras porque sabem exatamente o que esperar – não há mensagens
confusas ou duplos sentidos. Existe uma transparência emocional que pode ser
muito reconfortante", destaca Dr. Trilico.
O Papel da
Família e Sociedade
Para Dr.
Trilico, nesse contexto, o papel da família e da sociedade é fundamental: dar
espaço para que esses homens sejam pais do seu jeito, respeitando suas
necessidades e limites. A literatura científica indica que pais autistas que
recebem orientação específica apresentam redução significativa no estresse
parental e melhoria na qualidade da relação familiar.
"O
suporte não deve focar em 'corrigir' o pai autista, mas em potencializar suas
forças naturais e desenvolver estratégias para os desafios específicos. Grupos
de apoio para pais neurodivergentes têm se mostrado especialmente eficazes. É
emocionante ver como esses homens florescem quando encontram outros que
compartilham experiências similares", enfatiza Dr. Trilico.
A clínica
também tem um papel vital, oferecendo suporte emocional, orientação e, em
muitos casos, terapias que ajudam a lidar com as dificuldades de comunicação e
regulação emocional. "Estamos caminhando para uma era onde a neurodiversidade
paterna será vista como uma variação natural e valiosa, não como uma
deficiência a ser corrigida", projeta o neurologista.
Libertação
Através do Autoconhecimento
Receber o
diagnóstico pode ser profundamente libertador. "Muitos pais finalmente
compreendem por que certas situações sociais ou emocionais da paternidade eram
tão desafiadoras. Isso permite desenvolver estratégias mais eficazes e,
principalmente, mais autênticas", explica Dr. Matheus.
Estudos
qualitativos indicam que a maioria dos pais recém-diagnosticados relatam
melhoria significativa na qualidade da relação com os filhos após o
diagnóstico. "A autocompreensão permite que sejam pais mais autênticos e
eficazes. É como se finalmente pudessem parar de fingir ser alguém que não são",
destaca Dr. Trilico.
Celebrando a
Diversidade Paterna
No Mês dos
Pais, fica o convite à reflexão: nem todo pai vai dizer "eu te amo"
do jeito esperado. Mas talvez ele diga construindo rotinas carinhosas, mantendo
a ordem familiar, explicando o mundo com profundidade infinita ou fazendo o
mesmo café especial todas as manhãs.
"Cada
pai autista é único, assim como cada pai neurotípico. O que importa não é como
o cérebro funciona, mas como o coração ama. A paternidade autista existe e
merece ser compreendida, acolhida e celebrada. Esses pais não são menos pais –
são pais de uma forma diferente, e isso é lindo”, conclui Dr. Trilico
Neste mês
dos pais, a sociedade é convidada a ampliar sua compreensão sobre as múltiplas
formas de ser pai, reconhecendo que o amor paterno se manifesta de maneiras
diversas, todas igualmente válidas e preciosas. Porque no final das contas, ser
pai é sobre amor, presença, cuidado e isso não tem apenas uma forma de existir.
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818. Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR. Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista
Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/
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