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sábado, 12 de julho de 2025

Individuação e Luto Infantil: O Que a Psicologia Junguiana Nos Ensina


A morte de Marília Mendonça mobilizou um luto coletivo que atravessou o país. Mas, para além do sofrimento público, há uma criança que precisa elaborar sua dor de forma silenciosa e profundamente pessoal. Desde o falecimento da mãe, a guarda do filho ficou consensualmente compartilhada entre o pai, Murilo Huff, e a avó materna, Ruth Moreira. uma decisão tomada com afeto e foco no bem-estar do menino. Mas, sob a lente da Psicologia Junguiana, esse arranjo revela camadas mais profundas, simbólicas e, muitas vezes, invisíveis. 

Na Psicologia Analítica, a criança representa mais do que apenas uma fase da vida: ela é símbolo de renascimento, continuidade psíquica e potencial transformador. Após uma perda traumática, é comum que familiares e a sociedade projetem nela esperanças, dores não resolvidas, e até ideais de redenção. Essa projeção, ainda que muitas vezes inconsciente e bem-intencionada, pode se tornar um peso para o processo de individuação , o caminho único e interior de cada ser humano rumo à própria individualidade. 

No inconsciente coletivo, os arquétipos parentais do Pai e da Mãe continuam vivos, mesmo quando um deles está ausente no plano físico. A criança, então, precisa encontrar internamente esse equilíbrio: reconhecer e integrar o amor e a autoridade paterna, bem como o cuidado e a nutrição materna. Neste contexto, a presença da avó pode evocar o arquétipo da Grande Mãe, figura poderosa que pode tanto acolher quanto, simbolicamente, sobrecarregar , especialmente quando a dor da filha falecida se mistura à missão de criar o neto. 

Além disso, vivenciar o luto na infância já é, por si só, uma travessia delicada. Mas quando esse luto se torna público e acompanhado de manchetes, opiniões e julgamentos, surge a sombra coletiva: o lado inconsciente e projetivo da sociedade que, ao tentar “participar” da história, pode invadir a intimidade da criança, confundindo ainda mais suas vivências emocionais. 

A criança será sempre lembrada como “filho de Marília Mendonça”, e talvez precise de muito tempo e espaço para descobrir quem é para além disso. Na jornada da individuação, esse é um ponto crucial: encontrar um sentido próprio, mesmo quando o mundo insiste em contar sua história por você. 

Que possamos, como sociedade, cultivar mais silêncio respeitoso do que opiniões. Mais contenção do que curiosidade. E, principalmente, mais empatia diante do mistério e da dor que envolvem o crescimento de uma criança marcada por uma perda tão grande.


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