O caso Juliana Marins escancara um tipo de luto difícil de elaborar: marcado pela brutalidade da perda, pela exposição pública e pelo peso do julgamento coletivo. A sociedade assiste. Quem ama tenta sobreviver
A
queda, a demora no resgate e a morte de Juliana Marins comoveram o país. Mas o
impacto emocional dessa tragédia vai além do choque imediato, ele revela
feridas profundas e pouco discutidas: o culto ao julgamento público, a
dificuldade de lidar com a morte violenta e a distorção coletiva da dor.
Juliana,
carioca, jovem e cheia de vida, viajava sozinha pela Indonésia quando sofreu
uma queda fatal durante a escalada do Monte Rinjani, um dos vulcões mais altos
do país. O caso gerou indignação, mobilização nas redes sociais e atenção
internacional. Mas também reacendeu discursos antigos, violentos e
culpabilizantes, quase sempre dirigidos às mulheres.
Segundo
a neuropsicóloga Carla Salcedo, especialista em luto, o caso escancara não só
uma tragédia pessoal, mas dois tipos de luto que são especialmente difíceis de
elaborar: o luto pela ausência de ritualização adequada da morte e o luto
coletivo, impulsionado pela comoção social e amplificado pelo tribunal da
internet.
1. Julgamento
em vez de empatia
A
primeira reflexão proposta por Carla diz respeito à forma como a sociedade
ainda reage à morte de mulheres, especialmente quando ocorre em contextos
públicos ou violentos. A tendência de julgar o comportamento da vítima — onde
estava, como se vestia, com quem saiu, substitui o acolhimento pela crítica.
“É
como se estivéssemos sempre prontos a encontrar uma justificativa que torne a
vítima, de alguma forma, responsável pela própria morte”, afirma a
especialista. Essa postura, profundamente enraizada no machismo estrutural,
transforma a morte em um julgamento moral retroativo. E impede que a
tragédia cumpra seu papel simbólico: nos fazer refletir sobre a vida.
Juliana
foi julgada por viver. Por ser jovem, sair, dançar, viajar e estar presente nas
redes. E esse julgamento social se tornou parte do sofrimento de quem a
conhecia e a amava.
2. Dois tipos
de luto, ambos complexos
No
caso de Juliana, duas formas de luto se sobrepõem:
- O luto sem possibilidade de elaboração ritual plena, que acontece
quando há violência, choque e ausência de preparo;
- O luto coletivo, vivido por milhares de pessoas que acompanham o
caso com comoção, mas que, sem convivência real com a vítima, projetam,
opinam e compartilham sem filtro.
Segundo
Carla, essas experiências são mais frequentes do que se imagina e afetam
diretamente a saúde mental dos enlutados. “O luto é um processo. E quando ele
começa atravessado por sensacionalismo, incerteza e julgamento público, ele tem
grandes chances de se complicar.”
Na
prática, isso significa maior risco de depressão, crises de ansiedade,
isolamento e sensação de desconexão com a própria identidade.
3. Quando
falta o rito, sobra angústia
Mesmo
com o corpo de Juliana localizado, o processo de despedida foi invadido pela
violência dos fatos e pela superexposição pública. Isso compromete o que os
especialistas chamam de materialização da morte, o conjunto de rituais
simbólicos e afetivos que ajudam o cérebro a compreender e aceitar a perda.
“O
luto sem rito é congelado. A pessoa não consegue elaborar porque falta um
encerramento simbólico. O velório, o enterro, as homenagens... tudo isso tem
função psíquica. Ajuda a organizar o caos”, explica Carla.
Em
contextos assim, surgem três reações comuns e altamente angustiantes:
- Dificuldade em acessar emoções ou expressá-las;
- Sensação de que ‘a ficha não caiu’, o que trava o processo de
aceitação;
- Intensificação de culpa, raiva e desesperança, que podem evoluir
para quadros graves de sofrimento psíquico.
4. O peso do
luto coletivo e do tribunal virtual
O
luto coletivo, embora possa gerar apoio e comoção social, é uma faca de dois
gumes. Quando impulsionado por redes sociais, ele transforma a dor em objeto
público. O que deveria ser um espaço de acolhimento vira palco para
especulações, comentários cruéis e julgamentos morais, por parte de pessoas que
nunca sequer conheceram a vítima.
“Os
enlutados são forçados a compartilhar sua dor com milhares de desconhecidos. E,
pior, a se defender dela. Precisam lidar com perguntas intrusivas, suposições
maldosas e interpretações distorcidas”, diz Carla.
Esse
processo afasta o sujeito de si mesmo. A dor deixa de ser íntima e passa a ser
socialmente performada ou silenciada. É o luto que precisa ser administrado para
os outros, o que gera uma segunda camada de sofrimento: a perda de si no
meio da perda do outro.
5. Apoio
fugaz, dor persistente
A lógica das redes
sociais produz uma armadilha cruel: o sofrimento vira conteúdo. Enquanto a
tragédia rende cliques, a vítima é lembrada. Mas assim que a “novidade” passa,
o caso some da timeline e os enlutados são deixados sozinhos com o peso da
ausência.
“Vivemos em uma
sociedade onde o apoio é efêmero e o algoritmo dita a relevância da dor. Quando
o caso some das redes, os enlutados ainda estão tentando levantar da queda”,
pontua Carla.
Essa realidade nos obriga a refletir: o que realmente fazemos por quem sofre? Postamos? Comentamos? Ou ouvimos, acompanhamos, acolhemos, fora da internet? O luto real exige presença real.
Juliana Marins foi
vítima de uma situação cruel e de uma exposição que segue ferindo, mesmo após
sua morte. Sua história nos coloca diante de uma escolha: vamos continuar
julgando vidas perdidas como se fossem enredos de entretenimento? Ou vamos
finalmente aprender a cuidar de quem sofre, com empatia, escuta e presença?
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