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sábado, 12 de julho de 2025

A DOR DEPOIS DA TRAGÉDIA: CINCO ALERTAS QUE A MORTE DE JULIANA MARINS IMPÕE À SOCIEDADE

O caso Juliana Marins escancara um tipo de luto difícil de elaborar: marcado pela brutalidade da perda, pela exposição pública e pelo peso do julgamento coletivo. A sociedade assiste. Quem ama tenta sobreviver

 

A queda, a demora no resgate e a morte de Juliana Marins comoveram o país. Mas o impacto emocional dessa tragédia vai além do choque imediato, ele revela feridas profundas e pouco discutidas: o culto ao julgamento público, a dificuldade de lidar com a morte violenta e a distorção coletiva da dor.

Juliana, carioca, jovem e cheia de vida, viajava sozinha pela Indonésia quando sofreu uma queda fatal durante a escalada do Monte Rinjani, um dos vulcões mais altos do país. O caso gerou indignação, mobilização nas redes sociais e atenção internacional. Mas também reacendeu discursos antigos, violentos e culpabilizantes, quase sempre dirigidos às mulheres.

Segundo a neuropsicóloga Carla Salcedo, especialista em luto, o caso escancara não só uma tragédia pessoal, mas dois tipos de luto que são especialmente difíceis de elaborar: o luto pela ausência de ritualização adequada da morte e o luto coletivo, impulsionado pela comoção social e amplificado pelo tribunal da internet.

 

1. Julgamento em vez de empatia

A primeira reflexão proposta por Carla diz respeito à forma como a sociedade ainda reage à morte de mulheres, especialmente quando ocorre em contextos públicos ou violentos. A tendência de julgar o comportamento da vítima — onde estava, como se vestia, com quem saiu, substitui o acolhimento pela crítica.

“É como se estivéssemos sempre prontos a encontrar uma justificativa que torne a vítima, de alguma forma, responsável pela própria morte”, afirma a especialista. Essa postura, profundamente enraizada no machismo estrutural, transforma a morte em um julgamento moral retroativo. E impede que a tragédia cumpra seu papel simbólico: nos fazer refletir sobre a vida.

Juliana foi julgada por viver. Por ser jovem, sair, dançar, viajar e estar presente nas redes. E esse julgamento social se tornou parte do sofrimento de quem a conhecia e a amava.


2. Dois tipos de luto, ambos complexos

No caso de Juliana, duas formas de luto se sobrepõem:

  • O luto sem possibilidade de elaboração ritual plena, que acontece quando há violência, choque e ausência de preparo;
  • O luto coletivo, vivido por milhares de pessoas que acompanham o caso com comoção, mas que, sem convivência real com a vítima, projetam, opinam e compartilham sem filtro.

Segundo Carla, essas experiências são mais frequentes do que se imagina e afetam diretamente a saúde mental dos enlutados. “O luto é um processo. E quando ele começa atravessado por sensacionalismo, incerteza e julgamento público, ele tem grandes chances de se complicar.”

Na prática, isso significa maior risco de depressão, crises de ansiedade, isolamento e sensação de desconexão com a própria identidade.

 

3. Quando falta o rito, sobra angústia

Mesmo com o corpo de Juliana localizado, o processo de despedida foi invadido pela violência dos fatos e pela superexposição pública. Isso compromete o que os especialistas chamam de materialização da morte, o conjunto de rituais simbólicos e afetivos que ajudam o cérebro a compreender e aceitar a perda.

“O luto sem rito é congelado. A pessoa não consegue elaborar porque falta um encerramento simbólico. O velório, o enterro, as homenagens... tudo isso tem função psíquica. Ajuda a organizar o caos”, explica Carla.

Em contextos assim, surgem três reações comuns e altamente angustiantes:

  • Dificuldade em acessar emoções ou expressá-las;
  • Sensação de que ‘a ficha não caiu’, o que trava o processo de aceitação;
  • Intensificação de culpa, raiva e desesperança, que podem evoluir para quadros graves de sofrimento psíquico.

 

4. O peso do luto coletivo e do tribunal virtual

O luto coletivo, embora possa gerar apoio e comoção social, é uma faca de dois gumes. Quando impulsionado por redes sociais, ele transforma a dor em objeto público. O que deveria ser um espaço de acolhimento vira palco para especulações, comentários cruéis e julgamentos morais, por parte de pessoas que nunca sequer conheceram a vítima.

“Os enlutados são forçados a compartilhar sua dor com milhares de desconhecidos. E, pior, a se defender dela. Precisam lidar com perguntas intrusivas, suposições maldosas e interpretações distorcidas”, diz Carla.

Esse processo afasta o sujeito de si mesmo. A dor deixa de ser íntima e passa a ser socialmente performada ou silenciada. É o luto que precisa ser administrado para os outros, o que gera uma segunda camada de sofrimento: a perda de si no meio da perda do outro.

 

5. Apoio fugaz, dor persistente

A lógica das redes sociais produz uma armadilha cruel: o sofrimento vira conteúdo. Enquanto a tragédia rende cliques, a vítima é lembrada. Mas assim que a “novidade” passa, o caso some da timeline e os enlutados são deixados sozinhos com o peso da ausência.

“Vivemos em uma sociedade onde o apoio é efêmero e o algoritmo dita a relevância da dor. Quando o caso some das redes, os enlutados ainda estão tentando levantar da queda”, pontua Carla.

Essa realidade nos obriga a refletir: o que realmente fazemos por quem sofre? Postamos? Comentamos? Ou ouvimos, acompanhamos, acolhemos, fora da internet? O luto real exige presença real. 

Juliana Marins foi vítima de uma situação cruel e de uma exposição que segue ferindo, mesmo após sua morte. Sua história nos coloca diante de uma escolha: vamos continuar julgando vidas perdidas como se fossem enredos de entretenimento? Ou vamos finalmente aprender a cuidar de quem sofre, com empatia, escuta e presença?

  

Carla Salcedo - psicóloga, neuropsicanalista e especialista em traumas, lutos e emergências humanitárias. Formada desde 2005, possui especializações em Psicossomática, Neurociências aplicadas à Psicologia e Terapia do Luto, além de formação como terapeuta EMDR e aperfeiçoamento em programas internacionais de enriquecimento intelectual. Sua abordagem clínica é fundamentada na neuropsicanálise, com foco no acolhimento de dores emocionais profundas e na construção de estratégias de superação e ressignificação. Com mais de duas décadas de atuação, Carla tem trajetória marcada por experiências em contextos diversos, da oncologia pediátrica às instituições de ensino, e pela criação de projetos inovadores como o COZER, que une escuta terapêutica e simbolismo afetivo em torno da mesa. Também atua como palestrante e docente, promovendo reflexões sobre saúde mental, comunicação, comportamento e relações humanas com profundidade e leveza.
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