Opinião
O assistencialismo
solidifica a pobreza. O mais grave, porém, é que não acaba com ela, como
deveria ser o objetivo
Embora seja uma prioridade máxima
erradicar a pobreza no Brasil, persistem muitas dúvidas quanto às políticas
públicas mais eficazes para a conquista dessa meta. Desde a promulgação da
Constituição de 1988, parte relevante do Orçamento estatal tem sido destinada,
de modo correto, à educação e à saúde, com impacto positivo sobre os segmentos
mais carentes da população. Outra vertente é a distribuição direta de renda,
como no programa Bolsa Família, que é um justo socorro, mas não pode ser um
meio perene de subsistência das pessoas e famílias. O que seria medida
excepcional tornou-se regra, ampliada pela lógica assistencialista e
eleitoreira dos governos de distintos partidos. Em 2022, ano eleitoral, o
benefício foi duplicado, com o intuito e na esperança de favorecer os
candidatos. Ademais, variações desse projeto espalham-se por Estados e
municípios.
O Orçamento do governo federal para
o exercício de 2024 revelou com clareza a distribuição dos recursos
assistencialistas: R$ 168,2 bilhões ao Bolsa Família, pago a 44,4% das famílias
brasileiras; R$ 111,1 bilhões ao Benefício de Prestação Continuada (BPC); e R$
3,5 bilhões ao Auxílio Gás. O total do dinheiro despendido foi de R$ 282,8
bilhões, ante apenas R$ 62,2 bilhões em investimentos públicos em
infraestrutura. O assistencialismo solidifica a pobreza. O mais grave, porém, é
que não acaba com ela, como deveria ser o objetivo de uma política pública
eficaz de caráter social.
Esse modelo de distribuição direta de renda
implementado no Brasil é permeado por fortes distorções, a começar pelo fato de
o programa ter porta de entrada, mas não de saída, pois apenas provê dinheiro
às pessoas, sem oferecer alternativas de ingresso no mercado de trabalho ou em
outra atividade que permita a independência dos beneficiários. Paradoxalmente,
persiste no País a falta mão de obra em vários setores de atividade. Além
disso, parte dos recursos aplicados nessa política pública é gasta pelos
beneficiários nos cassinos virtuais. Segundo o Banco Central, as bets
abocanharam R$ 3 bilhões do Bolsa Família em agosto de 2024, 21% dos valores
transferidos às famílias naquele mês. É o “bolsa aposta”.
Os valores distribuídos, por não advirem do trabalho,
não elevam a produção e geram inflação. Para contê-la, aumentamse os juros, que
seguem muito altos, agravando o custo Brasil, ao lado de impostos e encargos
trabalhistas exagerados, insegurança jurídica e gargalos logísticos. Tais ônus
têm, há décadas, desestimulado o investimento produtivo, impedindo o aumento da
produção, tornando mais atrativo aplicar recursos no mercado financeiro e
favorecendo a especulação, que não gera emprego, renda e desenvolvimento.
Além disso, a política assistencialista agrava o já
elevado rombo fiscal acumulado ao longo de décadas. Visando reduzi-lo, a
prática de sucessivos governos tem se baseado na mesmice de transferir cada vez
mais ao Estado o dinheiro dos setores produtivos e da sociedade, via impostos e
taxas, como se observa com o recente aumento do Imposto sobre Operações
Financeiras (IOF), cuja revisão é tema de discussão entre Executivo,
Legislativo e setor privado.
Com as contas públicas pressionadas, os investimentos
em infraestrutura – que multiplicam renda, contribuem para o aumento da
produtividade e proporcionam mais bem-estar à população – são cada vez mais
transferidos para o setor privado, diretamente impactado pela elevação do custo
de capital. Em 2024, dos R$ 259,3 bilhões aplicados, R$ 197,1 bilhões tiveram
origem na iniciativa particular.
O mais grave é que a taxa total de investimentos
produtivos no Brasil é hoje de 17% do Produto Interno Bruto (PIB), mas seriam
necessários ao menos 24% para ascendermos da condição de país de renda média à
alta. A China, por exemplo, manteve cerca de 36% entre 1952 e 2021, chegando a
43% naquele último ano. Resultado: centenas de milhões saíram da miséria e a
nação asiática tornou-se detentora do segundo maior PIB global.
Devido ao desestímulo ao investimento, vai sendo
criado consenso entre os economistas de que o Brasil pode crescer no máximo 2%
ao ano para não comprometer o controle da inflação. A impossibilidade de
promover aumento mais expressivo do PIB é uma absurda contradição num país que
ainda tem cerca de 60 milhões de habitantes na faixa da pobreza (IBGE/2023).
Essa nossa “república dos excluídos” equivale a toda a população da Itália, a
quinta maior da Europa. Portanto, precisamos gerar empregos em grande escala e
transformar o trabalho digno no principal fator de justiça social e
distribuição de renda, metas que defendo com ênfase.
Porém, estamos desmontando nossa força produtiva,
aposentando precocemente trabalhadores e empreendedores e criando uma base
econômica insustentável. No fim, numa triste ironia, os mais prejudicados são
justamente aqueles que as políticas assistencialistas pretendem proteger.
Eduardo Capobianco - CEO da Agis, é vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Nenhum comentário:
Postar um comentário