A Importância da Empatia na Vida a Dois
Muito ouvimos
falar sobre empatia e sobre a importância de se colocar no lugar do outro.
Mas como funciona
isso, no dia-a-dia, e como usar esta habilidade na relação com meu cônjuge?
Nós, seres
humanos, necessitamos atribuir significado as nossas vivências e compreender os
acontecimentos da vida.
Socialmente,
aprendemos a interpretar os fatos pela ótica do juízo de valor e
constantemente, enquadramos pessoas ou situações em “certo” ou “errado” e
"bom" ou "ruim".
Acontece, que essa
polarização rotula um fato, comportamento ou pessoa e limita a nossa
percepção, compreensão e logo, a nossa forma de se posicionar e agir.
Se julgo uma
situação ou uma pessoa como “boa” ou “certa”, eu prossigo, ou seja, entendo que
a situação está alinhada com meus valores e dou continuidade a interação.
Em contrapartida, se
julgo como “errada” ou “ruim”, me distancio da possibilidade de um diálogo que
propicie a compreensão e o entendimento dos fatores que motivaram aquela
situação ou comportamento. Nesta perspectiva, a empatia não se estabelece e
a interação fica prejudicada podendo ser o ponto de partida para brigas,
competição e conflitos.
Quando as relações
ficam baseadas no paradigma do “certo ou errado” e do “bom ou ruim” favorece
relacionamentos baseados na intolerância, na crítica, na desqualicação, na
mágoa e logo, no distanciamento emocional e na perda de conexão entre as
pessoas.
A palavra empatia tem origem no termo
grego empatheia e significava "paixão". A empatia é uma
habilidade relacional caracterizada por uma comunicação afetiva que possibilita
a compreensão do outro em seus sentimentos, emoções e comportamentos.
A
compreensão favorece o interesse pelos fatores que motivam ou influenciam as
decisões e os comportamentos de uma pessoa. Assim, o princípio da empatia é a identificação
entre as pessoas para que as relações se estabeleçam baseadas no entendimento,
no apoio e na cooperação.
No livro Os 7 Hábitos
das Pessoas Altamente Eficazes, Stephen Covey, ao relatar uma experiência
própria, nos propõe uma reflexão importante sobre o uso do julgamento e da empatia
nas nossas relações e na forma como significamos o mundo.
Na minha prática
clínica, utilizo muito está história para ajudar os meus clientes a refletirem
sobre o caráter limitador do julgamento para as relações.
“Era uma manhã de
domingo, em um metro em Nova York. O cenário era calmo e tranquilo, no qual, as
pessoas que estavam ali liam jornal ou divagavam. Subitamente, um homem entrou
no vagão com os filhos. O homem sentou-se e fez a menção de que iria descansar fechando
os olhos. As crianças começaram a correr, atiravam coisas e puxavam o jornal
das pessoas que liam. Aquelas crianças se comportavam mal e faziam muita
bagunça.
A irritação estava
estampada no rosto das pessoas, mas ninguém se mobilizou a tomar qualquer
decisão. Foi aí, que ele decidiu se aproximar do homem e manifestar sua
indignação. Verbalizou, claramente, que as crianças estavam perturbando as
pessoas e pediu que o senhor às controlassem, de alguma forma. O senhor, olhou
para ele e disse que haviam acabado de sair do hospital, sua esposa, mãe das
crianças, havia falecido, há aproximadamente uma hora, e nem ele e nem as
crianças estavam sabendo lidar com a situação.
Naquele momento,
tocado pelo sofrimento daquele pai e daquelas crianças pode refletir e rever seus
pensamentos e comportamentos diante da reação desajustada daquela família.
Aquele pai não era
passivo ou permissivo e aquelas crianças não eram mal-educadas.
Estavam todos
mobilizados por intenso sofrimento e desorganizados emocionalmente, tentando,
de alguma forma, assimilar ou negar, a terrível informação da perda da mãe.
Nesta história a
crítica e a intolerância cedem espaço para a compreensão e a empatia.
Usar a empatia na
relação a dois favorece ao casal uma comunicação afetiva, uma vez que eu
posso compreender as dificuldades, limitações e possibilidades que estiveram
presentes em uma determinada atitude do meu cônjuge.
Alguns comportamentos que favorecem a empatia na
relação com o cônjuge:
* Abrir espaço para o diálogo e para o desabafo,
favorecendo a intimidade entre o casal;
* Escutar o outro
em suas angústias sem fazer colocações que minimizem seu sofrimento como: “isso
não é nada, existem situações piores”, “pense pelo lado positivo” ou “logo,
tudo ficará bem”. O simples ato de ouvir e suportar a dor do outro é uma
manifestação de carinho e companheirismo.
* Evitar supor ou
imaginar como o outro se sente;
* Evitar críticas
e desqualificações ao cônjuge.
* Evitar o diálogo
em momentos críticos com reatividade emocional intensa. Sob situações de
estresse, a capacidade de compreensão fica comprometida e a possibilidade de
brigas é muito alta.
* Criar acordos
onde cada companheiro possa ajudar um ao outro a se acalmar e reestabelecer o
controle emocional, diante de situações intensas.
* Oferecer apoio.
A presença é uma grande demonstração de apoio. O estar junto sem a
interferência da tecnologia e da internet
favorece a conexão afetiva, o olho no olho e a escuta ativa.
* Entender as
decisões e os comportamentos do seu companheiro sem avaliá-los com as suas
crenças e os seus pontos de vista permite uma aproximação livre de julgamentos.
Entender o outro buscando compreender os motivos (as dificuldades e
possibilidades presentes na situação) que influenciaram seu comportamento
favorece a tolerância e cumplicidade entre casal.
A empatia é uma
habilidade, e como tal, pode ser desenvolvida como medida de prevenção de
conflitos e crises conjugais e como fator de proteção nos casos em que o
conflito já esteja instalado na relação.
Fabiane Matias -
psicóloga clínica e psicoterapeuta de família e casal
Especialista em
Psicologia Hospitalar e da Saúde pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e
Especialista em Terapia de Família e Casal pela
UNIFESP.
Membro Titular
da Associação Paulista de Terapia Familiar de São Paulo
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